dia 109 - o dia dela

então
o dia dela
eu a vê-lo desde uma véspera em que não a conhecia sequer

uma ignorância órfã feita deserto
que acabou por esgotar-se na silhueta de luz que a revelou

um sol oblíquo a insistir no horizonte
a desenhá-la para lá de mim
tatuando-a num solstício que não acaba nunca

o dia dela
então
a pedir-me que lhe escreva
esquecendo que quando escrevo
seja o que for
contém sempre um eco que a busca e a anseia

o dia dela
a pedir-me que diga aos astros a razão de hoje estarem onde estão
de lhes lembrar que estariam eles num outro lugar não fosse hoje o dia que é
ou estando eles no mesmo lugar lhes faltaria o propósito
e é sabido
sem propósito não há órbita que se sustente

eu
sigo
torneio ao redor de uma juba de leoa
de um sotaque que me embala
no cetim de um língua
no suor partilhado
e no afago do amor


Rua da Torrinha, Porto em abril de 2024

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