dia 293 - o futuro todo já se cumpriu

na descrição ele tinha deixado as palavras guiarem
sabendo de antemão que o que seria verdade ou mentira
pouco importava no final das contas disto tudo

ou melhor
o que seria relevante
seria o diálogo entre o concreto o imaginado e o voluntariamente apócrifo

porque o céu
definitivamente era azul e disseminava-se numa abóbada de lés a lés

no entanto
o rastro subtil e alvo que pincelava um detalhe
tanto era de um cometa como de um avião como de um desejo secreto

no percurso de uma existência
não se escapa ao anseio em testemunhar um milagre ou dois
e quando os sonhos se empilham uns nos outros
acabam por emergir nascendo pelas mãos ou voz ou sangue ou suor ou lágrimas de quem os fulmina

há febres que ardem até serem verdade
e os acasos que sucedem não falam nenhuma das línguas comuns
eles vozeiam num dialeto que brotou nos inícios
quando o mundo era descrito pelos deuses de forma a distraírem-se no tédio da imortalidade

ele entendia estas coisas
e por isso deixou que o olhar passasse pelo firmamento até que o sondasse por inteiro

do traço que ia atravessando foi seguindo o percurso
de tão lento que passava
o tempo parecia recuar até o agora fundir-se no passado

tudo era um desenho do desconhecido
um altar ao inconcebível
render-se ao que não se sabe até que se possa saber alguma coisa

o azul sideral a caminhar sobre uma leve tensão quase imperceptível
um vibrar ténue como quando as miragens começam a nascer ao largo do olhar

e ele
ali
a aceitar o assombro
a deixar-se ficar
banhado pelo pasmo

o que seria verdade
o que seria mentira
e o que seria inventado

nesse triunvirato a poesia foi sendo
e assim
a leitura desse céu
ditou os versos ainda antes deles serem escritos
porque o futuro todo já se cumpriu

a ele coube somente
esquecê-lo
e assim poder vivê-lo como se fosse a primeira vez


Céu de outono, Porto, outubro de 2026

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