dia 292 - entre o infinito e o sono

a sala era larga
vazia
tirando ele não havia mais nada
o que já de si evidenciava uma mentira

aliás
pôs-se a pensar
que se mesmo ele lá não estivesse
haveria de estar alguma coisa
nem que essa coisa fosse o supor que estava vazia

portanto
mesmo quando nada há
há esse nada a ser

e sim
podemos nos perder num jogo de conceitos
mas se não houver conceitos
o mundo não se sustém e acaba

assim ficou durante algum tempo
a esgrimar filosofias enquanto nada mais o distraía

chegaria a altura em que passaria a outra coisa
fosse porque o labirinto do pensamento não revelasse uma saída
fosse porque o tédio haveria tecido as amarras
fosse porque a fome ou o sono ganhariam força

era sempre assim
na solidão
a alma vinha até à superfície
e pegando no corpo procurava arrebatá-lo para que pudesse reagir

por vezes optava por passar as mãos pelo rosto
esfregando a face por entre as palmas
desmascarando uma película invisível de apatia

mas por vezes
as camadas desse aborrecimento eram tantas
que não havia madrugada que chegasse para as remover por completo

os sentidos iam-se perdendo pelos entretantos
do que não ouvia ao que não chegava a ver
terminando numa languidez do tato

a morte não deveria ser muito diferente
pensava

ou talvez fosse

porque neste limite de entorpecimento
ainda resistia uma vibração subtil do que ainda vive

basta uma centelha de esperança para que possa arder um grande incêndio de revolta
e mesmo que lavre somente por um instante
a energia que solta pode propagar-se pelo éter até aos confins do universo
e lá chegando
ainda reverbera como eco
atravessando não só o espaço mas também o âmago do próprio tempo

a sala
afinal
vazia de tudo e cheia de nada
era a testemunha de um infinito
e até a eternidade se esgotar
seria o templo do que sobrevive e recusa render-se

ou isso
ou já ele alucinava

nem sempre dá para se ter a certeza


Instant Coffee de Robert Mapplethorpe e a Maitê, Fundação de Serralves, Porto, novembro de 2018

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