sabias dos silêncios escondidos nas esquinas
por lá se encolhem
se contorcem
insinuando sombras
soprando palavras velhas promessas gastas
sonhando o velho amor esquecido
desenhando de madrugada o vulto dela
criando a golpe de crença o perfume de um beijo nunca dado
nunca partilhado nunca escrito
os silêncios escondidos nas esquinas
tricotando a pedra dos passeios
olhando os céus chuvosos
imaginando as constelações todas
uma a uma
cassiopeando
conspirando em versos invisíveis
num poema cuja leitura derradeira
os libertará finalmente
em rima serena certa perfeita
deixando esquinas desertas e solitárias
rumorologia
não será bem um eco
os ecos esfarelam-se na distância
tornam-se nadas no silêncio
será antes um rumor
os rumores roem discretos
no subtil correr do tempo
sim um rumor
um sopro permanente na cave da alma
a brisa teimosa da praia que sempre foi nossa
um murmurar pela noite do nosso abandono
um suspiro na manhã definitiva
última manhã
derradeira
como está escrito nos horizontes
no firmamento
nos livros de rumorologia
os ecos esfarelam-se na distância
tornam-se nadas no silêncio
será antes um rumor
os rumores roem discretos
no subtil correr do tempo
sim um rumor
um sopro permanente na cave da alma
a brisa teimosa da praia que sempre foi nossa
um murmurar pela noite do nosso abandono
um suspiro na manhã definitiva
última manhã
derradeira
como está escrito nos horizontes
no firmamento
nos livros de rumorologia
Disciplina, solidão, silêncio e prisão
Cito de cor mas foi mais ao menos isto que disse Lobo Antunes sobre escrever:
É necessário disciplina, solidão e silêncio.
Acrescento que é igualmente necessário estar-se encurralado. Entre a espada e o papel em branco, aprisionado, ameaçado, eventualmente aborrecido. Na contradição destas coisas todas está o caminho que tenho finalmente de encontrar.
Das inúmeras promessas adiadas, dos falsos regressos, dos inícios abortados, dos silêncios cabisbaixos, dos desertos ausentes de mim, este será mais um, e, tal como os anteriores, vem vestido de renovada esperança que em breve encontrarei a disciplina, a solidão, o silêncio e a prisão que me farão escrever de vez.
Relembrar
Agora que já amontoaste silêncios suficientes, que escavaste espaços de nada no teu viver, que resvalou tempo, muito tempo desde as últimas palavras, podes, finalmente, regressar.
Tratas-te por tu, pois estás em ti mesmo, perto, íntimo. Não quer dizer que te conheças, mas pelo menos, reconheces-te.
Será uma boa altura para relembrá-la, a última que partiu. É certo que sorriso ecoa ainda à janela da casa. Que a rua onde atirava o olhar lá permanece. Que o quarto, no alto, mantém a mesma quietude e os mesmos jogos de sombra. Talvez o vinho se gaste um pouco menos. Os terços já não ajudam a tantas rezas. O passar o tempo sabe agora a saudade, carrega mais silêncio e menos avó. Mas é assim, já o sabias, é assim. Resta-te ser neto a cada momento e não esquecer que o és.
conclusão
dos inúmeros silêncios que vais semeando, uns vão criando raiz, outros
vão criando caruncho, uns vão roendo o tempo por dentro, outros secam de vez.
do mesmo número de regressos se fizeram esses silêncios.
regressas agora devido a uma feliz coincidência que envolve futebol, teatro e claro, a mesma velhíssima ideia sobre o amor
o amor por ela e com ela, o amor teu e o amor dela
e nessa coincidência reencontraste a velha certeza de que o amor é eterno, mas que a escrita o é ainda mais,
ou não tivessem sido as palavras o que primeiro vos juntou,
antes de tudo,
disto
daquilo
daqueloutro
e, como não,
do caralho do silêncio.
vão criando caruncho, uns vão roendo o tempo por dentro, outros secam de vez.
do mesmo número de regressos se fizeram esses silêncios.
regressas agora devido a uma feliz coincidência que envolve futebol, teatro e claro, a mesma velhíssima ideia sobre o amor
o amor por ela e com ela, o amor teu e o amor dela
e nessa coincidência reencontraste a velha certeza de que o amor é eterno, mas que a escrita o é ainda mais,
ou não tivessem sido as palavras o que primeiro vos juntou,
antes de tudo,
disto
daquilo
daqueloutro
e, como não,
do caralho do silêncio.
o poema ao contrário
meu amor
seria o primeiro verso do poema ao contrário
depois, que seria na verdade antes,viria
que velo o teu sono
e depois, que seria ainda mais antes,
saber que descansamos na cratera do nosso encontro
e depois, que seria num antes de tudo,
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
e acreditaria, logo ali,
no amor à primeira vista
o poema ao contrário é circular
porque começa e acaba no amor
num lugar sem tempo
num lugar sem lugar
o poema ao contrário,
finalmente endireitado
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
que descansamos na cratera do nosso encontro
que velo o teu sono
meu amor
seria o primeiro verso do poema ao contrário
depois, que seria na verdade antes,viria
que velo o teu sono
e depois, que seria ainda mais antes,
saber que descansamos na cratera do nosso encontro
e depois, que seria num antes de tudo,
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
e acreditaria, logo ali,
no amor à primeira vista
o poema ao contrário é circular
porque começa e acaba no amor
num lugar sem tempo
num lugar sem lugar
o poema ao contrário,
finalmente endireitado
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
que descansamos na cratera do nosso encontro
que velo o teu sono
meu amor
não temos princípio nem fim
A melancolia é um sentimento de falha, de ausência. Sofre-se ao senti-la. Não de uma dor insuportável mas antes de uma dor que insiste e se insiste. Sorte daqueles que como eu, a sentem assim de peito aberto, que a acolhem com a alma. Tanto por saberem que ela é fruto de se ter vivido um tempo por inteiro, de se ter comungado com outros totalmente, de os tornar família, como de se aperceberem que esse mesmo tempo escorreu de vez e o que nos fica é um eco de carinho. E sorte ainda mais, aos que mais tarde encontraram outro alguém que lhes dê um regaço onde se revela uma paz imensa. Tu és esse regaço. Poder eu, com o meu passado rico e pleno, descansar em ti esta nostalgia melancólica que me aperta o ser, e ter em ti um lugar de silêncio onde repousar, onde aceitar que não se volta para trás mas onde partilho a tal dor em desvanescer permanente e tranquilo, é a revelação do infinito que me és, do amor incondicional que te sinto.
Dizer-te que me rendo a ti, eu e o meu passado, que o torno teu, que to ofereço. O amor será isto, poder entregar-me também em saudade do tempo anterior a ti, ao antes de te saber, porque lá nos confins de nós mesmos, no abismo interior, sabemos ambos, que tu e eu somos fruto de algo ainda mais antigo que tudo o resto, que tudo isto. Nós, e a força toda do pronome, não temos idade, não temos princípio nem fim.
como lá longe
rodeado de todos os outros
quereres fazer parte deles
de te instalares em silêncios
como lá longe nascem e morrem estrelas
sem testemunhas para além do eco
eternamente propagado no mar cósmico
quereres fazer parte deles
de te instalares em silêncios
como lá longe nascem e morrem estrelas
sem testemunhas para além do eco
eternamente propagado no mar cósmico
Voltar a casa
Ser-se de lugares vários. Poder dizer-se que se regressa a casa e não ser sempre o mesmo destino. Por uns dias, reencontrar um lugar com cheiro a passado, um lugar tatuado no tempo, retalhado numa infinidade de momentos, cravado no fundo da alma, com toda a magia possível de se reerguer ao presente e embalar-nos numa melancolia tão doce, tão suave, que o infinito se sente a resvalar em cada poro. Voltar a casa, é um estado de espírito.
