dia 91 - a tua ausência

o que fica é um nevoeiro e um perfume
a tua ausência estes dias tem vindo

é uma companhia agradável
quieta e inquieta nalguns momentos
como que há procura de saber onde está

eu distraído noto-a sobretudo no quarto
há um deserto a ser
e quando lá entro não deixa de ser
chega-se um tanto para o lado
mas não se enrosca em mim nem despeja os caracóis sobre a tua almofada
não se espreguiça de manhã
aliás
de manhã nem está e por instantes ainda mais a noto

à noite vem ter comigo
adormece depois de mim
o que é o contrário de quando estás
ela é que me vela o primeiro sono

estas coisas sabem a tempo
não sei bem dizer o que isso significa
é uma mistura de passado mas com um final longo de futuro
como uma especiaria picante que vai crescendo e aquecendo por dentro

quando voltares
espero mostrar-te essa tua ausência
os vestígios de um silêncio que anseia
dos mil abraços por dar
dos meus lábios secos de esperar
do meu corpo enfim liberto
enfim em casa


ps - "despertar", a centésima décima terceira "cama desfeita", Porto, abril 2022


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