foi preciso

ao silêncio do qual nunca saíste
chegaste uma noite sem o saberes
foi numa madruga precisa de solidão em que o teu cansaço venceu e desmoronou-se num sofá

dormiste caído e abandonado pelas sombras

o vento louco lá de fora a rasgar a noite
uma manta imensa de nevoeiro a emudecer a janelas

foi preciso uma tempestade e o mar virado do avesso
para que naufragasses uma vez mais
dando à costa da quietude
moribundo
reencontrado e reencarnado

Confrade

Da gratidão.
Ao Douro, essa " beleza absoluta", às suas gentes e ao Vinho, ao do Porto em particular, o melhor de todos.
À família, aos meus.
Ao Amor, a ela e seu sotaque e seu calor.
Mas, também e sobretudo, a algumas pessoas concretamente. À Ana, ao Euan, ao Pedro e à Isabel, primeiros e decisivos mentores no trajeto profissional, que de trabalho passou num instante a paixão.
À Symington, a minha casa.

Por fim, o brinde como Confrade:

Pelo Vinho do Porto, pela Confraria, pelos Confrades.
Obrigado.


Grateful.
To the Douro, that "beleza absoluta", to its people and to the Wine, Port in particular, the best of all.
To my family, to my kin.
To Love, to her and her accent and her warmth.
But, also, to some specific people. To Ana, Euan, Pedro and Isabel, the first and decisive mentors in my professional path. A job turned into passion in an instant.
To Symington, my home.

And finally, the toast as a Confrade:
For Port Wine, for the Confraternity, for the Confrades.
Thank you.

De la reconnaissance.
Au Douro, cette "beleza absoluta", à ses habitants et au Vin, au Porto en particulier, le meilleur de tous.
À la famille, les miens.
À l'Amour, Elle et son accent et sa chaleur.
Mais, aussi et surtout, à certaines personnes. À Ana, Euan, Pedro et Isabel, les premiers et décisifs mentors de mon parcours professionnel.Le boulot viré passion en un instant.
À Symington, ma maison.

Et enfin, le toast en tant queConfrade :
Pour le Vin de Porto, pour la Confrérie, pour les Confrades.
Merci.

reencontro

pela manhã quando faz sol e é feriado ou domingo
noto que as gaivotas gostam de repousar na relva das rotundas pequenas

passo e contorno e elas lá estão
de penas viradas ao centro
alheias aos carros debicando ervas e feixes de luz

até que voam quando regressa o trânsito ou a segunda-feira
desconhecendo que não passou tempo algum entre o último verso e o primeiro
que o que brota nem sempre se manifesta em palavras lidas
que aquilo que não é revelado é tão mais imenso quanto o que acaba por surgir

nem tudo o que escrevo é para aqui chamado
nem sempre é um feriado ou um domingo de manhã
muitas vezes faz noite
e é tão densa que por muito que nela entre
fico à tona
na borda da madrugada
observando de fora
não sei se a espiando se ela me espiando a mim
queimando a insónia mesmo que dentro do sono
porque os sonhos são tão reais que queimam os olhos e a mente

o que aconteceu até agora
desde o último silêncio
foi só uma eternidade que se calou
ou que se declamou numa das muitas gavetas com cadernos que de tão cheios e inúteis mais sentido fariam se estivessem vazios e mudos

enfim
as rotundas pequenas estão vazias de novo
as gaivotas voam longe
e quem sabe
talvez te reencontres por aqui


perguntas

por onde andam os gestos e suas sombras
resvalam eles pelos beirais da rotina
sorvidos pelo tempo e a apatia?

revelam-se numa manhã silenciosa?
já sendo passado e futuro
tendo o presente inexistido?

são ecos imperceptíveis de algo esquecido e nunca lembrado?

serão prescindíveis na eficácia que exige o real?