O revés
Terá contado histórias, todas as histórias. Mas não ouviste, estavas demasiado preocupado com a espuma da cerveja a deslizar do copo, ensopando o pousa-copo de cartão. Terá dito coisas, todas as coisas. Mas não tomaste atenção, perdias-te nas espirais do fumo dos cigarros dos tipos ao lado. Terá explicado o que aconteceu, tudo o que aconteceu. Mas não entendeste, vagueavas o espírito pelo lado oculto do que ele contou, disse e explicou, que é como quem diz, vagueavas pelo lado oposto de tudo isso. De todas as histórias que ele contou, de todas as coisas que ele disse, de tudo o que aconteceu e ele explicou, nada retiveste, criaste antes, à volta disso, tudo o seu contrário, todas as histórias que ele não contou, as coisas que ele não disse, e tudo o que não acontecu e ele não explicou. Como se ele ao falar-te, provocasse em ti, o revés, o reflexo
do silêncio
apenas do silêncio poderá brotar a palavra definitiva, perfeita e limpa
a palavra final que te dirá tudo de uma vez, de uma só vez, de uma só e irremediável vez
dessa palavra brotarão outras, ecos, reflexos, imparáveis, povoarão os recantos mais profundos, as terras mais longínquas, as montanhas mais altas
e quedar-se-ão mudas uma vez mais, sopros quietos na solidão universal,
apenas do silêncio poderá brotar mais silêncio
Escrever-te amor
De quando as últimas palavras que te escrevi? Essa ideia do amor que me assombra desde sempre, desde o antes. Essa rendição total do ser. A emoção que é o teu olhar a galopar-me a alma, o arrepio silencioso de te dizer "tu" e o rebentar na boca do pronome e de tudo o que ele carrega, por dentro, por fora, por todo. Escrever-te como no tempo em que a sala com vista para o mar era o palco perfeito para a poesia, com uma quietude tal que os quadros nas paredes murmuravam ecos dos seus traços. Evocar-te pelo verbo, pelo infinito definido e preciso de te amar ali, no agora, no imediato, e sentir ao mesmo tempo que não tinha corpo nem pele que chegassem para o compreender totalmente, porque escrever-te palavras de amor era a evidência de que jamais conseguiria fazê-lo por inteiro sem sangrar de vez numa síncope total, numa implosão de mim.
No fundo, escrever-te amor, é tão intenso que mais vale uma folha em branco e o mar infindo de todas as possibilidades.
faz ruído
faz ainda demasiado ruído o silêncio
por isso o outono não descansa
e contorce-se nos ventos irrequietos
nas chuvas intermitentes que se despenham
vindas do céu desmaiado de palidez
faz ainda ruído o silêncio adiado de um mar revolto
encorrilhado entre espuma e águas cor de chumbo
tricotando-se entre os calhaus negros
faz ruído o silêncio vazio das palavras
que insistes em cravar na imensidão da tua pórpria mudez
faz ruído o silêncio
pois ele é todo o barulho possível
na implosão de todos os sons
cataclismo de todas as sílabas
revés de cada sopro
rumor ou murmúrio
por isso o outono não descansa
e contorce-se nos ventos irrequietos
nas chuvas intermitentes que se despenham
vindas do céu desmaiado de palidez
faz ainda ruído o silêncio adiado de um mar revolto
encorrilhado entre espuma e águas cor de chumbo
tricotando-se entre os calhaus negros
faz ruído o silêncio vazio das palavras
que insistes em cravar na imensidão da tua pórpria mudez
faz ruído o silêncio
pois ele é todo o barulho possível
na implosão de todos os sons
cataclismo de todas as sílabas
revés de cada sopro
rumor ou murmúrio
Borges
Ler Borges é um acto de loucura. A noção de infinito nunca foi tão palpável. No meio dessa queda vertiginosa pelo universo que se nos revela, nem tempo há para a total rendição. Não há tempo, ele já escoou todo para lá do agora... e repete-se ad eternum sempre igual, nunca igual, desdobrando-se nas inumeráveis possibilidades do que aconteceu, acontece e acontecerá, sendo que nem essas noções são precisas. Ler Borges é, finalmente, confrontarmo-nos com o desassossego de uma fatalidade, sendo que ela não tem rosto, não tem denúncia, e ela, no fundo, pode ser todas as coisas possíveis e todas as coisas impossíveis. Ler Borges é sermos transparentes e estarmos dentro de um cubo feito de espelhos.
