dia 304 - maré de infinito

os céus parecem não acabar

revelam-se nos intervalos do que acontece
tecem as esperas de uma vertigem inesperada

vão-se perdendo os olhares aos poucos
de cada vez que se erguem distraídos
vão-se esvaziando
sugados pelos firmamentos que se revelam

haverá
para lá do azul profundo
a flutuar nas catacumbas do espaço
esses novelos de vista a espraiarem-se pelo silêncio cósmico 

e cá por baixo
sob esses céus desmesurados
cai-nos em cima o assombro de um infinito
e o pasmo coalha as almas por um instante

é certo que o mundo recomeça após esses milagres
e que vamos esquecendo o que nos sacode por momentos o espírito

mas de quando em vez
por entre o correr das rotinas
lá fulminam os remendos do inesperado

e esses ápices
que por um lado não se agarram e que por outro não se desprendem
vão sobrevivendo nessa contradição
atando e desatando os nós cegos dos deslumbramentos
expirando de imediato e durando uma eternidade
falecendo agora e tatuando-se para sempre
sendo vulto e molde ao mesmo tempo e em tempo algum

os céus parecem não acabar
porque se calhar
aquilo que os sustenta
são os olhares que se vão encimando
e assim
alicerçando as abóbadas celestes no equilíbrio precário do nosso espanto
eles regressam uma e outra vez para desabarem sobre as nossas almas sedentas

no fundo
se atentarmos com calma ao que acontece realmente
é fácil de perceber
que entre as almas os olhares e os céus
há um perpétuo movimento de maré de infinito
que em pêndulo vai e vai
atravessando esse eixo na procura de um equilíbrio que nunca estagna
de um lado ao outro
ele segue para onde há espaço
e alterna
entre o vazio do que cada um carrega por dentro
e o vazio que deixa para trás quando calha de nos preencher


Bruxelas, outubro de 2026

Sem comentários: