a pena

a poesia é a queda de uma pena
lenta e suave na descida até ao chão
esburacando-o com estrondo
como se de um piano lançado do décimo andar se tratasse

do ler

Uma ilha escura dizem. Levo os meus olhos para confirmar. Daqui a uns dias, a sul, rodeado de mar, pisando um chão lunar. Sonho com coisas assim desde sempre. Ou pelo menos desde que leio. A todos os sítios que fui, posso dizer que a leitura e a sua ressaca de imaginação, já lá me tinham levado. E se é certo que nada substitui o ver para crer, todo o solo que pisei e paisagem onde olhos derramei, mais mágicos se tornaram porque já a minha alma desbravara esses territórios através das palavras.

desescrever-te II

e depois de te desescrever
de descrescer todas as palavras que por ti semeei
des-sonhar-te também
deslembrar-te até ao mais recôndito de uma lembrança nossa
não é esquecer-te
isso é uma impossibilidade
falo de regressar a um passado que não existiu
um passado depois de nós sem que o nós se pudesse reconhecer

mais do que deixar de te sentir
seria uma forma de nos viver uma vez mais
mas ao revés
de pernas para os ares

tudo isto é mais uma declaração de amor
imaginar
ou desimaginar-te de uma só vez
até ao local
ao momento
ao gesto primeiro do nosso amor

provar essa infelicidade de um antes de nós

sei
sei bem que o escrevi antes
mas tudo isto é
como já o disse
uma declaração de amor

des-sonhar-te para que o meu sono seja um silêncio final de nós
para apenas
uma vez mais
chegar o teu deslumbre total
e arrebatar-me até aos versos loucos que escrevo
amar-te tanto
que pensar ao contrário é também uma forma de te amar

não sei
falta-me o jeito
a arte
a sorte na álgebra das palavras existentes para que elas se encadeiem como deveriam
ou então
o mais provável
é não existirem as palavras certas para esta missão insana
que é desescrever-te de novo

desescrever-te

desescrever-te
isso mesmo, desescrever-te

recuar ao silêncio antes de nós
desfazendo todos os versos que fui rasgando
desbrilhar-te da minha alma até à escuridão primordial de mim
despir-te
desalmar-te
chegar ao tutano do amor
ao húmus inicial de tudo isto

e encontrar aí o antes da felicidade que me és

Com todo o universo

O sol demora-se um pouco mais estes dias. Preguiça acima da linha do mar e do céu, embalado por uma nuvem ou outra vai caindo. Depois mergulha, afunda-se, desvanece. Ficam sombras de labaredas no firmamento até a noite cobrir tudo com estrelas e pássaros nocturnos. Há uma melancolia subtil nisto tudo. Há a possibilidade do silêncio infinito, do murmurar soturno das ondas e de outros segredos voláteis.
Cá dentro, sobre a cama, as linhas do teu corpo adormecido, esbatidas com as dos lençóis e o teu sono a rondar à volta. Vejo tudo isto, quieto. Os quadros nas paredes fazem o mesmo e o gato esgueira-se a meus pés. Há roupa no chão e livros por ler nas mesinhas de cabeceira, promessas adiadas e outras cumpridas já.
Passa um carro em velocidade lá fora, corta a noite como um bolero rápido. Volta o silêncio. O tempo em vagas vai passando e o teu corpo estremece ligeiramente, espreguiça-se e volta à quietude. Os quadros já dormem também. Apenas eu e o gato velamos. Até as palavras se calam, cessam, falecem. Estamos sós, que é o mesmo que estar com todo o universo.

ao encontro

descer de mim
ir até à estacão
ou ao cais
ou à biblioteca
ou às profundezas da alma

e ir ao encontro
de todos os combóios
de todos os barcos
de todos os versos
de todos os gestos

regresso

Ela virou costas e foi. Vi-a afastar-se. Cada vez mais longe. Quando desapareceu no horizonte, virei eu costas e esperei. Um dia, sendo a Terra redonda, ela voltaria a aparecer, do outro lado, e o afastar-se passaria a ser regresso.

