pousado no meio de um silêncio que se eterniza
haveria de chegar um acorde e mais uns quantos
e ao lado notas a desenhar melodias
a música teria o seu momento
e quem lá estivesse a ouvir
ficaria suspenso entre mundos até ao regresso inevitável
o artista retirar-se-ia para os bastidores
levaria o suor e as lágrimas e as dúvidas de sempre por entre os dedos
a plateia recolheria a casa com um pedaço de emoção
mas até tudo isso ocorrer
a mudez do palco ressoa para lá dela mesma
como se a antecipação fosse o átrio ondes os deuses conspiram
e na espera da beleza o universo aguarda por um milagre
o antes é um lugar sem coordenadas
uma quase impossibilidade
como se hesitasse em existir
na verdade
o antes é o que antecede o passado
pois o passado só o é quando morde o presente e quando dói no futuro
já o antes é uma probabilidade
tanto poderá vir a ser como não
e não há forma de o saber antecipadamente
estes nós não são fáceis de desatar
mas nos enigmas da existência
as soluções nem sempre são evidentes
há a esperança de que as promessas se cumpram
sobretudo quando são proferidas
mas é sabido
que quanto mais se atardam
mais a loucura se emancipa
e dado o tempo suficiente
ela pode arder sem freio
pode galgar num incêndio onde as almas se consomem até não sobrar quase nada
o piano espera
no tal antes
onde a quietude é o que sobra de tudo o que é possível
o silencio
nunca é um fim
nem um início
ele é
intrinsecamente
ambos

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