A ideia de um paraíso algures. Uma praça ajardinada com pombas a debicar por entre a relva, uma súbita chuva de madrugada, uma onda mais longa na praia deserta do Outono. Relembrar as montanhas esculpidas pelo Homem e o seu louco sonho de semear sol e colhê-lo mais tarde em forma de uva ou de um outro fruto prometedor. O silêncio imenso do teu sono quando o velo ou ainda, o sentimento avassalador de te amar sem saber como ou porquê. A paz da solidão de certos momentos ou de uma partilha fraterna de sorrisos. A calmaria de um livro já lido mil vezes face ao turbilhão encarcerado de outros por ler. A ideia de um paraíso logo após as palavras e o ponto final ou a chuva miúda das reticências...
Conclusão
Passaste hoje de madruga perto de um cemitério. Viste-lhe as velas luzindo nos intervalos de negrume, campa sim, campa não. A lua no alto desenhava-se por entre as nuvens despejando brilho fosco sobre os paralelos. Pensaste nas almas repousando lado a lado no maior dos silêncios. Um silêncio que será também teu um dia.
Nadas
Curioso como do silêncio podem brotar outros silêncios. Imaginar-se-ia que da quietude poderiam nascer ruídos, rasgos de um qualquer rumor ou murmúrio, sopros leves, brisas ténues, tímidas. Mas do silêncio, por vezes, em noites mais escuras, mais densas, geram-se outros silêncios, sossegos, omissões, nadas.
A casa
A casa era velha. A velhice revelava-se no musgo crescente que invadia as dobras da pedra e da madeira. Mas sobretudo no rumor de abandono que circulava entre os corredores escuros e os quartos desertos. A cozinha era apenas uma banca de caruncho e uma mesa manca a meio. O salão quieto e silencioso dormia ao sabor das cortinas rasgadas. Todo o mobiliário coberto de pó e de uma ocasional teia de aranha já gasta. O peso do tempo vinha abater-se sobre o chão nu de carpetes, escorrendo do teto e dos quadros tortos nas paredes. Lá fora o jardim eram silvas e folhas acumuladas de muitos outonos. Um dia toda o jardim engolirá a casa, e de velha que é tornar-se-á húmus e orgânica, comida de bichos, vaso de plantas, ténue desenho do que foi outrora. Noutro dia ainda, mais há frente no desenrolar das eras, o mar inundá-la-á. E se ousarmos imaginar épocas ainda mais futuras, o cosmos encarregar-se-á de tudo engolir num tufão celestial de estrelas e galáxias em movimento até ao aniquilar final. Nem as palavras sobreviverão a esse cataclismo. No fundo, o silêncio derradeiro da casa velha já há muito foi pronunciado.
O porvir
A rua desenha-se em frente como se o asfalto se revelasse aos soluços por entre o nevoeiro. A cada dez passos novo tapete negro malhado de traços brancos sinalizando as regras de trânsito, relembrando-nos a civilização que vamos sendo. Os romanos optaram por pedras, rios petrificados, serpenteando o mundo da altura, brotando de Roma qual nascente parideira e desaguando noutras cidades. Sobram ruinas e cicatrizes, os novos caminhos de alcatrão, como este que se veste de neblina, imitam a função, são ecos desse propósito ancestral do viajante: avançar. Como as palavras que dizemos hoje são palavras que outros já disseram antes de nós.
O nevoeiro há-de esfumar-se e a estrada estender-se-á na plenitude, revelando não apenas distância mas igualmente o futuro. O porvir é o destino ao qual tão somente ainda não chegámos.
O nevoeiro há-de esfumar-se e a estrada estender-se-á na plenitude, revelando não apenas distância mas igualmente o futuro. O porvir é o destino ao qual tão somente ainda não chegámos.