Casa

Tive e tenho a sorte de poder chamar "casa" a vários lugares. A primeira terá sido a dos meus avós maternos, onde vivi os primeiros 5 anos da minha vida e à qual regressei muitas vezes em férias na infância. Foi a casa da memória mais antiga que tenho: a luz fatiada pelos buracos da persiana no quarto, do barulho de tachos vindo da cozinha e de uma marquise que dava para um quintal. Outra casa é a dos meus avós paternos onde os Natais mais felizes aconteceram e onde em frente da mesma infinitos jogos de futebol joguei com primos, pai e tios. Outra ainda, a casa dos meus tios na Cantareira, onde dormi todas as férias da infância e adolescência e onde, ainda hoje, como as melhores refeições do mundo. O apartamento dos meus pais, com o mar em frente, onde vivi "sozinho" nos anos de faculdade, com uma luz única e uma atmosfera que me inspirou tanto a amizade, o amor, como a melancolia e a poesia. O apartamento onde vivo com a Lira há quatro anos, porque está lá ela e isso chega.
Mas uma casa foi mais casa que as outras. Em Moorsel, na Bélgica, a casa a que voltava da escola durante mais de 10 anos e onde os meus pais viveram quase três décadas, onde a minha irmã "nasceu". Uma casa que construímos, com um bosque mágico atrás, onde passei de criança a homenzinho, onde escrevi pela primeira vez com o sentimento de escrever, uma casa numa aldeia cujo clube de futebol representei em todas as camadas e ao qual voltei anos mais tarde. Uma casa de tanto ser casa que já é parte de nós, que se esquece no dia a dia como se esquece de que se respira. E uma casa é feita de gente e aquela era a dos meus pais, a da minha irmã e a minha, onde recebemos família e centenas de amigos dos quatro cantos do mundo.
É triste ter de a deixar. Ficam as memórias é certo, essas não se vendem, não se trocam.
A casa, o Gilreu de Moorsel, tal como a rocha em frente à Foz, imutável na alma, no âmago, no mais profundo recanto do meu carinho, da minha gratidão.



Douro

Uma vez mais no Douro. Na Quinta do Bomfim no Pinhão. E uma vez mais esta imensidão arrebata-me. Estamos no fim de Maio e faz um calor tal que pensar no que será isto em Agosto assusta todos os poros. Imaginar o Douro é errar por muito. Mesmo lê-lo, seja aqui neste amontoado de palavras, seja pelo acerto e beleza de um Torga, fica-se muito aquém do que a realidade dos olhos nos dá. Não se entende tamanha obra, da montanha cortada a meio por um rio, inclinada sobre esse correr de água, feita apenas de pedra, de um xisto áspero e rude, crescem vinhas. E a vinha é toda ela um poema. Estive cá em Fevereiro, vi-a nua, tolhida, metida dentro, torcida, cheia de rugas, e hoje, uma folhagem de um verde intenso já a cobre toda e pequenos projetos de cachos estendidos e tímidos pendem dos engaços. Saber que daqui a meses, depois de levarem com todo este mar de sol e de calor, as uvas vão dar vinho, é uma imagem tão absurda quanto maravilhosa. Mas isto não é um milagre, isto tem gente à volta o ano todo, gente que vou conhecendo e por quem uma admiração tão grande sinto que nem sei dizê-la direito, porque é um trabalho titânico feito à mão, por mãos iguais às minhas, às de todos, mas com uma dedicação e um saber ímpares.
Emocionamo-nos por muitas razões na nossa vida, e as que melhor nos aconchegam a alma, por também a inquietarem, são as que nos chegam por razões que desconhecemos, pois nascem no antes da alma e por aí trepam até ao sentir, sendo algo mais forte que nós, algo malgré-nous, genuíno.
 
