dia 103 - e ele nem era poeta

ficava acordado a espreitar as luzes dos apartamentos a insistir na madrugada
eram quase sempre as mesmas
e de vez em quando
umas outras que só raramente iam luzindo a horas tardias

também se dedicava a acompanhar as sombras
ia espiando-as
vendo-as esticarem-se até ao ocaso as engolir numa penumbra indiferente

outras vezes
passava horas ao espelho com um único propósito
esperar que o próprio reflexo desaparecesse
e assim assistir ao despenhar do infinito nos dois sentidos sem o obstáculo dele a existir no meio

é que o tempo tropeça em nós
como uma pedra que cai num rio
ou uma lomba no final de uma descida

estas coisas definem o universo
as manias
as cismas
os devaneios
as exceções

os versos que sobrevivem
enquanto tantos outros nascem e morrem num instante
uns porque hesitam
outros porque não encontram as palavras que os sustentem

e ele nem era poeta
calhava de estar por ali
de ter estado por ali
de ir estando por ali
de vir a estar por ali


ps - Foz do Douro, Porto, outubro de 2025

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