ou talvez tivesse uma única que era sobre a distância entre as coisas
e isto era um tratado em si mesmo
porque apesar de navegar nas dúvidas e até mesmo na descrença
mantinha uma fé inabalável sobre o afastamento entre o que quer que fosse
acreditava nos intervalos
nos entretantos
no limbo onde tempo e espaço se suspendem antes de voltarem a ser
no resto
quando o concreto e o palpável assentavam na existência
ela não tinha pé
caía para lá dela
onde tinha casa era no jogo do alcance
quando quase tocava no mundo
quando quase aflorava o que pulsava
era uma permanente dança entre o sonho e o acordar
como se toda a vida fosse um estremunhar do olhar
ele assistia a tudo do lado de lá
enraizado firme no chão que lhe calhou
sem nada que fulminasse na imaginação
era um ser feito de pedra e de algo tangível
entre eles
o amor era uma tangente
uma coreografia de navalhas a passar rente aos corpos nus
a jogar uma lotaria de golpes fatais
um dia
a continuar assim
um corte deceparia a veia mortalmente
e o sangue jorraria até coalhar de breu
mas até lá
o silêncio seria fatiado por esses murmúrios volantes de duas almas a gladiarem-se
o som de silvos imbuídos de uma loucura a dois
a paixão impossível de saciar
não só porque cada um caminhava por rotas distintas
mas também porque a sede de ambos ao invés de se anular empilhava-se exponencialmente
não lhe chegavam os corpos e se calhar nem as almas nem as línguas nem os lábios
o apocalipse do que sentiam vinha de um lugar maior
e o mundo deles
mesmo que quase não se tocando
era ainda assim insuficiente para lá caber a desmesura
não é fácil explicar estas coisas
mas ambos
apesar de tão peculiares
acabavam por ir na mesma queda
mesmo se cada um caísse à sua maneira
o milagre era
mesmo sendo de origens diferentes e indo para destinos distintos
algures no éter irreal do arrebatamento
coincidirem por um instante numa coordenada aleatória do universo
e aí implodirem para lá de uma impossibilidade
é isso
os dois
ela e ele
realizaram o impossível

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