Fevereiro
 
Maio


o definitivo

o mais difícil será agarrares a tua voz
porque a ouves mas ela escapa-se-te
esgueira-se por entre o tecido do tempo
escorregadia como as lembranças mais antigas
 
sabe-la como quem sabe os instintos, o amor, o infinito
a questão está no momento exato em que ouvi-la é também seres dela
ou ela tua
ou um do outro
 
a tua voz, aquela que fala por ti no silêncio da alma, por fora dela e para além dela
é parte de ti e de tudo
e versos escrevem-se sobre tudo isso
versos póstumos desse momento preciso em que tudo se revela
tu em comunhão com a imensidão das coisas
a pertença e a solidão simultâneas
o definitivo

a mais obscura revelação da verdade

Voltou o sol e um pouco de calor. Com isso, a luz abraça mais esquinas e recantos. O olhar vai mais além e pode envolver-te em lugares que tinhas esquecido. Relembrar certos afetos faz estremecer a melancolia latente dos sorrisos tímidos. A intimidade de outrora ergue-se até à pele e reencarna na memória. Gestos, cheiros, emoções de um antes revelados tenuemente no agora, no imediato frágil, deixando apenas um travo incompleto do que fora um abraço ou um beijo. Não se finge nada nunca, o fingimento é tão real quanto a honestidade,  por muito que não pareça, são feitos da mesma matéria e nem a arte de mentir ou de enganar é diferente do genuíno e espontâneo amor ou arrebatamento. Vamos sendo em tudo, até mesmo no que fazemos de conta. Na verdade, com o regresso do sol, do calor subtil e toda esta luz, a poesia não deixa de ser a mais obscura revelação da verdade e o amor sua manifestação incontrolável. Amar é mais forte do que nós, como a fome ou outras urgências.

apenas teu

tanto silêncio depois
tempo resvalado para o passado
palavras não escritas no adiamento de seres tu

a mesma velha história de calares
de te esvaíres em sombras no lento correr dos dias
no desvanecer das noites
no derramar sereno das madrugadas
a velha lengalenga do teu abandono perante a escrita

a tua sina
seres o teu silêncio
igual a tantos outros
mas teu
só teu
apenas teu

a beleza absoluta

A beleza absoluta, disse Torga sobre o Douro. E disse tudo, da melhor forma possível claro, como só ele sabia. A beleza é muito mais que o ser bonito, é o que está antes na sua raiz e o que está para além. No Douro, o antes é a génese do que a paisagem avassaladora revela. É mais do que a montanha e mais que o rio que ao meio a corta. É a ideia louca de se ter ousado sonhar em plantar uma vinha nesse lugar irreal e de para isso se ter esculpido em suor e sangue todos esses montes, desenhando-os contra o xisto, as urzes e a gravidade. E desse sonho se ter tornado real e do solo brotarem então vinhas e, entre elas e o Homem um pacto de sofrimento mútuo através dos séculos se ter gerado. Gente e planta a trabalharem para lá dos seus limites e desse esforço sair um vinho, que de tanto trabalho, de tanto sacrifício e entrega só podia ser generoso.
Termino como comecei, disse-o Torga perfeitamente: o Douro, a beleza absoluta.


as árvores ao contrário

as árvores ao contrário
as raízes no cimo, magras e histéricas viradas ao céu, recortando os veios em contraste com o branco das nuvens pálidas
em silêncio petrificado, um esforço derradeiro de seiva, em vão por agora
talvez mais à frente na combustão da primavera recuperem e disfarcem em folhagem o esqueleto real que vão sendo
o que revelam para já é a contradição da própria existência
a batalha contra a força invisível da gravidade a cada ramo que se ergue um pouco mais e a luta assombrosa de cada raíz que rompe o atrito do subsolo, pela terra e pedras que as trava
as árvores hibernadas delas mesmas, quietas em silhueta, pilares de nada, monumentos do mais profundo desconhecimento

mesmo sem palavras II

mesmo sem palavras todo o impossível acontece
secretamente
veladamente
por entre os silêncios mais subtis, como brisas, indícios, ecos

no infinito de sermos, de estarmos por aqui face ao fim do chão, na queda eterna de uma paisagem, a alma é quase palpável, maleável
e mesmo sem jeito ousamos manusear esse tecido divino da solidão, da mais profunda solidão, como se a melancolia por momentos se ouvisse no ar

mesmo sem palavras, existes, tu e todo o estremecimento que me lanças, como um rumor de dentro, um vulcão invisível