Escrever
Escreves. A partir de hoje escreves todos os dias. Nascerá na alma essa vontade, mas para além disso, pedirá também uma vontade do corpo. É certo que tudo começa antes, talvez num sonho divino ou na escuridão do cosmos, porventura inicia-se em algo predeterminado ou fruto do acaso, mas depois do antes desagua-se inevitavelmente no corpo, por isso, para escrever é necessário que algo de físico aconteça, que no cérebro ocorram coisas que a neurologia explique e a bioquímica exemplifique, que daí resulte algo mais tátil, que os músculos, cartilagens, tendões e ossos façam o seu trabalho. Para escrever será então necessário que se puxe uma cadeira, que haja papel, seja ele de pasta de madeira ou digital, que haja tinta ou teclas e dedos a desenhar ou dedilhar. Que se coloquem letras umas à frente das outras, e uma letra é sabido vem de longe, vem dos inícios de sermos gente antes ainda de se escrever, de quando deixámos de ser macacos e passámos a ser estes macacos específicos, que uma letra representa uma convenção e que uma convenção representa outra coisa qualquer que se calhar os idos formalistas russos explicavam. Mas que se fodam os formalistas russos, apesar de lhes reconhecer o mérito de terem sido formalistas russos, mas bom. Escreves e isso nota-se, e depois dessa vontade ter nascido na alma, nos infinitos do espaço ou no tédio de um deus qualquer, passou pelo corpo que teve finalmente de traduzir alguma coisa em palavras. Escrever dá um trabalho de milénios, escrever é ser-se todo o silêncio de uma vez e todo o ruído que nunca se ouviu.
Escreves e a partir de hoje fá-lo-ás todos os dias.
Dos quartos do passado
O passado será um país distante repleto de neblinas.
Houve quartos povoados apenas por uma cama, uma secretária, papéis com versos e, por breves horas, por um corpo de mulher. Quartos cujas manhãs se esvaziavam de ti e as rugas dos lençóis desenhavam estranhas formas sobre o colchão. Janelas por onde a claridade era fatiada por persianas meias fechadas, criando contornos de sombra e luz sobre as paredes. O silêncio era imenso mas leve e o aroma do calor da noite prolongava-se até tardias horas. Por vezes regressavas e fazia-se noite de novo e tudo recomeçava renovado, como se nunca nos tivéssemos tocado, beijado e amado. Amávamo-nos como estranhos de cada vez, sem preconceitos, sem antes, sem antecedentes, como uma página em branco, novos rabiscos, novas tentativas, novo ensaio.
E no fim uma vez mais o quarto e a quietude familiar das manhãs vazias, vazias de ontem e cheias de brilho, de promessa de mar para lá do vidro, da janela e da estrada. Cafés do lado de fora esperando uma bebida.
O passado será um país distante repleto de neblinas, ficam os textos antigos aqueles que se salvaram. Os outros que se calaram descansam então nesse país distante entre nevoeiros e amnésias. Certeza é que um quarto vazio de nós existe algures, nenhures, em zero absoluto.
hoje não houve céu
hoje não houve céu
e ainda agora, com o breu da noite caído sobre as ruas
nada alumia de cima
as nuvens cobrem tudo com uma cor de chumbo
desse manto negro há tons de penumbra que desenham ténues traços de alguma coisa no firmamento
mas sem céu tudo se resume ao chão
como se se erguesse de repente e inundasse tudo o resto
sem referências que não o solo sem horizonte sem teto sem paredes sem estrada pois tudo é raso tudo é uma dimensão
se fosse poesia
seria um verso só
só e apenas
hoje não houve céu
e ainda agora, com o breu da noite caído sobre as ruas
nada alumia de cima
as nuvens cobrem tudo com uma cor de chumbo
desse manto negro há tons de penumbra que desenham ténues traços de alguma coisa no firmamento
mas sem céu tudo se resume ao chão
como se se erguesse de repente e inundasse tudo o resto
sem referências que não o solo sem horizonte sem teto sem paredes sem estrada pois tudo é raso tudo é uma dimensão
se fosse poesia
seria um verso só
só e apenas
hoje não houve céu
onde tudo se repete
Escondo-me nas sombras de uma esquina. Espio-te cá de baixo olhando tua janela iluminada. Metido dentro da neblina fina da noite, aguardo que venhas espreitar a rua silenciosa. Teu vulto deve passear no quarto, adivinho-o nos contornos das penumbras breves. Acabas por apagar a luz e fechar as cortinas, mergulhas de vez em escuridão. Aventuro-me uns passos fora, esticando o pescoço em vã esperança. Não será esta noite que te visitarei enfim. Talvez amanhã, talvez. Faço-me à rua, passo ante passo em direção ao amanhã onde tudo se repete.
O vício
Nisto das palavras o vício funciona ao contrário: é a ausência delas que faz mal, que vicia, que prende. Escrever é o difícil, é a recuperação, a limpeza. Há demasiado tempo que o silêncio me deita abaixo, me adia, me envelhece, me emudece.
