desconhecia as palavras até que o mar chegou
e as ondas vindas de tão longe
de um lugar sem nome
iam dizendo coisas que ele entendia pela primeira vez
havia que encontrar
dentro da alma
no fundo dos fundos
a âncora primordial do ser
nessa busca
que durou mil noites
foi desbravando o caminho
fê-lo guiado pela intuição de um mergulho
sabia que o que procurava
a existir
teria de estar para lá das entranhas do espírito
tinha de regressar à superfície de vez em quando
havia que expelir o ar cansado e inalar o céu de novo
tinha de esfregar os olhos
retirar as escamas e o lodo
para recomeçar
uma e outra vez
descida após descida até não haver mais por onde descer
começara a duvidar se essa âncora existia
se por um acaso qualquer
tinha nascido desatracado
condenado a ir com as marés
perder-se nos labirintos caóticos da existência
talvez singrasse até não haver vento
quem sabe desse à costa do esquecimento
e por fim a sede dessa procura se saciasse por não saber sequer que existia
pelas ilhas que cruzasse talvez lá deixasse um pedaço de sonho
e quem sabe se ao semear pelo mundo remendos de saudade
alguém um dia lhe desse o mapa com um xis no destino desejado
certo era
que até o mar ter chegado
e as ondas despenharem-se sem descanso sobre a pedra
o silêncio era a única casa que conhecera
sem palavras
sem o contorno de um sonho
nem o horizonte conhecia
pelo menos
o que lhe fora revelado por vagas vindas de um infinito
levara-o a lançar-se atrás de uma vertigem
e ao fim das mil noites
após o périplo de uma vida
a âncora que buscava
era a miragem do impossível

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