quietudes nocturnas

O que tens para mim?

palavras

Aceito. Aceito tudo. Apenas te nego os nadas.

pois, mas são palavras de nada que tenho para dar
ausências, savanas silenciosas sobre mantos de penumbra

Nunca amanheces?

raramente
a minha madrugada é quase sempre permanente
eterniza-se e quando penso que a noite ameaça diluir-se, um vento de breu levanta-se e volta a cobri-la
fico refém das quietudes nocturnas


E quando calha de o sol nascer?

é tarde
o mundo é um deserto e só estou eu esgotado de insónias, vazio


E dormes então?

morro
como um derradeiro desmaio
o meu corpo estende-se por uma praia, torna-se areia dispersa
quando volto a mim é noite uma vez mais e recomeça tudo de novo

Nunca te velaram esse sono?

talvez, uma vez
julgo que sonhava e que havia uma vaga de carinho a banhar-me mas todo eu permanecia à deriva
a minha pena é naufragar sempre, para sempre
sou bússola sem rosa nem brisa nem rumo

Aceito tudo mas nego esses teus nadas.

eu sei
mas nem os nada são meus para os poder dar
e, no fundo, o que é que se pode dar a alguém no fim de todas as contas?

Uma mentira.

ah, sim
mas dar uma mentira é o mais fácil
a mentira não necessita de ninguém a cuidá-la
é erva daninha, praga, ferida cuja cicatriz não sara

É tudo assim tão triste então?

não
é tudo melancólico como um banho morno
é tudo uma balada, uma nostalgia que não se cumpre, uma saudade de tudo o que não chegou a ser e a certeza de que nunca mais será
no entanto, há também o conforto de que se imaginou algo de maravilhoso, de glorioso, único e só nosso
os impossíveis que nos pertencem e que guardamos como tesouros secretos
a eternidade dessa vertigem, mesmo que durando um breve instante, fica para sempre, tatua-se num eco que resvala pelos confins disto tudo

ensaio sobre notas de prova de vinho do porto

vinho do porto vintage


os anos passam mas o ano da origem prevalece
o calor do xisto, as curvas das castas, o Douro nesse preciso momento, o mineral e o telúrico juntos para sempre
o púrpura desvanece
abrindo ligeiramente, pouco a pouco, despindo-se do escarlate e revelando, no limite da orla, uma tez de bronze e de floresta
a fruta vermelha, negra, fresca, ácida, amacia e em compota se concentra, arredondando-se e inundando os sentidos
camada a camada outros aromas acordam, folhas há muito caídas, cogumelos que despontam e delicados perfumes fumados em veludo se cobrem, como novelos de cetim e seda desenrolam-se no manto do paladar até ao impossível de uma lembrança


vinho do porto tawny


é um jogo de paciência pois o tempo não se engana nem engana
há que esperar
deixar lentamente o que um dia foi uva se torne passa
e que a passa se afine como vinho fino que é
e cada década que se esvai mais generoso se torna de generoso que sempre foi
a fruta que foi vermelha, negra e ácida, sonha agora em modo outonal
é fruta seca de avelã amendoada e nozes de cheiro a pinho
é fruta cristalizada em raspas de citrinos adocicados
a as cores alouram-se, douram-se como um pôr-do-sol que não acaba
e o vinho que se casa na pipa respira pelo carvalho avinhado
e na boca prolonga-se, quanto mais velho mais nos fica, mais tem que contar
e chegam-nos as especiarias longínquas, mascavadas e exóticas
e na contradição do doce amargor surge até um toque de café
no corpo adensa-se, concentra-se
e nos que a muito velhos chegam, com mais de um século disto
é gota a gota que se fundem em mel e em sombra cerrada de laivos de um sol mortiço
funde-se, implode
até na língua ser o que são os cataclismos cósmicos
sinestesia interminável

das canetas

Cada vez que me calha uma caneta diferente, brota-me dos dedos a obsessão de escrever, de lhe destapar o sussurrar e sentir os murmúrios. Deslizo pelo alvo de um papel, é um vício, uma condenação, uma inevitabilidade.
Curiosamente, sou um perdedor de canetas inveterado, semeio-as no esquecimento de um lugar perdido. Das que gosto, quando as perco, fica-me um silêncio desolador nas mãos e as palavras choram-se (sim, reflexivamente), esfumam-se.

