foram-se erguendo gestos aos céus
a humanidade sempre quis ascender
e nesse esforço
erigiu com pedra e vontade
símbolos de um afinco que parece não acabar
em muitos desses esforços
pelas subidas intermináveis
semeou outras silhuetas e cifras e enigmas
desde gárgulas a hieroglifos
passando por contornos e floreados
como se mais importante que alcançar o topo
fosse o caminho até lá chegar
e mais importante ainda
deixar nesse périplo vestígios a ditar que por lá de facto passou
talvez habite dentro de nós
um medo maior
o de não ser lembrado
como se o esquecimento por si só apagasse uma vida
por isso
desde cedo
desde dentro das cavernas
esgravatámos as paredes com esquiços e danças e céus e alimento
trazendo de volta o dia inteiro que passáramos fora
acalentando um diário como testemunha inequívoca de estarmos vivos
no fundo
parece que nos vamos justificando
que é urgente um testemunho para lá de nós de que tudo isto é real
mas no entanto
perguntamos
será que o é
será que no intervalo entre nascer e morrer
o que arde queima
ou somente aquece ao de leve quem anda por aí
o próprio ato de perguntar
de atiçar questões como espirros inevitáveis
é a prova da nossa inquietação
e ao crescer
chega a desaguar na curiosidade
essa loucura que galopa sem freio
que parece desvairada e indomável
um dia
no futuro do futuro
quem calhar de nos encontrar
ao limpar-nos o pó dos ossos fossilizados
ao abrir caminho por entre as ruínas das nossas obras
poderá nem ter ideia do que seja uma pergunta
e poderá nem conceber o que é a curiosidade
talvez desconheça também o que seja o medo
não é crível que exista alguém como nós

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