havia um cachecol com cores de outono
e a espiral lenta da queda das folhas
tinha chovido de manhã e no chão o céu era espelhado a espaços em cada pequeno charco
inevitavelmente
no meio de um bando de corvos enlutados
reparei num melro
como se um pirilampo de repente esvoaçasse pela noite
dia 123
desceram as escadas
na cave as mesas e as cadeiras estavam vazias
há muito que ninguém se sentava a escrever
eram verdade os rumores de que tinham desaparecido aqueles que outrora se escondiam nas madrugadas anotando em cadernos
talvez se se sentassem eles agora
e retomassem as rimas e os versos
as noites deixariam de ser órfãs
alguém terá de o fazer
não há como conter a palavra
da mesma forma que não se contém um uivo
dia 122
escrevi e apaguei este verso mil vezes
mil vezes o disse em voz baixa
mil vezes ninguém o ouviu
nem eu
dia 121
tenho uma recordação que tem tanto de vago como de preciso
como quando se cerra os olhos para melhor se ver e ao mesmo tempo pior se vê
mas a ideia revela-se e tatua a sua própria dúvida de ser real
trata-se de um homem derrotado e perdido
caído sob o peso do infortúnio
mas que acredita ainda
que alenta a esperança
e a palavra que usa não mais me abandonou
escapatória
como se toda uma existência se resumisse a isso
a escapar
nada mais
nem o amor
nem o desgosto
nem as lágrimas
os filhos
a poesia
o suor ou a fome
não
somente essa coisa que pulsa desde que se nasce e que arde no fundo dos fundos
des - ser-se
dia 120
o sono chega como um segredo
e o que ninguém ouve ninguém repete
apenas fica o corpo mergulhado num lençol
entregue às correntes nocturnas dos sonhos até naufragar na manhã
dia 119
o caos que é impossível recordar e esquecer
em surdina revolve o chão da alma e ara-o perfeito
e a tua sombra desenhada em traços leves de fim de tarde dança nessa minha planície interior
ter-te tão perto em dois mundos
na sede do corpo
e no desmaio do espírito
talvez te escreva hoje
dia 118
o quadro empoeirado retratava um mar de tempestade à volta de um homem abraçado a um pedaço de madeira
ondas gigantes desabavam e todo o céu estremecia
pergunto-me se o náufrago afinal não seria marinheiro
e o frágil pedaço de madeira uma jangada
e todo ele uma armada domando o oceano e os ventos
porque o meu medo não tem de ser o dele
mas talvez os nossos sonhos sejam os mesmos
ondas gigantes desabavam e todo o céu estremecia
pergunto-me se o náufrago afinal não seria marinheiro
e o frágil pedaço de madeira uma jangada
e todo ele uma armada domando o oceano e os ventos
porque o meu medo não tem de ser o dele
mas talvez os nossos sonhos sejam os mesmos
dia 117
o velho sentou-se mas recusou-se a contar a história
que a memória é um engodo
disse ele
uma armadilha que se revela crua e nua
o plágio da nossa própria alma
como se fosse possível enganar o tempo
não
não entro nesse jogo de sombras
limitou-se a abanar a cabeça durante toda a tarde
e a cada pergunta que lhe fazia
encolhia os ombros e fechava os olhos
nunca se chegou a saber o que aconteceu na véspera
que a memória é um engodo
disse ele
uma armadilha que se revela crua e nua
o plágio da nossa própria alma
como se fosse possível enganar o tempo
não
não entro nesse jogo de sombras
limitou-se a abanar a cabeça durante toda a tarde
e a cada pergunta que lhe fazia
encolhia os ombros e fechava os olhos
nunca se chegou a saber o que aconteceu na véspera
dia 116
o céu tinha o silêncio como abrigo
e no vasto braço do mar
uma cicatriz subia desaparecendo pela manga de uma ilha
a maior das solidões é mesmo isso
uma ilha deserta sob a quietude celeste
e não há nada mais belo
e no vasto braço do mar
uma cicatriz subia desaparecendo pela manga de uma ilha
a maior das solidões é mesmo isso
uma ilha deserta sob a quietude celeste
e não há nada mais belo
dia 115
o que não tatuei no corpo
tatuei na lembrança
mas a memória é líquida e sujeita a marés e nevoeiros e espelhos embaciados após o banho
não há como escapar à decadência do que se deseja
os melhores sonhos são aqueles dos quais não nos lembramos
dia 114
