dia 106 - embuste

ele falava para os que o rodeavam

existem noites tão escuras
que nem as próprias mãos conseguimos ver
elas não passam de um contorno de penumbra distante

imaginem então o que fica para lá delas nesse poço noturno

uma praia cuja língua parece não ter fim
uma cordilheira enrugada de pequenas covas cujo padrão esconde um código por decifrar
da orla ao horizonte
mar e céu fatiados por várias camadas de nuvens

enfim
para lá das mãos encobertas por essas noites de breu
cabe tudo isso e muito mais
incluindo um embuste

enquanto dizia estas coisas
os outros olhavam-se e procuravam entender

tinham-se juntado à volta dele com diferentes motivações
uns curiosos outros sedentos de sangue outros sedentos de companhia
nenhum saiu satisfeito quando as palavras acabaram e ele se esfumou de repente

o silêncio e a desilusão também se foram dissipando pela tarde
haveria um outro a falar num lugar mais à frente
era sempre assim
os loucos nunca se esgotam
e menos ainda o público que atraem

mais cedo ou mais tarde
será noite
e para lá dela
cada um semeia o que quiser


ps - Praia da Calheta, Ilha de Porto Santo, julho de 2022

Sem comentários: