dia 294 - até o chão se esgotar

ele ia percorrendo os dias ao ritmo de pequenas preces e invocações
detinha-se nos intervalos de cada coisa que ia acontecendo
como se entre pausas e silêncios fosse necessário um conjuro

o que o mundo lhe ia revelando
era um manto de retalhos
e ele entre cada um forçava-se a um ritual

preparava-se numa cerimónia introspetiva
respirava fundo antes de encarar o momento seguinte

fora essa a forma que encontrara para que nada lhe escapasse
mesmo sabendo que haveria sempre um derrame impossível de conter

a vida era um excesso em si mesma
não havia como recolher cada detalhe por inteiro
a alma
mesmo se infinita não era suficiente

até porque há infinitos maiores do que outros
basta
por exemplo
pensar num conjunto de números múltiplos de dez e colocá-los ao lado do conjunto de todos os números possíveis
ou
pensar em tudo o que aconteceu face ao tudo do que nunca aconteceu

eram estes devaneios que ele navegava pela contemplação de cada instante
fosse um ocaso que se demorava pelo horizonte
ou fosse o vislumbre de algo fora do sítio e inesperado

nesse caminho acabava por chegar a um lugar sem nome
um limbo entre o caos e a ordem
um labirinto onde cada caminho tanto levava à saída como a um beco murado

a vertigem confundia-se com a serenidade
e na confusão dos sentidos havia também a calma do inevitável

talvez estar vivo
signifique ser-se arqueólogo do que se foi perdendo
e sob as camadas da existência
onde jazem as ruínas das promessas por cumprir
outros votos vão-se esquecendo até o chão se esgotar

um dia
quando não sobrar mais ninguém e mais nada
há de sobrar o eco indecifrável do inimaginável
como se finalmente os deuses acordassem após o mais profundo dos sonos


Chão em Perafita, Matosinhos, outubro de 2026

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