Perguntei-lhe sobre o processo criativo e estas foram as palavras que disse:
impõe-se um certo decoro durante o bolero das vertigens
e há que ter pudor quando alguém aterrorizado ainda não sabe bem que o está
por isso
antes de cada palavra e de cada verso
fecho os olhos
nunca leio o que escrevo
dia 113
imagino que na hipótese de abrir uma garrafa sozinho
a única postura solidária a ter é bebê-la até ao fim
não há misericórdia para com os ausentes
não sobram despojos para que as lamúrias possam medrar
onde não sobra nada
não há nojo nem poeira
apenas a beleza de um gesto humanitário
e um bêbado claro
a única postura solidária a ter é bebê-la até ao fim
não há misericórdia para com os ausentes
não sobram despojos para que as lamúrias possam medrar
onde não sobra nada
não há nojo nem poeira
apenas a beleza de um gesto humanitário
e um bêbado claro
dia 112
escapou o verso no último instante
desaparecendo como a água sugada pelo ralo
ou os sardões pelas frinchas dos muros em ruínas
e ficaram apenas a mão estendida e o olhar impotente mergulhado nesses abismos
desaparecendo como a água sugada pelo ralo
ou os sardões pelas frinchas dos muros em ruínas
e ficaram apenas a mão estendida e o olhar impotente mergulhado nesses abismos
dia 111
o berço balança
e quer a criança quer o velho
dormem o sono profundo
o resto da casa está vazia
apenas o breve tilintar dos vidros ressoam quando passa um carro na rua
dentro dos louceiros
os desfiles de sempre dos serviços nunca usados
copos pratos sopeiras
atentos a isso estão os quadros de natureza morta pendurados sobre as paredes cujo papel tem padrões florais e sépia
e eu
qual intruso
escrevo
porque nesta rotina diária
encontrei a porta aberta
tivesse ela fechada e o poema seria outro
e quer a criança quer o velho
dormem o sono profundo
o resto da casa está vazia
apenas o breve tilintar dos vidros ressoam quando passa um carro na rua
dentro dos louceiros
os desfiles de sempre dos serviços nunca usados
copos pratos sopeiras
atentos a isso estão os quadros de natureza morta pendurados sobre as paredes cujo papel tem padrões florais e sépia
e eu
qual intruso
escrevo
porque nesta rotina diária
encontrei a porta aberta
tivesse ela fechada e o poema seria outro
dia 110
a lâmina do silêncio corta
as folhas do outono no chão da floresta
e a geada quando o sol nasce
e os golpes são labirintos dos quais só se escapa
quando regressa a primavera
ou as noites frias do inverno
as folhas do outono no chão da floresta
e a geada quando o sol nasce
e os golpes são labirintos dos quais só se escapa
quando regressa a primavera
ou as noites frias do inverno
dia 109
as fogueiras navegaram a noite deixando um rasto de fagulhas
e rituais antigos onde versos eram declamados até a voz quebrar
perderam-se nos entretantos
em vez de ser no céu
é no fundo dos sonhos que vejo cometas farejar o universo
como que há procura de um derradeiro incêndio ou de uma outra trajectória
dia 107
pequenos grãos de areia
cansados de serem deserto
passaram a ser praia
mas outros ainda preferiram ser poeira
e de noite
pela porta da frente
enquanto alguém dorme lá em cima
entram e passeiam pela sala
dançando entre quadros e retratos e livros
até sucumbirem no chão ou numa estante
dia 106
a primeira ideia era cavalgares pelas linhas da mão e saberes de ti
a segunda tinha que ver com as garrafas vazias que tens bebido e coleccionado num arranjo ao pé da televisão
a terceira já não te recordas
e o que fica?
uma outra coisa
algo que desvendas sem te aperceberes
um segredo por contar
um medo por sentir
um arrepio por revelar
dia 103
passou para o outro lado da velhice
onde as rugas se tornam o braille do tacto
e a vista tão curta que enxerga o passado
onde as rugas se tornam o braille do tacto
e a vista tão curta que enxerga o passado
dia 102
- O que senti? - perguntou enquanto falava sozinha encostada ao bar.
- Imagina - continuou - que estás num escafandro, bem no fundo do mar, onde a luz chega em esforço e reina o maior dos silêncios. - parou para terminar o copo de um whisky barato.