alto mar

e um mar de sombras
onde as ondas se elevam como crinas de cavalos selvagens
chegando a uma praia de luz
espraiam-se em línguas de penumbra desenhando silhuetas numa areia tão branca que julgamos ser feita de nuvem

e as tempestades nascem ao largo em vagas imensas que são elas próprias oceanos inteiros despenhando-se no céu mesmo junto à linha do horizonte
dobrando-a como uma corda de guitarra
e os estrondos que provocam são hecatombes em si mesmo
gerando outras montanhas de breu
escurecendo o sol
atenuando-o numa lua pálida por trás da poeira celestial

em terra
abrigado
assisto a tudo isto
e penso no que poderia sentir e eventualmente escrever
mas não sinto nem escrevo
e nesses nadas um outro cataclismo se ergue
mais imenso mais infinito do que aquele que vejo
há no marasmo do silêncio as combustões de todas as estrelas e galáxias
todo amor e toda a desilusão

e recordo o que li uma vez num sonho de uma mulher

talvez não te tenha amado em certos momentos em que te amava e talvez te tenha amado noutros momentos em que tu te apagavas
desses desencontros de há mil anos
semeámos a quietude que agora grita em alto mar

lobos

No céu, ao longe, gaivotas voam cortando nuvens e tons de azul. Sobre os telhados, existem lobos que esperam a noite. Uivam em silêncio, e esta aparente contradição explica-se pela lua invisível que não desponta. Esses lobos habitam em versos que eu não escrevi, e são a derradeira alcateia a velar sobre a poesia. Guardiães de palavras e do peso que estas carregam. Têm nos olhos todas as histórias de amor, todos os beijos e todas as vertigens da alma. Movem-se juntos pelos telhados das nossas casas e aninham-se em cantos de penumbra quando o sol queima ou em abrigos quando a chuva cai. Noites há em que o uivo deixa de ser silencioso e rasga todo o firmamento, vibrando pelas paredes do que somos e estilhaçando a nossa alma como quando cedemos a um abraço ou carinho.
Os lobos não se domam, são a ultima fronteira do que é ser livre e apaixonado. Os lobos são fogo, incêndio de vida, cataclismos permanentes, como lá nas profundezas do cosmos, quando as galáxias colidem.

Paraíso Infantil


Acho que já escrevi sobre ela antes. Mas agora nem é bem sobre ela que escrevo.
Na avenida da Boavista havia um infantário chamado Paraíso Infantil. Andei lá dos 3 aos 5 anos e esta fotografia, tirada hoje durante uma corrida matinal, leva-me a voltar ao tema.
Lá encontrei o meu primeiro amor. Chamava-se Suana era loira de olhos azuis e vivia nos prédios brancos. Isto do era loira de olhos azuis e vivia nos prédios brancos ficou tatuado no meu dizer até aos dias de hoje, como uma expressão idiomática orgânica. No fundo, não há outra forma de eu a mencionar (nunca mais a vi, e isso não é importante, pois revi-a em alguns outros rostos e belezas)
E o que me espanta é que aos 3 anos já era possível o amor. Não a correspondência do mesmo, isso é, ainda no presente, um mistério por desvendar, mas a ideia do amor perante a beleza. Sabia-o, já nessa altura de criança, que no pasmo da alma perante a beleza, a absoluta rendição era possível. E tudo isto é algo de subjectivamente abstracto mas real, como uma vertigem no corpo e no âmago do espírito. E se me explicasse melhor, diria que é algo meu, algo que senti nessa altura diante uma "mulher" demasiado bonita para que o olhar pudesse suster tamanho assombro. Não é sequer um sentimento, é um sismo silencioso, um arrepio. Um reflexo.

tempestade nos olhos

sempre um lento passar de versos
nas noites que escolhes não escrever

como se as palavras nascessem num canto esquecido
e serpenteassem pelas sombras que cresceram desde o poente

e em ti um silêncio enorme sobre um outro silêncio já velho
mudo na eternidade do teu próprio adiamento

resta-te a lembrança baça do que foi perderes-te num poema
e brotares do outro lado da página
com uma tempestade nos olhos

empate

a planície e nada

e este verso que ouviste ficou
a planície e nada
todo um tratado

o mundo inteiro à frente como uma onda imparável
e no entanto apenas o silêncio a prevalecer
como se no próprio espectro sonoro não existisse espaço suficiente para suster tamanha intensidade
e a mudez se revelasse imprevista

e no desenrolar disto tudo
nas infinitas explosões de vida
o que resta é nada
esse deserto imenso de formas difusas e enevoadas
esse limbo infinito de solidão

a tristeza é o relógio parado que sabemos ser mentira
e no fundo
mesmo no fundo
nas catacumbas da alma
jaz uma árvore despida de folhas cujos frutos nunca brotaram

o marasmo de nós
as promessas por cumprir e as que cumprimos por engano

existe sempre uma luz
mas o breu também vence batalhas

saibamos perder
e mandar tudo à merda
esse gesto não será nunca uma derrota
mesmo não sendo uma vitória

na vida também se empata

Os três inexistentes livros

Seriam três livros.