rumo

caminhar
de esquecimento em esquecimento
até nada lembrar

caminhar sempre
para que a memória desista
para que o passado se esfume
e pela frente restar somente o rumo

geografias

entre cada verso
o silêncio definitivo
vencido uma e outra vez até nos calarmos todos lá longe no infinito

palavra
grito
grunhido
uivo
saliva

são as geografias da poesia

palavra no horizonte calmo da manhã
grito no zénite da canícula
grunhido no arrastar da tarde
uivo no luar quieto da noite
saliva espessa nos pântanos da madrugada

a tua ilha no meu mar


a tua ilha no meu mar
curva num horizonte sem lua
erguida como a encosta de um rochedo
teu sono e meu velar
no silêncio das falésias definitivas
meu mergulho adiado
preso ao deslumbre por um fio tão fino que me despenho já
que me precipito sempre
irremediavelmente pendido
sorvido pela lei da tua gravidade
pelo canto do teu sono de sereia

a tua ilha no meu mar
eu submerso de ti
a dar com a maré baixa da tua praia
teu marinheiro
teu náufrago
 

prática

é simples
esperar que um pouco de solidão chegue
(e ela chega sempre)
ouvir o que te dita a noite
(é fácil quando o silêncio impera)
e deixas que se escreva o verso

depois relês
apagas
e voltas de novo

não se apaga um eco
ele desvai até à quietude
e o que sobra
é toda a promessa do futuro
livre
limpo
cheio de ti e do teu sotaque tão teu
que me inunda até ao jamais

surrealismamente

move-te pela noite
até amanhecer o teu cansaço
e na praia o vento chamar-te pelo nome secreto com que te batizaste na véspera

cai no manto da aurora
mesmo que a queda não acabe nunca
e que na vertigem te escapem os sonhos pelos dedos como num quadro de Dali

sua todo o ontem que devoraste no raiar do dia
destila-te além de ti
esgota-te para que nada reste para os necrófagos
nem uma única migalha
nem sequer uma reminiscência

sê menos que um triz
mas que valha a pena

o espaço é tão tanto e o tempo é tão nenhum

do teu cimo ao teu chão
o espaço e o tempo são líquidos

porque o olhar percorre tudo isso num vislumbre
já as minhas mãos demoram-se no caminho
e a minha boca perde-se no trilho
seja no calor do teu pescoço ou nos gomos dos teus lábios
na curva da tua cintura ou no teu ventre de seda e cetim

e o espaço é tão tanto e o tempo é tão nenhum
que não me chegam nem os olhos nem as mãos nem a boca
nem os dias nem as noites e nem as manhãs
pois és a sede que não se sacia e a fome que não se mata
a ânsia perpétua e o desassossego infindo

és a própria rota
o rumo essencial
na sina que me calhou

arde o próprio ar

arde o próprio ar
por dentro do fôlego e do sopro
relembrando a fornalha primordial e os grandes incêndios cósmicos

transpira-se pelos poros da alma
e o suor sem tempo para gotejar evapora-se mal nasce
vaporiza-se no éter ardente

tudo é mais lento
tudo é mais vagaroso
tudo se adia por um momento até resvalar com o peso de um agora mais longo

tudo se arrasta
os versos derretem na linha do horizonte do poema
desmaiando no ocaso do que têm para anunciar
não chegando a extinguir-se
ficando na letargia infinita da canícula

também vou sendo

o que fazer com isto?
com este eco primordial a desfocar levemente as coisas quando o olhar se atira ao longe
como uma interferência no ecrã da vida
um leve estremecer do ser como nas miragens do deserto  
este visco quase invisível a escorrer dos dias e noites e que se cola por dentro e à volta de nós?

moldá-lo com a alma?
domar esse plasma metafísico para que faça sentido saber ao que vem?

e ao que vem mesmo?
dizer-nos que trepida e freme sob a tensão do incomensurável
que há mais do que aquilo que os sentidos descobrem
mais tempo dentro do tempo
mais lugar dentro dos lugares
mais silêncio na quietude absoluta
mais versos e palavras e invariavelmente mais poesia?