na mudez do cosmos, na incomensurável lonjura das cassiopeias, no mais escondido canto do mundo, a possibilidade de todas as coisas jaz, ainda que ténue, ainda que esmorecendo a cada instante

a esperança é a última coisa a morrer, seja a esperança das coisas belas como a das mais ignóbeis

mesmo sem palavras todo o possível não acontece nunca

mesmo sem palavras

gastaram-se todas as palavras, nos seus lugares largos desenhos de gestos vazios e olhares distraídos, a chuva caindo sem parar há mil anos, o silêncio profundo das almas mudas semeadas pelas ruas
 
sem palavras ou apenas as ruinas do que foram, a quietude é imensa e sob a chuva velha reina uma paz ignorante, esvoaçam os desenhos e silhuetas dos acenos e perdem-se ao longe no firmamento os olhares do mundo inteiro
 
melodias secretas ondeiam pelas esquinas, o tempo feito bruma esfumando-se pela madrugada até nascer o dia definitivo, final, derradeiro, lançando sobre o oceano toda a luz imaginada, estrelando o mar em mil sóis irrequietos
 
mesmo sem palavras dizem-se coisas, pensam-se ideias, amam-se sonhos
mesmo no mais ruidoso silêncio fulminam-se emoções, daquelas que corroem os espíritos, que enlouquecem os seres
 
mesmo sem palavras todo o impossível acontece
 
 

sombra sobre sombra

o que cobre parte da tela é uma sombra perfeita
desenhada no pretérito pela passagem de luz por uma jarra sobre a mesa. o que sobra é a alvura do inexplorado
é o reflexo total da gama cromática
revelando
por isso
o branco restante do quadro
 
o desenho em penumbra da jarra vai movendo-se ao ritmo do sol
(na verdade o que se move somos nós e todo o globo na translação)
e esse movimento varre durante horas toda a tela ensombrando um lado e desensombrando outro onde antes jazia. a sombra é firme mas não tem a densidade da noite que virá mais tarde
ela desenha o contorno definitivo da silhueta da jarra em pequenas nuances de cinza.
 
por fim alguém pousa um outro objeto sobre a mesa e uma sombra maior projeta-se sobre a tela cobrindo o esboço de jarra
sombra sobre sombra
mais densa agora mais parecida com a noite
sombra sobre sombra tecido de breu
de treva
 
do quadro fica apenas um canto branco tudo o resto enoiteceu como se o silêncio se desenhasse e se fizesse traço
mesmo que tudo seja luz
fotões átomos
sombra de sombra
cisma
poeira estelar
combustões cósmicas
poesia
tu

pede-me versos

pede-me versos a noite
e finalmente cedo
como um vício
um arrebatamento da alma

e por isso mesmo
sendo um vício
nem sempre é bonito de se ler

testamento

deixo tudo
como tudo se deixa quando se apaga

deixo nada
como nada se deixa quando se some

e o meu testamento é igual ao de todos os homens
vazio e silencioso
um infinito de nada

certamente ecos do que fiz permanecerão algum tempo
vibrando na lembrança de alguns
mas tudo o tempo consome
tudo o tempo dilacera e fulmina

a própria carcaça mingará até ser pó
até regressar à quietude que é definitiva

deixo tudo e deixo nada
as próprias palavras espelho disso mesmo
som e silêncio
ideia e deserto
finais e fúteis

houve um tempo

houve um tempo de sol a entrar pela janela da sala
iluminando os quadros e desenhando sombras sobre as paredes
havia o mar ao fundo sob um céu de azul intenso
enrugado de prata, estilhaçando a luz em mil reflexos

as horas a passar devagar ao ritmo do silêncio
tu e toda a quietude desse cenário
a profunda melancolia da solidão
da espera

houve um tempo de noite a esgueirar-se sobre o sol
a cobri-lo aos poucos levando-o para lá do horizonte
deixando sobre a mesa da sala toda a poesia possível
todo o teu atabalhoamento com as palavras
esse doce jogo de literatura que te enganava
tanto parecendo infinito como perecendo no mesmo instante da leitura

houve um tempo de madrugadas eternas
o firmamento insistindo em escuridão largas horas
e a tua insónia enraizada nas páginas alvas dos cadernos

houve um tempo de manhãs pálidas
esgotadas por noites em branco
manhãs deitadas em camas por fazer
onde te encolhias e finalmente dormias
ou algo parecido com dormir
adiavas-te esperando um futuro imaginado
conquistado por dentro mas deserto por fora
como todas obras por criar