O Livro I contaria a história de amor. Um homem e uma mulher conhecem-se e apaixonam-se. Ele conta a história. Fica-se a saber que o amor dele vem de uma vertigem sem limites pela beleza dela. Uma beleza que o despedaça logo de início, que se torna um vício terrível. Do amor dela por ele pouco se vai sabendo. A dado momento, por razões ocultas, ele desaparece, beija-a e parte. Nesse exílio ficamos a saber que ele lhe escreve cartas, centenas, milhares, durante vários anos. Cartas das quais nunca recebe resposta. Um dia, descobrindo que tem uma doença terminal, decide escrever uma última carta. Nessa carta despede-se e revela que passará o resto dos dias a relembrá-la e a relatar-lhe num monólogo interior o dia-a-dia que leva nesse lugar no qual se refugiou. Essa última carta é que abre o Livro I perfazendo o capítulo 1. Nos capítulos seguintes inicia-se o monólogo e aí ficamos a conhecer a história, de como se conheceram, de como o amor por ela tinha vida própria, de como as razões para a sua fuga mesmo que sempre ocultas tinham igualmente vida própria. Ao mesmo tempo ele vai relatando a tal rotina que leva desde que a deixou, uma vida de escrita, de bebida, de encontros num bar com várias personagens que lhe contam as suas vidas.
No fim, uma visita inesperada de um amigo, revela-lhe que pouco depois dele ter partido ela morrera num acidente. Nunca chegara a ler nenhuma das cartas que ele lhe tinha escrito, que pouco tempo tivera para sofrer com o seu desterro. Decide então deixar de lembrá-la, escolhe o silêncio e espera que a doença o leve também.
O Livro I teria o título de "A última carta".

O Livro II o monólogo regressaria, e ele explica que, afinal, tinham encontrado uma cura e que não morreria dela em breve. Com esta notícia decide regressar ao lugar onde a conhecera e onde viveram os dois. Reencontra a casa dela igual, e um vizinho guardara todas as cartas que ele lhe escrevera nos anos anteriores. O livro teria passagens de certas dessas cartas e todo o relato de como ele tentava reencontrar uma rotina no antigo mundo onde a conhecera. Encontra gente nova que lhe conta as suas histórias e no fundo, o monólogo que vai dizendo dirige-se a ela, como se a quisesse ressuscitar. De novo o amor pela beleza dela ganha forma e vida própria.
O Livro II intitular-se-ia "Cartas perdidas".

O Livro III é o relato de um escritor que tinha publicado os dois livros anteriores e que é acordado a meio da noite por um homem baixo e duma certa idade que lhe entra em casa e que lhe conta toda uma aventura: esse homem, ao ler os livros, apaixonara-se pela personagem feminina, sofreu da mesma vertigem que o protagonista masculino, que aquilo se tinha tornado doentio, uma obsessão, que precisava, a todo o custo, de conhecer aquela mulher e que por isso visitava o autor para saber se ela era real. O autor explica que se trata de ficção, mas o homem não aceita. Diz que visitou todas as mulheres que o autor conheceu mas não "a" encontrou. Ao longo dos anos pesquisou e estudou várias ciências afim de arranjar uma forma de a tornar real. Que estudou teatro, encenou os livros a ver se conseguia acalmar o seu amor contracenando com uma actriz que fizesse dela. Tentou através da genética recriar em laboratório uma mulher que fosse ela. Nada tinha resultado. A sua última tentativa tinha sido criar uma fórmula química numa bebida que uma vez ingerida o transformaria em literatura e assim conseguiria entrar nos livros e encontrá-la finalmente. Tudo isto é relatado pelo autor. Na cena final, o homem bebe e desaparece. O autor olha para a estante onde tem os livros que escreveu e do nada, aparece um outro.
O LIvro III seria "O homem que se fez literatura".