Hoje recomeço, gravo mais uma promessa que espero definitivamente não ser vã, recuso a quietude e a inércia do papel em branco. Hoje escrevo uma palavra de cada vez. Amanhã, se não recair, voltarei e depois uma vez mais e assim até ao sempre, um dia de cada vez, letra a letra.
Cosmos
A vertigem que sinto ao escrever sobre isto é difícil de explicar. A série Cosmos de Carl Sagan, vi-a há muitos anos. Revejo agora a nova versão que tem passado na National Geographic e a mesma emoção me percorre a alma.
Tenho para mim que devia ser obrigatório nas escolas passá-la aos alunos entre os 14 e 18 anos. A aventura que é narrada só poderá deixar indiferente aqueles que já esqueceram, ou nunca souberam, de onde vimos, onde estamos e para onde vamos.
Trata-se muito mais do que falar sobre Ciência, trata-se de revelar o caminho de se ser humano, de encontrar finalmente a harmonia misteriosa de tudo o que nos rodeia.
libertação de silêncios
sabias dos silêncios escondidos nas esquinas
por lá se encolhem
se contorcem
insinuando sombras
soprando palavras velhas promessas gastas
sonhando o velho amor esquecido
desenhando de madrugada o vulto dela
criando a golpe de crença o perfume de um beijo nunca dado
nunca partilhado nunca escrito
os silêncios escondidos nas esquinas
tricotando a pedra dos passeios
olhando os céus chuvosos
imaginando as constelações todas
uma a uma
cassiopeando
conspirando em versos invisíveis
num poema cuja leitura derradeira
os libertará finalmente
em rima serena certa perfeita
deixando esquinas desertas e solitárias
por lá se encolhem
se contorcem
insinuando sombras
soprando palavras velhas promessas gastas
sonhando o velho amor esquecido
desenhando de madrugada o vulto dela
criando a golpe de crença o perfume de um beijo nunca dado
nunca partilhado nunca escrito
os silêncios escondidos nas esquinas
tricotando a pedra dos passeios
olhando os céus chuvosos
imaginando as constelações todas
uma a uma
cassiopeando
conspirando em versos invisíveis
num poema cuja leitura derradeira
os libertará finalmente
em rima serena certa perfeita
deixando esquinas desertas e solitárias
rumorologia
não será bem um eco
os ecos esfarelam-se na distância
tornam-se nadas no silêncio
será antes um rumor
os rumores roem discretos
no subtil correr do tempo
sim um rumor
um sopro permanente na cave da alma
a brisa teimosa da praia que sempre foi nossa
um murmurar pela noite do nosso abandono
um suspiro na manhã definitiva
última manhã
derradeira
como está escrito nos horizontes
no firmamento
nos livros de rumorologia
os ecos esfarelam-se na distância
tornam-se nadas no silêncio
será antes um rumor
os rumores roem discretos
no subtil correr do tempo
sim um rumor
um sopro permanente na cave da alma
a brisa teimosa da praia que sempre foi nossa
um murmurar pela noite do nosso abandono
um suspiro na manhã definitiva
última manhã
derradeira
como está escrito nos horizontes
no firmamento
nos livros de rumorologia
Disciplina, solidão, silêncio e prisão
Cito de cor mas foi mais ao menos isto que disse Lobo Antunes sobre escrever:
É necessário disciplina, solidão e silêncio.
Acrescento que é igualmente necessário estar-se encurralado. Entre a espada e o papel em branco, aprisionado, ameaçado, eventualmente aborrecido. Na contradição destas coisas todas está o caminho que tenho finalmente de encontrar.
Das inúmeras promessas adiadas, dos falsos regressos, dos inícios abortados, dos silêncios cabisbaixos, dos desertos ausentes de mim, este será mais um, e, tal como os anteriores, vem vestido de renovada esperança que em breve encontrarei a disciplina, a solidão, o silêncio e a prisão que me farão escrever de vez.
Relembrar
Agora que já amontoaste silêncios suficientes, que escavaste espaços de nada no teu viver, que resvalou tempo, muito tempo desde as últimas palavras, podes, finalmente, regressar.
Tratas-te por tu, pois estás em ti mesmo, perto, íntimo. Não quer dizer que te conheças, mas pelo menos, reconheces-te.
