dia 299 - um barco e um céu mais

um barco e um céu mais
neste mar que me entra pela janela dia após dia

sempre iguais e sempre diferentes
num murmúrio que dita
desde que me lembro
algo profundo

indecifrável desde o primeiro dia
insistente numa obstinação que tanto vem desse horizonte como de mim próprio

nas paisagens que nos calham
há sempre essa troca entre o que elas nos dão e o que nós lá metemos dentro

e dou comigo a pensar
que se calhar
para esses assombros
também não se explicam as vertigens que sentem

as minhas eu com certeza desconheço de onde vieram

onde começa um desejo e onde acaba uma loucura
são perguntas que despontam quando se abate o silêncio da melancolia
e quem sabe se as respostas não estão perdidas noutros lugares inacessíveis

vou escrevendo o que se insinua por entre os meus dedos a caneta e o caderno
e ao reler parece que o tudo se desdobra
como um contágio imparável que cria mais mundo no mundo

os milagres são muitas vezes subtis
eles ocorrem num instante e desabam no seguinte
deixando um rastro que tem tanto de deslumbre como de irrealidade

calha
por vezes
de haver palavras por perto que os descrevam
e assim os demoram pelo tempo até que alguém os reencontre numa leitura

outras
sucedem-se sem testemunhas
e morrem órfãos e sozinhos
desnorteados para lá deles mesmos num esquecimento tão denso
que duvidam se algum dia foram verdade

mas
o mar está ali
a engolir-me a janela da sala
a entregar recolher e a devolver ondas numa cisma inexorável

o horizonte mantém-se na corda bamba do possível
a dividir nuvens e sal e as faíscas de mil sóis refletidos nas dobras da água
e a albergar os alcances de olhares lançados desde a orla

e o céu não se desvia nunca
a ser pano de fundo para que as nuvens se moldem pelas estações
elas que se adensam ou se esvaem em tons de azul ou de cinza
o céu a seguir os voos dos pássaros às horas certas e incertas
a albergar as noites na manta negra da madrugada
e de vez em quando
a deixar que uma lua faça de farol até que se esgotem as solidões noturnas

estas coisas são imutáveis
foram forjadas no início dos inícios
estão assentes no tecido disto tudo

o que se altera
o que se vai esculpindo e delineando ao longo do tempo
somos nós e o caminho que o nosso olhar percorre

dias há
em que enxerga para lá do que é possível


Foz do Douro, outubro de 2026

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