um quixote é preciso



um Quixote é preciso

essa doidice desvairada de se ser livre e prisioneiro ao mesmo tempo
de crer acima de tudo que as injustiças existem para serem combatidas
que gigantes são moinhos e que o amor comanda a loucura
que não há tempo a perder em ser-se pequeno
que as batalhas nos esperam e que a coragem vai a cavalo e que o medo é o seu alimento mais poderoso
que a paixão nos torna invencíveis
que a morte pode ser bela se for enfrentada de frente
com o coração como escudo e a poesia como lança

trilogia do início - início


trilogia do início

III

início

depois do antes

é impossível saber o inicio no seu exacto momento
ele é invisível ao presente

o começo ocorre apenas quando o tempo já sobre ele fez o seu trabalho
e é uma saudade futura cuja percepção se me escapa

o início é uma ilusão
até porque muitas vezes ele não acaba de se revelar
como se o seu nascimento fosse permanente e inacabado

por isso não sei propriamente o que se ergue no horizonte
mas navegar é inevitável e à deriva teima em ser o melhor plano

depois do antes
quando tudo se incinerou nos vales mais profundos da alma
quando a cinza assentou dos seus voos flamejantes
caminho diferente e igual

pronto a cometer os mesmos erros e as mesmas glórias
sabendo que nunca se recupera o que passa mas que se abrem as portas escancaradas do que está por passar

antes do antes, o antes e o depois do antes
são o desenho preciso de tudo o que é possível
nada se altera e ainda assim tudo muda

das verdades

Das várias linguagens, a Verdade é uma entidade indizível, inexplicável, irrevelável. Pois se no momento exacto em que se manifesta já ela se metamorfoseou.
No fundo, a Verdade viaja até se mostrar. Seja essa viagem no gesto primitivo de um abraço, mimo ou beijo, seja tatuagem de um verso ou expressão artística, no afago ou vertigem de uma emoção, esse percurso muda a Verdade. Ganham-se outras verdades e perdem-se forçosamente outras do tecido original. E assim é, e assim é bom que seja.
Tudo isto para dizer o seguinte:

ele caminhava junto ao mar, o que por si só é todo um manifesto. Chegou à conclusão de que tudo deixa um rastro, um eco ou um traço de sombra e penumbra. Rastro invisível, eco inaudível ou penumbra ténue. Mas nenhum testemunho se apaga de vez. As coisas acontecem. E mesmo depois de acontecerem, mesmo após o esquecimento e de milhões de anos de erosão, sob a pele da existência uma cicatriz delicada não deixa de se desenhar num sopro, numa subtil textura levemente rugosa.
Os venenos destilam fel eternamente e os variados antídotos que vamos criando e tomando, ajudam, sim, a manter a alma no seu voo mas a gravidade é a lei teimosa que prevalece e, a longo prazo, nada evita a derradeira queda.

Mas a beleza de tudo isto é que a queda não é queda pois não há cimo ou baixo no cosmos, as quedas vêm de todos os lados.
Dizem eles, até, que devagar, ao ritmo de incomensuráveis medidas de tempo, o universo desacelera, que a gravidade definha e se extingue, que depois do futuro restará somente um caldo morno no marasmo disto tudo, um pântano espacial.

Aos olhos dele, que caminhava junto ao mar, esse tal futuro seria a ausência dela. Ele já lá estava.

devaneio

ah esta coisa de vir aqui e não dizer nada e assim dizer tudo e esconder-me ao mesmo tempo que me dispo e de falar de solidão e de estar com o mundo inteiro

de lutar sem outro corpo para destruir que não seja o meu e na dor dessa violência enterrar a dor a sério que nunca é minha e diluir esse amor pelas coisas simples que uma vida pode dar como um beijo partilhado pela boca toda sem pudor nem vergonha e um verso perfeito no poema que quase se escreve

de entregar a alma a uma bebida e com ela desligar de tudo num vôo solene transcendente até ao âmago de uma sombra que não pára de nascer num recanto de estrada

ah esta coisa de saber e não saber e saber tudo
de falhar e acertar e continuar e insistir no mesmo erro esperando que algo de novo brote
no fundo tudo isto é a receita de enlouquecer e entender que não há outro caminho que não este
o da loucura
da entrega total a um momento e ele se perpetuar num devaneio perfeito de mim

a constante obsessão de tatuar na pele do silêncio um qualquer suspiro um qualquer sussurro uma brisa que nasceu antes de nós e nos levou por mil universos até nos despenhar aqui agora já