Será uma boa altura para relembrá-la, a última que partiu. É certo que sorriso ecoa ainda à janela da casa. Que a rua onde atirava o olhar lá permanece. Que o quarto, no alto, mantém a mesma quietude e os mesmos jogos de sombra. Talvez o vinho se gaste um pouco menos. Os terços já não ajudam a tantas rezas. O passar o tempo sabe agora a saudade, carrega mais silêncio e menos avó. Mas é assim, já o sabias, é assim. Resta-te ser neto a cada momento e não esquecer que o és.
conclusão
dos inúmeros silêncios que vais semeando, uns vão criando raiz, outros
vão criando caruncho, uns vão roendo o tempo por dentro, outros secam de vez.
do mesmo número de regressos se fizeram esses silêncios.
regressas agora devido a uma feliz coincidência que envolve futebol, teatro e claro, a mesma velhíssima ideia sobre o amor
o amor por ela e com ela, o amor teu e o amor dela
e nessa coincidência reencontraste a velha certeza de que o amor é eterno, mas que a escrita o é ainda mais,
ou não tivessem sido as palavras o que primeiro vos juntou,
antes de tudo,
disto
daquilo
daqueloutro
e, como não,
do caralho do silêncio.
vão criando caruncho, uns vão roendo o tempo por dentro, outros secam de vez.
do mesmo número de regressos se fizeram esses silêncios.
regressas agora devido a uma feliz coincidência que envolve futebol, teatro e claro, a mesma velhíssima ideia sobre o amor
o amor por ela e com ela, o amor teu e o amor dela
e nessa coincidência reencontraste a velha certeza de que o amor é eterno, mas que a escrita o é ainda mais,
ou não tivessem sido as palavras o que primeiro vos juntou,
antes de tudo,
disto
daquilo
daqueloutro
e, como não,
do caralho do silêncio.
o poema ao contrário
meu amor
seria o primeiro verso do poema ao contrário
depois, que seria na verdade antes,viria
que velo o teu sono
e depois, que seria ainda mais antes,
saber que descansamos na cratera do nosso encontro
e depois, que seria num antes de tudo,
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
e acreditaria, logo ali,
no amor à primeira vista
o poema ao contrário é circular
porque começa e acaba no amor
num lugar sem tempo
num lugar sem lugar
o poema ao contrário,
finalmente endireitado
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
que descansamos na cratera do nosso encontro
que velo o teu sono
meu amor
seria o primeiro verso do poema ao contrário
depois, que seria na verdade antes,viria
que velo o teu sono
e depois, que seria ainda mais antes,
saber que descansamos na cratera do nosso encontro
e depois, que seria num antes de tudo,
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
e acreditaria, logo ali,
no amor à primeira vista
o poema ao contrário é circular
porque começa e acaba no amor
num lugar sem tempo
num lugar sem lugar
o poema ao contrário,
finalmente endireitado
saber o estilhaço de alma que é ver-te pela primeira vez
que descansamos na cratera do nosso encontro
que velo o teu sono
meu amor
não temos princípio nem fim
A melancolia é um sentimento de falha, de ausência. Sofre-se ao senti-la. Não de uma dor insuportável mas antes de uma dor que insiste e se insiste. Sorte daqueles que como eu, a sentem assim de peito aberto, que a acolhem com a alma. Tanto por saberem que ela é fruto de se ter vivido um tempo por inteiro, de se ter comungado com outros totalmente, de os tornar família, como de se aperceberem que esse mesmo tempo escorreu de vez e o que nos fica é um eco de carinho. E sorte ainda mais, aos que mais tarde encontraram outro alguém que lhes dê um regaço onde se revela uma paz imensa. Tu és esse regaço. Poder eu, com o meu passado rico e pleno, descansar em ti esta nostalgia melancólica que me aperta o ser, e ter em ti um lugar de silêncio onde repousar, onde aceitar que não se volta para trás mas onde partilho a tal dor em desvanescer permanente e tranquilo, é a revelação do infinito que me és, do amor incondicional que te sinto.