Torrente

Não era sempre, mas às vezes, devido provavelmente a uma abertura da alma, qualquer palavra que ouvisse ou lesse, representava todas as palavras. Imagine-se, lia água e era de imediato submerso com o infinito do léxico no pensamento, uma torrente de semântica avassaladora, um maremoto de tudo, e por segundos, breves segundos, tornava-se conhecedor de todas as coisas possíveis. A experiência era tão violenta que ficava perto do desmaio e do esgotamento físico, mas conseguia entrever nesse brevíssimo instante tudo e o seu contrário, da mais fútil das coisas à mais profunda revelação de todos os mistérios.

A imensidão

Faltam-te as palavras para falares desse imenso silêncio e dessa infinita distância. Quando se te ilumina a evidência da nossa pequenez, quando se te revela a tão mesquinha condição humana face ao cosmos indiferente. O nosso olhar é mais pequeno que a alma mas não deixam de estar no rosto, de ter utilidade. Olhas essas imagens e a vertigem que sentes é todo um tratado. Nas nebulosas onde se geram todos os átomos, onde se regenera toda a matéria, onde tudo se transforma, tão infinitamente longe de tudo isto. No fundo, lá, nesse longe, à nossa compreensão humana deveria chegar o mais difícil dos sentimentos: a humildade. Talvez não sejamos capazes, talvez seja essa a nossa sina. Mas a verdade, a crua verdade, é que isso pouco importa. A imensidão é tudo o que existe.

Juntos

Pois. Cá estamos, os dois, eu e a tua ausência. Juntos. Não sei se o sabia desde o início, mas agora, anos passados, posso dizer com a vaidade dos falsos profetas, que sempre soube, sempre o senti, acabaria assim, num terraço sobre o mar, um copo vazio e uma sede cansada. Sempre o soube, mesmo na ignorância que cultivei com afinco, que o destino é o lento desenrolar das companhias até não restar nada que não seja a nossa carcaça e o eco de quem connosco esteve. E sabia também, num qualquer canto da alma, que hoje o céu seria de um azul límpido, fino, asséptico, neutro, propício a isto mesmo.
Cá estamos então os dois, a tua não presença e a minha existência rendida, prostradas ambas sob o mar e sua condição milenar de lançar e recolher ondas, tudo sob o céu cristalino de inverno. Do copo vazio sobe a lembrança da sede cansada de há pouco, e no meu egoísmo inocente, nem te perguntei se querias também tu beber alguma coisa. É certo que não estando tu presente mas antes o teu vazio, talvez não seja sede que sintas mas antes um desprezo profundo, um ignorar final do meu ser. Sim, ficam as cicatrizes do que fomos, mas não sendo, não sentindo, as cicatrizes também elas se arruínam, desfalecem mesmo que petrificadas, como as pegadas do Homem na Lua. Estão lá sim, mas é como se não estivessem.
Cá estamos como previ nas inúmeras adivinhações que fiz por dentro, na petulância típica de um poeta menor, eu e o teu deserto em mim, infinito de ilusão, palco imenso para as sombras que calham moldar a partir de agora. Teatro para meu próprio recreio, tudo isto no horizonte marítimo que se revela deste terraço, por baixo de um céu tão azul quanto possível e um copo tão vazio quanto o impossível.