a possibilidade infinita de todas as coisas
o gato dorme as horas da tarde que tardam em passar
tu velas essas horas
ao som de música cubana
foi a que te calhou hoje
escolhes palavras
evitando assim apanhares a roupa seca
e preparares a tábua
pensas na barba por desfazer
e concluis duas coisas
que nem a roupa se apanha e se passa sozinha
nem a barba se desfaz sem pegares na lâmina
curioso também é revelar-se
já no fim destes versos
que eles
tão pouco
se escrevem sem uma mão a fazer o frete
por muito que existissem já
na possibilidade infinita de todas as coisas
tu velas essas horas
ao som de música cubana
foi a que te calhou hoje
escolhes palavras
evitando assim apanhares a roupa seca
e preparares a tábua
pensas na barba por desfazer
e concluis duas coisas
que nem a roupa se apanha e se passa sozinha
nem a barba se desfaz sem pegares na lâmina
curioso também é revelar-se
já no fim destes versos
que eles
tão pouco
se escrevem sem uma mão a fazer o frete
por muito que existissem já
na possibilidade infinita de todas as coisas
O limbo
Sendo que a literatura é a arte de mentir para revelar a verdade, não é menos certo que a verdade são mentiras reveladas. Andamos assim, no limbo. Talvez o limbo seja o que de mais concreto exista.
O tecido do tempo visto por um poeta
Olhamos o relógio e faltam cinco minutos.
Fica esse momento feito eternidade.
5 minutos que não terminam nunca.
Infinitos no tecido do tempo
Olhamos o relógio uma vez mais.
Foda-se!... passaram já 10 minutos.
Fica esse momento feito eternidade.
5 minutos que não terminam nunca.
Infinitos no tecido do tempo
Olhamos o relógio uma vez mais.
Foda-se!... passaram já 10 minutos.
alguma coisa
lês uma cena de um deles
de um desses que sabem ou souberam escrever
coisa simples
limpa
batida à máquina em fundo branco que fora silêncio
e disso que lês percebes que disseram alguma coisa
e que dizer alguma coisa tem que se lhe diga
tu dize
vais dizendo
mas não sabes se é alguma coisa
porque alguma coisa que se diga não é para todos
de um desses que sabem ou souberam escrever
coisa simples
limpa
batida à máquina em fundo branco que fora silêncio
e disso que lês percebes que disseram alguma coisa
e que dizer alguma coisa tem que se lhe diga
tu dize
vais dizendo
mas não sabes se é alguma coisa
porque alguma coisa que se diga não é para todos
lado lunar
Ficou esse lado lunar do Gerês a ressoar ainda hoje no silêncio dos olhos. Um rumor quieto a percorrer-te a alma, um chamamento profundo como que um convite. Hás-de aceitá-lo em breve e cumprirás um regresso.
Dos sítios
Foste a alguns sítios já mas faltam-te muitos mais. Dos sítios a que foste alguns tatuaram-se em ti. Melhor, revelaram-se em ti, como se já lá estivesses estado antes de tudo. Porque é isso, é exactamente isso, reencontrares no deslumbre de certas paisagens, um arrebatamento anterior a ti, como que um reconhecimento infinito, uma rendição total da alma e do ser. Um lugar que te escancara os olhos e a boca em espanto, não é mais que a vertigem contraditória de saberes e não saberes ao mesmo tempo, que ali pertences, que ali sempre pertenceste e que ali sempre pertencerás.
Ele ali
Por certo foram os silêncios profundos dos cafés desertos que lhe trouxeram paz. Numa mesa, mergulhada a um canto, coberta de sombras, o espírito pôde acalmar. De frente para a saída, vendo o mundo à distância pelas portas envidraçadas, sentia-se repousar. Uma cerveja morna pousada definitivamente. Uma música de fundo a pairar na poalha de luz sombria. Uma folha em branco e uma caneta. Do papel o mar mudo da ausência de palavras, na caneta todo o ruído possível condensado em tinta. E ele ali, entre a possibilidade de poesia e a mais profunda quietude da alvura da folha vazia.
prá Lira
prá Lira
o beijinho de parabéns nos intervalos
nas pausas
nos silêncios
e no mergulho da partilha que vai quase em oito anos
(e uns pozinhos pra trás, uns pós de perlimpimpim de tumulto necessário)
o beijinho neste dia daniversário
um beijo inho sí la ba a sí la ba
nas pausas
nos silêncios
nos entretantos
nos agoras e nos depoises
o beijinho inho inho em cada uma das vinte e... oito primaveras
e nas vinte e oito seguintes
o beijinho nos lábios
e nos arredores em redor em redor em redor
do teu eu inteiro
prá Lira
o beiju de paRRabénze
seguindo-a sempre.