ou virá porque é de sua natureza
porque é de seu âmago emanar do invisível como um uivo de libertação
e dizer-nos a nós deste lado
também vou sendo

epílogo

alega o teu silêncio
dá-lhe o lume brando das velas
afaga-lhe o calor e o lento passar do tempo

escreve-lhe versos
argumenta a tua solidão
diz-lhe que são irmãos

faz-lhe a vénia devida
abraça-o nas noites que não acabam
invoca os infinitos

ambos sem verbo
tu e ele
no fim disto tudo juntos na aurora
na manhã definitiva
no mar luminoso do epílogo

entre o fado e a morna

entre o fado e a morna
procuro o acorde do início
bebo sozinho e espio a tua fuga

sou guardador de nadas
de sopros e de sombras
mestre de coisas que se esfumam
de memórias que não chegaram a ser
e de sonhos ainda por sonhar

entre o fado e a morna
sigo um funaná
simulo uma alegria e ao mesmo tempo uma tristeza

sou rei da pose
até cair num canto com a garrafa meia vazia

o fado nem aparece
impõe-se a morna como um bolero da alma

ignoram-me os corpos que dançam
nem sabem que comungo com eles no meu sono ébrio

faltam-me os teus caracóis pousados no pescoço
e a tua curva que balança e me embala

fica a noite inteira pela frente
para que a saudade dance comigo e com a garrafa já vazia

sabores

provei o silêncio
e descobri aí que o suor das noites de verão não sabem ao mesmo que as lágrimas doces do teu rosto

um pouco nossas

para a Ana Filipa e os seus

são sempre também um pouco nossas
as avós dos outros

e quando uma parte
parte de novo um pouco da nossa

porque os sorrisos abertos e bonitos que tinham eram iguais aos que na infância te embalaram
porque há um carinho por dentro destas coisas
como um abraço e um ninho que ficam para sempre

faz parte
sabemos

e o que fazer com tudo isto que não seja guardar num cantinho da alma todo esse amor
e de vez em quando
numa fotografia ou numa lembrança
lá voltar e sentir o calor do dia mais luminoso de sempre


nem delas mesmas

Revisitar antigos sopros, escutá-los com atenção. Reencontrar as ideias gastas de um outro tu. Iguais, imutáveis, paradas no tempo e no momento exato em que primeiramente apareceram. Como se nunca acabassem de nascer e, ainda assim, sem estarem verdadeiramente vivas. Vagueiam no limbo, são sem serem e vão sendo como as sombras da espuma de uma onda. Acabam e reaparecem sempre.
Pergunto-me se é possível calar o que não fala ou esconder o que é líquido e neblina.
Posso sentar-me e escrever tudo isso, de uma vez, de um trago como quando nos lançamos nos abismos. Mas, e depois? Que fazer com o silêncio definitivo? Mas nem é essa a razão, não há nunca silêncio, apenas o ruído atabalhoado do que se sonha. E, é sabido, os sonhos não acabam nunca, apenas o esquecimento os cobre às vezes com o manto da amnésia. Mas eu não esqueço nada do que não escrevo, esse infinito é vasto e incansável. Persiste em revelar-se, teima em resvalar por entre os dias e as noites.
O óbvio impõe-se, não sou eu que decido estas coisas, as palavras não são minhas, não são de ninguém, nem delas mesmas.

Tim Maia

Existem ecos que guardaste nas gavetas, coisas diversas que foste esquecendo. No silêncio dos dias lentos, elas rangem dentro das cómodas do passado. Hesitas em verificar, em abrir essas caixas e cadernos já velhos. Ficas-te a ouvi-las com atenção, receoso do que possam dizer à luz do presente. Fazes de conta que vêm do vizinho ou lá de fora onde o mar se ergue pela janela e inunda a sala.
Pões música esperando que a contradição da inspiração e da alienação casem e se revelem na ponta dos dedos para que te obrigues a sentar e a escrever de novo. O apelo tem a vertigem da atração e da repulsa. A coragem e a covardia da poesia, o impulso e a contenção, o abandono e a disciplina.
Por momentos foste envolvido no balanço de uma canção, de uma guitarra e de uma voz, até que cessou essa vaga num verso definitivo. Diz esse verso, que beleza é sentir a natureza, na voz do Tim Maia.