Dizer-te que me rendo a ti, eu e o meu passado, que o torno teu, que to ofereço. O amor será isto, poder entregar-me também em saudade do tempo anterior a ti, ao antes de te saber, porque lá nos confins de nós mesmos, no abismo interior, sabemos ambos, que tu e eu somos fruto de algo ainda mais antigo que tudo o resto, que tudo isto. Nós, e a força toda do pronome, não temos idade, não temos princípio nem fim.
como lá longe
rodeado de todos os outros
quereres fazer parte deles
de te instalares em silêncios
como lá longe nascem e morrem estrelas
sem testemunhas para além do eco
eternamente propagado no mar cósmico
quereres fazer parte deles
de te instalares em silêncios
como lá longe nascem e morrem estrelas
sem testemunhas para além do eco
eternamente propagado no mar cósmico
Voltar a casa
Ser-se de lugares vários. Poder dizer-se que se regressa a casa e não ser sempre o mesmo destino. Por uns dias, reencontrar um lugar com cheiro a passado, um lugar tatuado no tempo, retalhado numa infinidade de momentos, cravado no fundo da alma, com toda a magia possível de se reerguer ao presente e embalar-nos numa melancolia tão doce, tão suave, que o infinito se sente a resvalar em cada poro. Voltar a casa, é um estado de espírito.
O revés
Terá contado histórias, todas as histórias. Mas não ouviste, estavas demasiado preocupado com a espuma da cerveja a deslizar do copo, ensopando o pousa-copo de cartão. Terá dito coisas, todas as coisas. Mas não tomaste atenção, perdias-te nas espirais do fumo dos cigarros dos tipos ao lado. Terá explicado o que aconteceu, tudo o que aconteceu. Mas não entendeste, vagueavas o espírito pelo lado oculto do que ele contou, disse e explicou, que é como quem diz, vagueavas pelo lado oposto de tudo isso. De todas as histórias que ele contou, de todas as coisas que ele disse, de tudo o que aconteceu e ele explicou, nada retiveste, criaste antes, à volta disso, tudo o seu contrário, todas as histórias que ele não contou, as coisas que ele não disse, e tudo o que não acontecu e ele não explicou. Como se ele ao falar-te, provocasse em ti, o revés, o reflexo
do silêncio
apenas do silêncio poderá brotar a palavra definitiva, perfeita e limpa
a palavra final que te dirá tudo de uma vez, de uma só vez, de uma só e irremediável vez
dessa palavra brotarão outras, ecos, reflexos, imparáveis, povoarão os recantos mais profundos, as terras mais longínquas, as montanhas mais altas
e quedar-se-ão mudas uma vez mais, sopros quietos na solidão universal,
apenas do silêncio poderá brotar mais silêncio
Escrever-te amor
De quando as últimas palavras que te escrevi? Essa ideia do amor que me assombra desde sempre, desde o antes. Essa rendição total do ser. A emoção que é o teu olhar a galopar-me a alma, o arrepio silencioso de te dizer "tu" e o rebentar na boca do pronome e de tudo o que ele carrega, por dentro, por fora, por todo. Escrever-te como no tempo em que a sala com vista para o mar era o palco perfeito para a poesia, com uma quietude tal que os quadros nas paredes murmuravam ecos dos seus traços. Evocar-te pelo verbo, pelo infinito definido e preciso de te amar ali, no agora, no imediato, e sentir ao mesmo tempo que não tinha corpo nem pele que chegassem para o compreender totalmente, porque escrever-te palavras de amor era a evidência de que jamais conseguiria fazê-lo por inteiro sem sangrar de vez numa síncope total, numa implosão de mim.
No fundo, escrever-te amor, é tão intenso que mais vale uma folha em branco e o mar infindo de todas as possibilidades.
faz ruído
faz ainda demasiado ruído o silêncio
por isso o outono não descansa
e contorce-se nos ventos irrequietos
nas chuvas intermitentes que se despenham
vindas do céu desmaiado de palidez
faz ainda ruído o silêncio adiado de um mar revolto
encorrilhado entre espuma e águas cor de chumbo
tricotando-se entre os calhaus negros
faz ruído o silêncio vazio das palavras
que insistes em cravar na imensidão da tua pórpria mudez
faz ruído o silêncio
pois ele é todo o barulho possível
na implosão de todos os sons
cataclismo de todas as sílabas
revés de cada sopro
rumor ou murmúrio
por isso o outono não descansa
e contorce-se nos ventos irrequietos
nas chuvas intermitentes que se despenham
vindas do céu desmaiado de palidez
faz ainda ruído o silêncio adiado de um mar revolto
encorrilhado entre espuma e águas cor de chumbo
tricotando-se entre os calhaus negros
faz ruído o silêncio vazio das palavras
que insistes em cravar na imensidão da tua pórpria mudez
faz ruído o silêncio
pois ele é todo o barulho possível
na implosão de todos os sons
cataclismo de todas as sílabas
revés de cada sopro
rumor ou murmúrio
Borges
Ler Borges é um acto de loucura. A noção de infinito nunca foi tão palpável. No meio dessa queda vertiginosa pelo universo que se nos revela, nem tempo há para a total rendição. Não há tempo, ele já escoou todo para lá do agora... e repete-se ad eternum sempre igual, nunca igual, desdobrando-se nas inumeráveis possibilidades do que aconteceu, acontece e acontecerá, sendo que nem essas noções são precisas. Ler Borges é, finalmente, confrontarmo-nos com o desassossego de uma fatalidade, sendo que ela não tem rosto, não tem denúncia, e ela, no fundo, pode ser todas as coisas possíveis e todas as coisas impossíveis. Ler Borges é sermos transparentes e estarmos dentro de um cubo feito de espelhos.