A tentativa de alcançar o impossível

Viste-o de novo ontem. Passaram-se anos. Está com melhor aspeto. E, se aos teus olhos, permaneceria um Grande, mais ainda o é hoje pois viste-o a escrever.
Comprometido com as palavras. Talvez seja mais forte do que ele mas escrever é isso mesmo, abraçar a sina das palavras, ir mais além.
Morreremos todos e no infinito disto, seja no desfalecer do universo, seja no recomeço cíclico do cosmos, o silêncio, o profundo silêncio prevalecerá. A questão é que alguns, poucos, heróis, danados, condenados, no intervalo disso, abraçaram a poesia com a alma e o corpo e dedicaram-se à imortalidade.
Em vão, sim.
Mas não há nada de mais belo que a tentativa de alcançar o impossível.

um dia repleto de silêncio

um dia repleto de silêncio para preencheres
um dia igual aos outros
imerso de rotina de coisas expectáveis de conforto
 
todo um deserto em branco que de repente alguém preenche em sangue
em chacina em roubo do próprio silêncio
sem palavras nem silêncio apenas um nó fica na fonte do discurso
sem poderes falar ou calar
 
mas não há chão que fique infértil para sempre
a liberdade hiberna mas não se extingue
não enquanto houver uma palavra, um desenho ou um gesto pronto a brotar

essa vertigem

viste um solo lunar, queimado pelo frio e pelo silêncio, deserto, petrificado em tempo, como se por magia o cosmos tivesse abrandado a tal ponto que só um olhar que alcançasse milénios detetaria mudança,
viste as pedras amolgadas por um glaciar já desaparecido, roçando o céu azul e quieto, sentiste o que sempre sentes quando o abismo se te aparece,
rendição, comunhão.
bem que tentas escrever tudo isso, de todas as vezes, de cada vez, sempre,
e como de costume, não consegues palavras que captem isso, essa coisa, esse deslumbre, essa vertigem

o silêncio que se diz

gerados nas estrelas
na combustão silenciosa do cosmos
num oceano de forças incomensuráveis
na origem do próprio tecido do espaço
e do tempo

resultado de um acaso
seguidor das regras imutáveis da ciência
essa religião caótica cujos dogmas se aniquilam entre gerações

chegar a este momento
a este espaço em branco
é um milagre inexplicável

a poesia é tão só
um eco das explosões celestiais do antigamente
um antigamente tão distante
que tornava impossível a leitura inicial
as letras eram do tamanho das galáxias
e os nosso olhos menores que átomos

o livro não tem grandeza perceptível
os versos são como raios estelares
lançados à velocidade da luz rasgando todo universo
de ponta a ponta
sem início
sem fim

já o escrevi antes

a poesia é o silêncio que se diz

O Medo de Al Berto

Já não me recordo quando encontrei Al Berto e as palavras dele. Lembro-me, isso sim, do fascínio que sentia de cada vez que via "O Medo" numa livraria. Um calhamaço com um título aterrador. É certo que se trata da antologia da obra poética do autor, isso explica o calhamaço, mas um título assim só se explica pela ousadia e coragem de quem sabe que escrevia a sério. Qualquer um pode escrever, mas dar títulos assim tão reveladores, tão exatos, tão finais, tão carregados de infinito, não é para todos. No fundo, há que merecer em talento e esforço, para se publicar uma obra com um nome assim.
São centenas de páginas, milhares de palavras, e o que "O Medo" nos oferece é uma imensidão de erros. Al Berto sabia que escrever era errar e errar mil vezes. E no meio desses erros não acertou nunca, e nesse nunca acertar, acertou, aqui e ali, um e outro verso e outro ainda e muitos outros, numa obra que lhe saiu do corpo e da alma.
Foi a Lira que me ofereceu o livro no Natal de 2007, sabendo ela do meu fascínio pelo objeto em si, deu-mo no hábito nosso de trocar sempre um livro no Natal e escreveu uma dedicatória que para mim guardo.
A leitura comecei-a a 30/09/2008 na Bélgica, em Leuven e terminei ontem, a 08/12/2014. 6 anos de leitura, de anotações e sublinhados, de citações passadas aqui no blog ou no twitter. Regressa à estante mais gasto. Com certeza a ele regressarei algumas vezes no futuro.

 
O que posso dizer, é que muitos dos versos que Al Berto escreveu, gostaria eu de os ter escrito. E dizer isto é tão só dizer que, se calhar, os escreverei à minha maneira um dia. Dizer isto é dizer que a poesia é a revelação da ligação silenciosa entre almas.
 
Transcrevo alguns versos que fui sublinhando. Exemplos de rendição da minha parte:
 
"onde estarei a enlouquecer?"
 