o outro eu

regresso à solidão
no subtil suspiro do respirar
regresso à quietude definitiva do espírito
o mergulho no corpo e o voo da alma
a queda imparável do ser

reencontrar-me
eu que nunca me conheci de verdade

a escolha

houve um momento em que fizeste uma escolha
entre escrever e não escrever

esse momento foi decisivo e irrecuperável

decidiste não escrever

e a partir daí a vida tomou um rumo em vez de outro

esse outro rumo ainda vagueia no fundo do fundo
como o monstro adormecido de um vulcão
e por vezes
o teu ser estremece de uma ponta à outra
como se o corpo uivasse até ao limite de si mesmo
e os poucos versos que vão saindo de quando em vez
são a sombra ténue de tudo o que ficou por dizer

não é bom nem é mau
foi a escolha que fizeste

nunca

perderam-se palavras
nos silêncios profundos do adiamento
soterradas sob a terra densa da mudez

mas resiste um eco
um uivo
um gemido
uma intenção
algo que nada cala
nunca

revelação

no silêncio absoluto da tua própria ausência
quando a noite é noite e o mar é mar
regressas assim
ao lugar onde pertences
onde tu és tu e não outro
e onde te desconheces
porque nunca saberás quem és de verdade
até que te revele um verso

nunca se sabe

lado a lado caminhávamos pela rua

era tarde e já muito tínhamos bebido

numa esquina uma vitrine de antiguidades
ao passar ele piscou o olho lá para dentro
perguntei-lhe a quem

respondeu

ao buda

qual buda

um buda sorridente junto à janela
não viste
perguntou

não tinha visto não

pisco sempre o olho aos budas
nunca se sabe

ele dizia

ele dizia

é mais fácil falar do que dizer

e explicou

porque falar aflora e desliza e faz ricochete
dizer insiste e tatua e morde

as eternidades que se esfumam

as eternidades que se esfumam
que se afundam ascendendo
e
no aparente paradoxo
se extinguem no esquecimento

no entanto
não deixam de vez a lembrança
e com um rumor de memória
uma cicatriz sem ferida
uma intuição diluída no âmago
o tempo é líquido e flui e derrama-se e evapora-se e condensa-se e precipita-se

para finalmente se espraiar pelo firmamento frágil do espírito

cá vamos estando

não quer dizer que não se digam coisas
nem significa que se esgotaram as palavras

apenas que um ano passou
que se contaram os dias e que se fechou tudo isso num canto

agora sobra o infinito
outra vez

e cá vamos estando 

dia 366

aqui estamos
na noite mais profunda

juntos
como no início desse longínquo primeiro dia

este caminho bissexto
como pretexto de um diário poético
chega agora ao fim

amanhã regressa um outro silêncio
um suspiro ou um eco

mas para haver poesia não são precisos poetas
nem versos nem poemas
para haver poesia
só é preciso leitores

a eles a minha gratidão 

noutra vida haverá mais

dia 365

o livro era velho
e lá dentro as coisas que dizia estavam gastas
comidas pelos olhos de muito leitor que por lá passou

ele já não lia
folheava as páginas apenas por instinto
e demorava-se horas nesse embalo

quando o chamavam para tomar a medicação
pousava o livro e suspirava
o verdadeiro romance era ele no asilo
e as horas intermináveis de uma loucura silenciosa

no fundo
ele era o livro velho e gasto que já ninguém lia

dia 364

talvez a minha língua embeleze a tua língua
e entre os lábios se elimine a distância para que se possam juntar

estas coisas de beijar e ser beijado
sempre foram delicadas
e inevitáveis
como as leis da física
e os feitiços e
de vez em quando
os eclipses