premonições póstumas e outras alquimias


soube depois mas já o sabia num limbo do antes
como se o tempo fosse atirado ao esquecimento momentâneo do que corre silenciosa e inexoravelmente

escrevi-o num repente que brotou já o sono me vencera
e qual náufrago a este caderno me agarrei e escrevi

premonições póstumas e outras alquimias 

sem outro sentido que não fosse o instinto definitivo de sobrevivência:

que se não me salvasse eu ao menos se salvassem os versos
e que pudesse o rosto dela estilhaçar-se noutros olhos e neles sugar a paz de alma de um coração que nunca amou e para sempre o assombrar de vertigens e rendições inúteis como o garimpeiro que nunca se satisfaz com a pepita de ouro que eventualmente encontra

dos extremos



fossem antes nevoeiros ou tons cinzentos de penumbra difusa e indefinida

fossem dúvidas e incertezas definitivas

mas não

são o breu mais denso imaginável
ou são o total encadeamento de luz

é a mais desoladora desilusão
ou o encantamento final da tua beleza

não há meio termo nem há consensos ou compromissos

no fundo, o que há é tudo e nada

o silêncio ou a poesia toda do mundo

o teu rosto ou o derradeiro esquecimento

traço imperfeito


o traço imperfeito de tão imperfeito ser
certeiro se revela
de como se emaranhando em redes e labirintos se vai desatar depois
em silhueta para nos falar em silêncio
sendo o silêncio cor e contorno e desenho

uma vida numa noite

uma vida numa noite e nem o nevoeiro da memória nem o roer do tempo encobriram ou desfiaram essas loucuras

coisas há que ecoam para sempre, pois puras e livres foram, flutuam e planam para lá disto tudo e são elas que nos fazem especiais e íntimos
e semeam a certeza de que nunca estaremos sozinhos
porque um outro a teu lado estendeu sua sombra e olhar

novos vícios


vais arranjando novos vícios para queimares o pouco que resta deste mutilado caderno
agora pões-te a escrever já na antecâmara do sono ao som de canções que já tinhas esquecido 
a ideia de esgotares o que te tormenta, de ires à volta de tudo o que nunca chegaste a cumprir, de enganares tudo aquilo que nunca chegaste a dizer, como se o que dissesses agora pudesse ocupar um silêncio passado.
não pode.
e para além de não poder, este semear de palavras deixa um novo infindável campo de vazios e nele corre uma permanente brisa cujos versos são ilegíveis.
resta-te a cisma que bem conheces, a de escrever o que te dita a voz muda da madrugada.
estranhamente, isso te consola o bastante para aqui regressares.
há uma beleza nisto, e tudo o que é belo brilha para além de nós

e todas as declarações de amor



enquanto não chega a história alongas o caderno e escreves horizontalmente, espraiando as palavras ao largo. foi preciso cair uma noite de nevoeiro e reencontrares os Simon and Garfunkel para também tu seres outono. disfarças esse adiamento do grande romance com jogos de escrita como este. soubesses tu desenhar ou esculpir. a fuga que é a tua só tem casa nestes nadas. talvez também pudesses dormir e encontrar um sono recorrente e nele tudo farias para reviver sempre o mesmo sonho, noite após noite, queimando madrugadas na teimosia de uma mesma narrativa. chegaste a amar a dada altura e esse incêndio ninguém to apaga nem ninguém to rouba, essa ferida da entrega incondicional da alma, por muito etérea que seja agora, ecoa pelo universo. ah, que se foda a solidão, no silêncio estão os ruídos todos do mundo e todas as declarações de amor.

gesto perfeito

o gesto perfeito que teima em adiar-se num perpétuo esquecimento de si mesmo
e não será num entretanto vazio que se poderá revelar

ainda assim insistes em escrever a cada momento perdido do dia como se enchendo de palavras o silêncio ele fosse menos arrebatador e as noites menos solitárias

já não tens mais promessas a quebrar pois esgotaste os estilhaços de todas as outras que fizeste e a loucura que brota de uma promessa quebrada é tão grande como a que nasce de uma que se cumpre e no teu mar não há mais lugar a novas ondas porque todo ele é somente ondas revoltas e revoltadas

o gesto perfeito aguarda quieto num canto qualquer da sua própria impossibilidade e nada o alcança
ele é halo de sombra e de cinza luminosa
é fumo
espuma fina
é um segredo que ninguém sabe
e saber é o conforto que a evolução nos nidificou nos genes
por isso nos contorcemos quando não sabemos
e nada sabemos de verdade e o desconforto é o estado permanente da nossa alma
por isso desejamos os gestos perfeitos
ansiamos esse afago divino como o colo de uma mãe ou um beijo de quem se ama ou o calor morno de uma cama

gárgulas

procuras o local exato onde semear a palavra para que faça sentido

nas esquinas altas de uma catedral, arrancada ao granito e ao calcário
cortando o céu em contraluz
seria o sítio natural da aparição

mas as gárgulas que queres escrever são silhuetas perdidas em profundos mares da alma
esgares petrificados em proas de barcos naufragados mil noites atrás
são ramos de uma árvore, que morta de pé, em vez de folhas, brota cimalhas por onde corre a água de chuvas impossíveis

gárgulas
dizes por dentro
e toda a língua estremece num calafrio perfeito

o silêncio tem o seu alfabeto e o seu dizer
nós é que o não conseguimos ouvir
pois surdos somos caminhado sobre o vibrar do tecido da poesia nas madrugadas que não acabam
como se a insónia durasse eternidades

não era

adivinhei vésperas num olhar teu
como se o tempo por lá tivesse ancorado
e aí nos perdíamos num mar de afagos

faltam tardes lentas no meu corpo
e semeia-se um esquecimento por dentro
não do que acontecia mas dos sentimentos que sustinham o que acontecia
e assim a lembrança paira vazia como fantasma de um nevoeiro sem paisagem a encobrir

amnésia à parte
é o futuro que pretendo saber de cor
se o tempo desatracará
se ainda há correntes
e se por acaso
em marés longínquas um entardecer dura para sempre
como um abraço
se a paz de espírito reencontra o seu paradoxo uma vez mais
de se perder num outro rosto
de estremecer em vertigem tal
que todas as promessas somos capazes de cumprir em nome de um sorriso
que todas as loucuras nos parecem sensatas apenas para poder mergulhar num beijo
de acreditar que a entrega
a rendição
são a única forma digna de se viver

adivinhei madrugadas num poema que quase escrevi
fazia noite a cada verso
e o caminho fazia-se letra a letra
passo a passo no infinito de mim

pareceu possível por momentos
que o sol pudesse nascer
mas era cedo
era tarde
não era

pontos de não retorno

nas cartas ou poemas de amor
escrever o que se sente ou sentir o que se escreve

dessa escolha dois caminhos se revelam e ambos levam ao despenhar da alma num poço sem fundo

dessa queda imensa o ponto de não retorno chega célere
tal como a luz de um vitral que nos chega ao olhar, que é essa luz mais a soma do vitral que a coou,
o amor é o sentimento mais a alma que o irmanou

encontrei este verso num canto

talvez possamos deixar as sombras para trás e caminhar em luz translúcidos

e poderia agora escrever o seu contrário

talvez possamos deixar a luz para trás e caminhar em penumbra ensombrados

nas vagas da escrita muitos são os náufragos e muitos são os estilhaços de sol no espelho das suas águas
e infinitos silêncios cobrem imensidões sem praias e sem terra à vista

talvez possamos deixar luz e sombra para trás e caminhar sem nunca termos existido

dessa forma

cartas

poemas

de amor

seriam o ponto de não retorno
a cicatriz tatuada e cravada para sempre
como aquele pequeno corte que temos no céu da boca e que não sara nunca pois não saram as feridas assim
quais umbigos

e divago pois há muito navegam-me as palavras sem rota nem rumo pelos dedos
como os ventos que se enlaçam primeiro por entre ramos altos de árvores caducas e depois se emaranham em folhas que se soltam em suaves e longas e pesarosas quedas

cedo
por fim
à desordem natural das coisas

e deixo de escrever

cartas, cadernos e fotografias

E a vasculhar velhas caixas reencontrei coisas velhas. Com pó e tempo e abandono. Fotografias, cadernos e cartas. Cartas que não cheguei a escrever, cadernos com versos envergonhados e fotografias com silhuetas aladas de gente que já não é o que é.

Das cartas o que não foi dito eram sobretudo coisas do amor, da ideia pura e dura de uma rendição total para com um outro ser, do estremecimento que é vermos um rosto da mais profunda beleza e de saber no corpo que um abraço não chega para carregar o peso de um carinho desses, que as palavras não sustêm tamanha vertigem e que somente, quem sabe, um derradeiro mergulho no olhar de quem se ama acalmasse o arrebatamento que nos rebenta na alma. Estas coisas são assim e não de outra forma, são cruas e inocentes e da verdade mais singela, como um dia de chuva após meses de sol ou como o último comboio da noite a partir da estação onde já ninguém espera ou, até, como um gato a esgueirar-se na esquina mais longínqua da rua mais deserta de sempre. Estas coisas são, portanto, mesmo assim.

Dos cadernos, os tais versos envergonhados, despem-se ainda mais e revelam a ingenuidade que os fez nascer, são somente carcaça da centelha que os desenhou, pois já toda a chama se consumiu na língua que os não chegou a dizer. Ainda assim, foram o que foram e, de alguma forma, cravaram um eco no tecido do mundo e, porventura, tocaram um ou outro coração no seu tempo de gloriosa verve.

Das fotografias, pouco há a dizer sobre o que ainda possa viver dentro dos contornos dos espectros revelados. Mas sem duvida, que todos estes perfis e sombras e sorrisos e esgares e cenários, se petrificaram em água luminosa. Nessa aparente contradição reluz o testemunho de um passado finito mas ainda a reverberar pelo presente até se esfumar aos nossos olhos, como assombrações. Disto tudo fica um sabor a penumbra e a outono, não o sei dizer de outra maneira.

frente e verso

A frente do verso e o verso de frente como um muro.

Inevitável.

De sua derme, escamas secam e caem como pele de serpente envelhecida
e por trás das palavras o verso do verso, o outro lado do que é dito, sem silêncio nem verbo.

a voz que dita por dentro

um retiro sobre cinzas
qual exílio de mim próprio

a fuga do chão já pisado para um outro caminho

dos sedimentos acumulados na gruta da alma, existem poeiras de uma cumplicidade e sombras de gestos desenhados por um carinho que se cumpriu

talvez sol e sal possam cobrir tudo isso e dos meus olhos outra foma de ver nasça

talvez lutando contra o adiamento dos versos consiga encontrar-me definitivamente

certo é que o silêncio habita cada palavra que não escrevo
e das que escrevo o ruído é levado pelo mar
pois sou filho dessa voz que dita por dentro

código genético póstumo

às portas do deserto, perante mais um infinito que me calhou em sorte, duas sílabas inundaram-me a alma

brotaram com a força das inevitabilidades e ressoaram por dentro
ecoando num aperto que já conheço do passado mas que é sempre novo

a paisagem arenosa e o sol a cair no longe do horizonte, o silêncio profundo

tudo isso incompleto

fazias falta

não nós, mas tu
a ideia de ti e do teu pronome vazio a resvalar-me pelos olhos e pelos dedos como os incontáveis grãos desta praia sem mar

depois o sol pôs-se e foi como se mil anos passassem desde essa fugaz solidão da partilha

será tudo isto normal e inocente

das duas sílabas fica a tatuagem invisível
como cicatriz por baixo da pele e da língua
qual código genético póstumo 

falhanços

A tua escrita (para além de quase inexistente) é incapaz de descrever. Dirão os modernos que é minimalista. Mas sabes bem que é somente pobre. Poderá ter algum mérito no rasgo intuitivo que brota de um rasgo ocasional, mas, no fundo, é deserta.
Deve-se isso à tua falta de disciplina, de entrega e de coragem.
Descrever alguma coisa dá trabalho.
Preferes o conforto da inspiração fortuita. E, mesmo essa, surge cada vez mais espaçada.
Talvez te agarres à crença de que a poesia escolhe quem quer, e a que te calhou em sorte e em palavra é essa coisa indizível na verdade. Escreves os teus pequenos falhanços.

sorrisos adiados e outras considerações

os sorrisos adiados
desperdícios de rugas que teriam razão de ser
assim são somente ondas sem praia onde resvalar

talvez possamos deixar as nossas sombras para trás e caminhar em luz
translúcidos
puramente brilho
sem rastro nem pegada
como penas ou borboletas leves de tudo
desenhos de voos e sono
pedaços de preguiça morna numa tarde de sol
o corpo coberto de sal e suor e lágrimas não choradas

a areia como rosto infinito e espuma de vaga como língua a lamber toda a orla
sem nunca saciar a sede nem a alma
o espelho do céu quebrado sobre o mar num estremecimento sem fim de mil sóis sobre outros mil

leves pregas de penumbra e sombra

Era um velho e era em noites como esta, onde os ventos quentes subiam até à solidão, que mais falta lhe faziam certas coisas que já tivera: uma janela sobre o mar e sonhos de sobra a rondar o espírito.