"a cidade acorda menstruada pelos seus próprios crimes"
 
"esqueço-me-te"
 
"a noite descansa em teu peito aberto à navalhada"
 
"e a nítida água desta memória vai secando"
 
"a fala de quando os homens não possuíam espelhos para se suicidarem"
 
"mas vai chegar inverno
o corpo afrouxar-se-á como o fazem algumas flores
ao cair da noite dobram-se para o fulcro morno da seiva
e cismam um sonho de ave que só a elas pertence"
 
"quando escrevo mar
o mar entra todo pela janela"
 
"vou partir
como se fosses tu que me abandonasses"
 
.
.
.
 

manhãs limpas de inverno

Sempre houve manhãs de sábado e de domingo limpas de luz, inundando salas e silêncios. Manhãs frias de inverno, mais até do que limpas, eram límpidas, cristalinas, perfeitas num esboço de pureza, cheias de exatidão, de harmonia. As árvores despidas, erguendo-se ao céu num esforço de seiva discreta e oculta, desenhando sob o horizonte o recorte de ramos e galhos frágeis, voos de aves a espaço, quebrando o azul celeste em veios alados, nuvens muito distantes, pálidas e fugitivas, navegando para outros firmamentos, esfumando-se no longe.
Sempre houve manhãs limpas de luz no inverno, ideais para a contemplação, essa raridade da alma, libertando-a na ilusão, no fascínio, na rendição, na paz e quietude.

Memória e amnésia

Poderia ter passado os olhos pelo livro e ser apenas isso o que aqui me traria. Mas não, passou os olhos e os olhos lá ficaram, ancorados nas palavras que lá estavam. E dito isto há que dizer o resto. As palavras diziam coisas, o que por si só não chegaria, mas as coisas que diziam eram da mais profunda beleza, da mais redonda e perfeita poesia. Como não prenderem-se e perderem-se então os olhos por lá? A beleza é isso, o íman, a vertigem, a gravidade com o peso de sua infinita e inquebrável lei.
Mas para ser sincero, no limite do que a sinceridade permite num exercício destes, o que me traz aqui será uma outra coisa que não a perda dos olhos de quem os passou pelo livro. O que me traz aqui é algo que esqueci. É sabido que o olvido ocorre quando se julga estar perante o que se revela ser novo. Mas de novo nada existe, apenas o esquecimento renasce, cada vez mais perfeito, mais intenso nessa força bruta que é a inspiração.
Do livro ficam os ecos e as citações sublinhadas a lápis e uma nova leitura no muito mais futuro que o daqui a pouco. Do solene e reverencial ato de esquecer e julgar-se frente ao que nunca antes existiu, fica, tão só, um equívoco, pois apenas existe memória ou amnésia e o meio termo de ambos.
Chegamos, por isso, facilmente à conclusão de que memória e amnésia são uma e a mesma coisa, tecido do mesmo pensar, firmamento do mesmo cosmos.
Existiram povos cuja literatura foi revelada através do esquecimento, as histórias não chegavam ao fim porque ninguém o conhecia, e em poucas gerações nem o início das histórias sabiam. Outros povos porém, a literatura revelava-se através da memória e do seu crescimento exponencial. Não tinham fim tão pouco essas histórias pois os detalhes eram tantos que jamais se chegava ao final, e em poucas gerações nem o início conseguiam contar porque a memória começava antes do início, no antes.
Quando, num acaso, o equilíbrio entre memória e amnésia for perfeito, imagino alguém passar os olhos por um livro e aí os deixar, para sempre, e um outro escrever sobre isso. Ou pelo menos tentar.

negro dos abismos


quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar
Al Berto
 
Existem silêncios desconhecidos. Propagam-se em territórios por descobrir, vales, desertos e montanhas onde a audição humana não chegou ainda. Corpos existem também ignorados. Curvas e peles e regaços onde as mãos dos homens não se perderam. Sabores velados ao palato, aromas segregados dos olfatos. quantas noites permanecerão intactas no fundo mar?  Um infinito delas, quantas forem possíveis no tecido negro dos abismos.