o beijinho de parabéns nos intervalos
nas pausas
nos silêncios
e no mergulho da partilha que vai quase em oito anos
(e uns pozinhos pra trás, uns pós de perlimpimpim de tumulto necessário)
o beijinho neste dia daniversário
um beijo inho sí la ba a sí la ba
nas pausas
nos silêncios
nos entretantos
nos agoras e nos depoises
o beijinho inho inho em cada uma das vinte e... oito primaveras
e nas vinte e oito seguintes
o beijinho nos lábios
e nos arredores em redor em redor em redor
do teu eu inteiro
prá Lira
o beiju de paRRabénze
seguindo-a sempre.
faço o que posso
um cão ladra para lá do negro da janela
sei que faltas cá tu
que o amor não é uma ciência exacta
é antes uma paciência exacta
uma dedicação que uma força tem por nós
um alento que se nos sopra em silêncio
e cujo arrebatamento é a força maior que um verso pode suster
o cão já não ladra
e ainda assim por obra de não sei que fantasma
sei que todavia faltas cá tu
e a paciência exacta que o amor é
prevalece a força maior que um verso
(ou dois)
pode suster
faço
por isso
o que posso.
regressar ao fim
não se regressa propriamente onde nunca se esteve
mas podemos regressar ao caminho
podemos reencontrar as mesmas estradas enlameadas
os mesmos passeios escorregadios
não se regressa ao que jamais se alcançou
mas podemos regressar ao sonho
à vontade profunda de almejar
ansiar
aspirar
não se regressa às palavras que não se disse
mas podemos dizê-las pela primeira vez
rasgando o silêncio
nem que o rasgando regressemos à quietude anterior
não se regressa a nada a não ser ao fim
mas podemos regressar ao caminho
podemos reencontrar as mesmas estradas enlameadas
os mesmos passeios escorregadios
não se regressa ao que jamais se alcançou
mas podemos regressar ao sonho
à vontade profunda de almejar
ansiar
aspirar
não se regressa às palavras que não se disse
mas podemos dizê-las pela primeira vez
rasgando o silêncio
nem que o rasgando regressemos à quietude anterior
não se regressa a nada a não ser ao fim
tu
o gato a ser gato
eu a ser eu
tu a seres tu
o gato sendo gato
é o gato mais a curiosidade que lhe eriça o pêlo
e uma ou outra cambalhota mais no meio da sala
eu sendo eu
sou eu e pouco mais
o que já não é pouco num pedaço de gente
mas tu sendo tu
és tu mais o teu sorriso a mergulhar em mim
tu mais o teu corpo desenhado em sombra
tatuado em meu olhar
tu mais tu mais tu
imensa em mim
no que escrevo
e
no que não escrevo
pois tu és tu
e sendo tu
és também o silêncio na tua ausência
és lugar vazio certas manhãs
és ternura no sono que me calhe velar
tu sendo tu
és um infinito tal que me tolda a vista da escrita
e me remeto a uma rendição anterior a mim
porque eu, sendo eu
sou eu e pouco mais
o gato sendo gato
é gato também quando dorme
é gato enroscado enquanto escrevo
e tu és tu
e não há pronome que chegue para te nomear
nem nome sequer
nem palavra
nem nada
eu a ser eu
tu a seres tu
o gato sendo gato
é o gato mais a curiosidade que lhe eriça o pêlo
e uma ou outra cambalhota mais no meio da sala
eu sendo eu
sou eu e pouco mais
o que já não é pouco num pedaço de gente
mas tu sendo tu
és tu mais o teu sorriso a mergulhar em mim
tu mais o teu corpo desenhado em sombra
tatuado em meu olhar
tu mais tu mais tu
imensa em mim
no que escrevo
e
no que não escrevo
pois tu és tu
e sendo tu
és também o silêncio na tua ausência
és lugar vazio certas manhãs
és ternura no sono que me calhe velar
tu sendo tu
és um infinito tal que me tolda a vista da escrita
e me remeto a uma rendição anterior a mim
porque eu, sendo eu
sou eu e pouco mais
o gato sendo gato
é gato também quando dorme
é gato enroscado enquanto escrevo
e tu és tu
e não há pronome que chegue para te nomear
nem nome sequer
nem palavra
nem nada
Ardes
O calor a estalar-te nos poros. Do alto do céu azul, cai a luz quente do sol, inundando-te em vagas, levando-te a dilatares o olhar por dentro. A roupa, por pouca que seja, a ser pele da pele. O verão é agora uma palavra inteira, sendo também o inferno dos graus a treparem o termómetro, sempre a subir, percorrendo cada ruga da face, cada curva das costas, cada dobra das pernas. O suor não vem logo, vem no descanso de uma sombra milagrosa, coalhando em sopa morna por todo o corpo. A alma também ferve, errática, desnorteada. O abandono à canícula é inevitável e nem a poesia te refresca. Ardes com os dias que rebentam, ardes com as noites que teimam em ecoar a chama dos ventos desérticos pela madrugada fora.