Tentava lembrar-se do momento exacto do seu esquecimento mas a pele ardia por fora e por dentro e desse incêndio restava apenas cinza.

Tempos houve em que a sala espraiava-se por entre rascunhos de versos, melodias de piano e copos vazios. No quarto talvez dormisse uma mulher ou ninguém, o que na maior parte das vezes ia dar ao mesmo. Nada somos se não houver testemunhas da nossa existência (há sempre uma testemunha).

O ar treme no bafo escuro da madrugada, baloiça ao sabor dos carros que rasgam a quietude no seu passar efémero. Estremecem os tragos amargos de uma bebida demasiado forte e o velho hesita em desejar o impossível.

Para além dos carros, alguns cães ladram à vez, assustados com certeza pelo adormecimento súbito de todas as coisas. O velho senta-se numa cadeira e recorda antigas cicatrizes da alma. Os lutos, os remorsos e as promessas que não cumpriu.

De todos os arrependimentos, um volta constantemente às lágrimas dos olhos: o velho jamais tinha sido novo. Não é fácil de explicar, mas, desde sempre, lhe pesou o tempo nos gestos, e cada um dos que desenhou, deixava um rasto arcaico, como se alguém já o realizara antes. Sendo que esse alguém podia muito bem ser ele próprio. No fundo, vivia a vida como se já a vivera anteriormente.

Era um eco, uma repetição cada vez mais subtil, cada vez mais ténue, mais curta.

Um dia deixou de se ouvir.

O calor subia ainda, vinha dos desertos mais longínquos onde se formara por teimosia. O velho que já não se fazia ouvir enrugava-se até ser apenas quebras no lençol da noite, leves pregas de penumbra e sombra.

Disse-me ele falando dela

Ele escrevia para de alguma forma poder, numa poalha de luz, senti-la mais perto. Talvez, na realidade palpável das coisas, ela se lhe escapasse cada vez mais, e o vazio entre as mãos, o colo e os lábios crescesse com a expansão do universo, e num futuro milenar a distância entre eles seria tanta que o próprio esquecimento deixaria de existir, tal como o cosmos adormecido, inerte, pasmado, pantanoso.
Sem ela não amanheceria nunca, mas com ela a noite jamais teria o seu lugar.
As palavras não significam nada. A verdade dos sentimentos dura um instante, e é sabido que um instante não se agarra, é nevoeiro e penumbra e areia fina molhada de sal.
Ele não terá escrito tudo o que podia nem tudo o que devia, mas escreveu o que lhe calhou, e no fim de todas as contas, o silêncio venceu o sopro dos atabalhoados versos.
Resta a certeza de que no correr do tempo jaz a oportunidade de voltar às palavras, e mesmo sendo elas vazias e insignificantes, carregam a promessa de todo o possível, uma ilusão utópica de que há lugar para voltar a um preâmbulo de novas mãos, colos e lábios.

Isto tudo disse-me ele falando dela. E ela, ao meu lado, ouvindo-o, não concordou, apenas aceitou. Diante deles, a mim restou-me ficar em silêncio, testemunhar a serenidade dos copos vazios sobre a mesa. Não soube o que dizer, a subtil e delicada forma com que os dois me olhavam deixou-me ainda mais mudo. Claramente, ali, entre eles, eu estava a mais, sem culpa, sem papel a desenrolar, o voyeur de ocasião, espectador inopinado de um desabafo verdadeiro ou falso ou somente apócrifo.
Deixei-os. Desconheço o que disseram depois. Quando voltei já não estavam e dos copos sobre a mesa nem o vinco sobre a toalha restava. Do que eu ouvira dele sobrava um rumor esmorecido, e dela uma réstia de silhueta imprecisa que tanto era sombra como perfume.
Adormeci mais tarde e dos sonhos que tive, um terá sido com o que ela não disse, e no discurso que proferiu eram mencionadas outras razões para o mesmo desfecho. Havia isso em comum, o desfecho: 

eu a regressar e eles já lá não estarem; sobrar uma brisa do que ela dissera e dele um perfil de penumbra; sobre a mesa o deserto imaculado que dois copos vazios não chegaram a povoar.

Não sei dizer estas coisas de outra forma.