a possibilidade infinita de todas as coisas
o gato dorme as horas da tarde que tardam em passar
tu velas essas horas
ao som de música cubana
foi a que te calhou hoje
escolhes palavras
evitando assim apanhares a roupa seca
e preparares a tábua
pensas na barba por desfazer
e concluis duas coisas
que nem a roupa se apanha e se passa sozinha
nem a barba se desfaz sem pegares na lâmina
curioso também é revelar-se
já no fim destes versos
que eles
tão pouco
se escrevem sem uma mão a fazer o frete
por muito que existissem já
na possibilidade infinita de todas as coisas
tu velas essas horas
ao som de música cubana
foi a que te calhou hoje
escolhes palavras
evitando assim apanhares a roupa seca
e preparares a tábua
pensas na barba por desfazer
e concluis duas coisas
que nem a roupa se apanha e se passa sozinha
nem a barba se desfaz sem pegares na lâmina
curioso também é revelar-se
já no fim destes versos
que eles
tão pouco
se escrevem sem uma mão a fazer o frete
por muito que existissem já
na possibilidade infinita de todas as coisas
O limbo
Sendo que a literatura é a arte de mentir para revelar a verdade, não é menos certo que a verdade são mentiras reveladas. Andamos assim, no limbo. Talvez o limbo seja o que de mais concreto exista.
O tecido do tempo visto por um poeta
Olhamos o relógio e faltam cinco minutos.
Fica esse momento feito eternidade.
5 minutos que não terminam nunca.
Infinitos no tecido do tempo
Olhamos o relógio uma vez mais.
Foda-se!... passaram já 10 minutos.
Fica esse momento feito eternidade.
5 minutos que não terminam nunca.
Infinitos no tecido do tempo
Olhamos o relógio uma vez mais.
Foda-se!... passaram já 10 minutos.
alguma coisa
lês uma cena de um deles
de um desses que sabem ou souberam escrever
coisa simples
limpa
batida à máquina em fundo branco que fora silêncio
e disso que lês percebes que disseram alguma coisa
e que dizer alguma coisa tem que se lhe diga
tu dize
vais dizendo
mas não sabes se é alguma coisa
porque alguma coisa que se diga não é para todos
de um desses que sabem ou souberam escrever
coisa simples
limpa
batida à máquina em fundo branco que fora silêncio
e disso que lês percebes que disseram alguma coisa
e que dizer alguma coisa tem que se lhe diga
tu dize
vais dizendo
mas não sabes se é alguma coisa
porque alguma coisa que se diga não é para todos
lado lunar
Ficou esse lado lunar do Gerês a ressoar ainda hoje no silêncio dos olhos. Um rumor quieto a percorrer-te a alma, um chamamento profundo como que um convite. Hás-de aceitá-lo em breve e cumprirás um regresso.
Dos sítios
Foste a alguns sítios já mas faltam-te muitos mais. Dos sítios a que foste alguns tatuaram-se em ti. Melhor, revelaram-se em ti, como se já lá estivesses estado antes de tudo. Porque é isso, é exactamente isso, reencontrares no deslumbre de certas paisagens, um arrebatamento anterior a ti, como que um reconhecimento infinito, uma rendição total da alma e do ser. Um lugar que te escancara os olhos e a boca em espanto, não é mais que a vertigem contraditória de saberes e não saberes ao mesmo tempo, que ali pertences, que ali sempre pertenceste e que ali sempre pertencerás.
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