- Já imaginaste? Muito bem. Agora, abre a janelinha do escafandro... foi isso que senti.
dia 101
encontrei num acaso um poema que fala de um vento que morde
que faz com que marinheiros abandonem navios e se joguem às ondas
e que no meio delas olhem o céu onde estrelas se escondem umas atrás das outras
em eclipses sucessivos até a própria noite se extinguir
dia 100
a inércia do silêncio semeia inúmeros livros sem palavras
e as histórias que não contam descrevem mundos iguais ao nosso
onde quando alguém grita que há perigo
berrando num bramido que faz estremecer os quadros das paredes
logo há os que fogem levando consigo tudo o que podem
como os há que tudo largam e se lançam irredutíveis na direcção do apelo
e as histórias que não contam descrevem mundos iguais ao nosso
onde quando alguém grita que há perigo
berrando num bramido que faz estremecer os quadros das paredes
logo há os que fogem levando consigo tudo o que podem
como os há que tudo largam e se lançam irredutíveis na direcção do apelo
dia 99
passo os olhos nuns poemas que não são meus
folheio e despenho o olhar pelos vários versos
e ficam ecos
para sempre
folheio e despenho o olhar pelos vários versos
e ficam ecos
para sempre
dia 98
há um verso do Cohen que diz
you'd been to the station to meet every train
e com uma janela e um café à frente
imagino essa demência
como se os trilhos suassem de tanta espera
you'd been to the station to meet every train
e com uma janela e um café à frente
imagino essa demência
como se os trilhos suassem de tanta espera
dia 97
o fóssil desenhava uma forma indescritível
como se o tempo tivesse coalhado e apenas uma ideia sedimentara
a memória não tinha cor
e o cheiro a sal cobria lua
a tribo inteira rezava à volta da estranha peça
e os cânticos entoavam pelas paredes do universo
como se o tempo tivesse coalhado e apenas uma ideia sedimentara
a memória não tinha cor
e o cheiro a sal cobria lua
a tribo inteira rezava à volta da estranha peça
e os cânticos entoavam pelas paredes do universo
dia 96
poderia atirar orquídeas pela janela
escrever sobre o Pacífico e de como as ondas de lá são menos salgadas que as de cá
poderia saltear legumes e deixá-los suar até ser o momento certo para terminar com um nó de manteiga
poderia abrir um tinto e decantá-lo ao som de um concerto de cravo enquanto pela sala o cheiro das velas e do incenso pairam no ar
mas tudo isso seria petulante
e não tenho orquídeas nem mergulhei no Pacífico
tenho os legumes mas a manteiga acabou
há vinho e velas e incenso mas o som do cravo, todos sabem, não combina com um tinto
escrever sobre o Pacífico e de como as ondas de lá são menos salgadas que as de cá
poderia saltear legumes e deixá-los suar até ser o momento certo para terminar com um nó de manteiga
poderia abrir um tinto e decantá-lo ao som de um concerto de cravo enquanto pela sala o cheiro das velas e do incenso pairam no ar
mas tudo isso seria petulante
e não tenho orquídeas nem mergulhei no Pacífico
tenho os legumes mas a manteiga acabou
há vinho e velas e incenso mas o som do cravo, todos sabem, não combina com um tinto
dia 95
ao certo ninguém sabe
quanto tempo dedicou à arte esquecida de errar
mas a mestria com que o fazia
levava a crer que fora muito
era preciso na ideia de imprecisão e exacto no conceito do defeito
esquecia os amanhãs lendo coisas antigas
vestia largas camisas às cores
diziam que era louco
que quando amanhecia era o primeiro a sair à rua tropeçando no próprio sono
e que mal o primeiro raio de sol se propagava sobre a estrada
invariavelmente tentava colhê-lo com as mãos para logo descobrir que se lhe escapava em sombra
dia 94 - um quadro imaginado
um quadro imaginado
uma cadeira partida onde o velho se senta olhando nuvens indecifráveis
a sabedoria que o inunda cresce a cada trago de bagaço
e assim vai cosendo sesta atrás de sesta até o retalho fazer-se noite e ser hora de dormir
o absurdo de uma nódoa na camisa tão velha quanto ele
o copo já vazio tombado sobre o chão do alpendre onde uma última gota escorre para o chão
é uma tarde quente e de dentro da casa chega a voz rouca de um rádio
uma cadeira partida onde o velho se senta olhando nuvens indecifráveis
a sabedoria que o inunda cresce a cada trago de bagaço
e assim vai cosendo sesta atrás de sesta até o retalho fazer-se noite e ser hora de dormir
o absurdo de uma nódoa na camisa tão velha quanto ele
o copo já vazio tombado sobre o chão do alpendre onde uma última gota escorre para o chão
é uma tarde quente e de dentro da casa chega a voz rouca de um rádio
Subscrever:
Mensagens (Atom)