do primeiro mergulho do ano
na volta dos anos, no interminável regresso do apelo da água, do sol e do sal,
das vagas do calor que me inundam o corpo, do silêncio quente sob o zénite, das brisas rasteiras junto à toalha, dos olhares descansados que se lançam ao horizonte, seja ele o que está lá longe ou logo aquele que se distrai ali junto aos pés molhados,
dos passos leves rangendo a areia que pisam, dos gritos alegres dos mais pequenos que rasgam o ar de cima a baixo,
das vagas do calor que me inundam o corpo, do silêncio quente sob o zénite, das brisas rasteiras junto à toalha, dos olhares descansados que se lançam ao horizonte, seja ele o que está lá longe ou logo aquele que se distrai ali junto aos pés molhados,
dos passos leves rangendo a areia que pisam, dos gritos alegres dos mais pequenos que rasgam o ar de cima a baixo,
das rugas trilhadas sobre a água reflectindo a luz do dia e espelhando-a à nossa volta até ao mais fundo da alma
comunhão serena do espírito com o tempo que se nos escapa dia-a-dia,
o primeiro mergulho é o acerto do relógio profundo
comunhão serena do espírito com o tempo que se nos escapa dia-a-dia,
o primeiro mergulho é o acerto do relógio profundo
Do sangue e da pedra
Do sangue e da pedra. No meu nome, bem no meio, vindo do lado materno, existe Rocha. Plantada assim entre o início do que me chamam e a herança paterna a rematar a graça. Assim, Rocha, bem no meio do Filipe e do Pinto da Silva. Rocha do Minho e do mar vareiro de Aveiro. Dos pescadores falarei um outro dia, hoje fico-me pela mineralidade minhota. Logo hoje, dia de solstício onde o sol se alonga um pouco mais do lado de cá, desenhando um ângulo perfeito por entre os menires lá mais do Norte.
A minha Rocha vem de terras húmidas e verdes, isoladas entre serras e matas, semeadas desses pedregulhos enormes carregados de nevoeiros místicos. Terra também de druidas, de celtas, de silêncios rasgados por uivos de lobos, pássaros solitários e ribeiras teimosas a cair em escarpas.
Rocha feita pedra, imóvel na aparência pois foi-se lançado pela eternidade dos homens que pariu nos princípios, ecoando agora em gerações que se afastaram, é certo, como eu, mas cujo sangue carrega esse calhau primordial, radical. Essa Rocha do início, do zero absoluto. Rocha etérea, pesando mil toneladas, viajou já milénios e muitos mais viajará ainda.
Sonhando com a paisagem sem horizontes
No teu imaginário, algures entre o sonho e o desejo, sempre esteve uma fuga para longe. Lançares-te assim para a solidão mais profunda através do embarque irreflectido. Partires para onde reina o silêncio e a água escura dos oceanos ou o negrume eterno do universo. Acomete-te a vertigem dos navegadores antigos e dos astronautas modernos. Há momentos intensos que acontecem dentro de ti, um chamamento, uma total entrega à imagem irreal de uma paisagem sem horizontes. Sim, isso, uma paisagem sem horizontes, banhada somente pelo infinito e pela paz derradeira da alma, da entrega, da rendição.
MC
O meu afazer é não me ocupar de nada. A minha felicidade é perder pensamento, deixar-me ocupar por aquela leveza, esquecendo-me de que, perto, existe algo chamado «realidade». As garças cinzentas passam com lentidão de barco e parecem dar-me razão: o paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.
Mia Couto in Pensageiro Frequente
Prémio Camões 2013
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