existem noites tão escuras
que nem as próprias mãos conseguimos ver
elas não passam de um contorno de penumbra distante
imaginem então o que fica para lá delas nesse poço noturno
uma praia cuja língua parece não ter fim
uma cordilheira enrugada de pequenas covas cujo padrão esconde um código por decifrar
da orla ao horizonte
mar e céu fatiados por várias camadas de nuvens
enfim
para lá das mãos encobertas por essas noites de breu
cabe tudo isso e muito mais
incluindo um embuste
enquanto dizia estas coisas
os outros olhavam-se e procuravam entender
tinham-se juntado à volta dele com diferentes motivações
uns curiosos outros sedentos de sangue outros sedentos de companhia
nenhum saiu satisfeito quando as palavras acabaram e ele se esfumou de repente
o silêncio e a desilusão também se foram dissipando pela tarde
haveria um outro a falar num lugar mais à frente
era sempre assim
os loucos nunca se esgotam
e menos ainda o público que atraem
mais cedo ou mais tarde
será noite
e para lá dela
cada um semeia o que quiser
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