o que não há para se dizer
ainda assim se diz
os ocasos do outono são sempre um excesso
demoram-se até antes de se tornarem num esquecimento
dissipam-se no ritmo lento do que nunca se apressou
os limites terrestres face aos infinitos do espírito
o sopro leve de uma brisa que já foi vento
o derrame definitivo de uma onda sobre a areia
o manto levemente enevoado do céu a tingir o olhar
estas coisas a encadearem-se umas nas outras até aqui chegarem
e o resto
aquilo que eventualmente se perde pelo caminho
ou comparece com um atraso irrecuperável
ou cala-se de vez como se nunca tivesse sido
o que não há para se dizer
ainda assim se diz
porque há palavras obstinadas
que o silêncio repele irremediavelmente
palavras que vozeiam para lá delas mesmas
que se tatuam sob a pele e aí vão murmurando até à insónia
palavras trancadas em envelopes cujo destino ainda é incerto
o poente
na verdade
somos nós
a sombra e a luz estão estáticas em seus lugares
e nós vamos caminhando para dentro e para fora de ambas a cada dia e a cada noite
rodopiamos em pião numa vertigem já adormecida
e quando parece que o sol se afasta para lá do horizonte
na verdade nós é que nos afastamos na direção oposta
um pouco como os poemas
nos versos empilhados uns nos outros
nunca se sabe bem
se são os leitores que os atravessam
se são as palavras que se propalam
o que não há para se dizer
ainda assim se diz
no fim resta a contemplação do que é inevitável
e a cada ocaso outonal
deixar que se desvaneçam um a um
no ritmo pausado e certo
até que o inverno chegue
ou nós cheguemos a ele

Sem comentários:
Enviar um comentário