dia 291 - desvanecimento

falavam de uma ilha escura

ele levaria os olhos a ver se era verdade
e levaria também o anseio
pois desde sempre
que sentia um apelo por esses lugares de infinito

o sol demorava-se um pouco mais
preguiçava acima da linha ténue entre mar e céu
mas acaba por mergulhar e afundar-se até ao desvanecimento

o que sobrava eram labaredas ensombradas envolvendo-se por entre nuvens e poalha de sal
até a noite tudo cobrir com estrelas e pássaros noturnos

haverá uma melancolia subtil nisto tudo
porque existe a possibilidade do silêncio infinito
do murmurar soturno das ondas e de outros segredos voláteis

haverá
num outro lugar
mais fundo
as linhas de um corpo adormecido sobre a cama
esbatendo-se por entre os lençóis e num sono que ronda ao redor de si mesmo

ele via e sentia tudo isso
quieto

os quadros nas paredes a fazerem igual
e um gato a esgueirar-se por entre as pernas e os caminhos secretos que só ele descobre

haverá roupa pelo chão
e livros por ler nas mesinhas de cabeceira
promessas por adiar e outras já cumpridas

haverá um carro a passar em alta velocidade lá fora
a cortar a noite com uma lâmina e a estremecer pelos vidros e pelas paredes do universo
o tal corpo a espreguiçar-se num pequeno sobressalto até regressar à quietude

mas e a ilha então
de que falavam no início
que era feita de breu pelos vistos
e que ele lá iria para ver se era verdade

as insónias forçadas têm disto
de marear até que tudo rodopie
o corpo a alma
o passado e o futuro

se calhar hoje
é melhor pousar o poema
deixar que o gato se enrosque num canto escondido da casa
que quem dorme não acorde
que a ilha o espere mais um pouco
e que ele prossiga pela noite em branco até ao colapso inevitável


Ao largo da Ilha do Pico, Açores, junho de 2024

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