dia 110 - aspiração

não se pense que é fácil
ir por aí até onde se pode
porque o caminho não acaba nunca

e ir até onde se pode será o limite

mas e ir para lá
pergunto

ninguém responde
porque para além de ninguém saber
não há sequer saber para revelar

sim
é um emaranhado cognitivo
uma impossibilidade a pulsar na permissa
como os paradoxos inquebráveis que aqui e ali se instalam no correr do tempo

mais do que o desconhecido
é pressentir que para além dele ainda há mais qualquer coisa
um lugar inominável e incomensurável
pois nem as palavras nem as medidas fazem sentido

vai-se até onde se pode e depois imagina-se onde se poderia ter ido
mas o que sobra ainda depois disso
não se nomeia nem se contempla

até a poesia começa a falhar quando se acerca dessas coordenadas

talvez o amor
talvez a gratidão
talvez a solidão e o silêncio

talvez essas coisas aflorem esse impossível
quem sabe se não são as manifestações de uma realidade que ainda estamos a aprender
quem sabe se quando se calam e apagam
este lado de cá se desmorona
pois nada se aguenta sem sustento

e talvez por isso
mesmo depois de se ter ido até onde se pôde
a alma humana acaba sempre por aspirar em ir mais além


Às portas do Saara, Tunísia, agosto de 2017

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