numa gaveta esquecida do passado
jazem rascunhos fora de prazo onde
de vez em quando
vou espreitar para ter a certeza de que aconteceram coisas
não vá o presente impor-se sozinho sem nada que o sustente
dos versos que encontro
sobra uma praia que parece ter dois céus por instantes
como se os deuses tivessem decidido arrastar as nuvens com a ponta dos dedos
a tarde varrida por um vento que já nem sei se era norte ou sul
e a minha deslembrança a galopar pela orla até se render na espuma de sal
ao lado
mais palavras cuja voz padeceu
carcaças de uma intenção poética que não acompanhou a urgência da altura
mas que hoje prevalecem enquanto que essa urgência já há muito se dissipou
o que se propaga pelo universo é o mesmo que o fixa
e nos alicerces destas coisas
habitam então poemas inertes
que falam sem que o tempo importe
como se tivessem inventado um gerúndio inquebrável
unindo o início e o fim
desfazendo causa e efeito até convergir num assombro
há um infinito que espera nesses lugares fechados
com a paciência inesgotável de um incêndio silencioso
por isso
quando a gaveta se abre
um fio eleva-se até se esfumar pelo éter
qual incenso de aroma psicotrópico
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