primeiro foi a minha silhueta de penumbra
desapareceu de repente
esvaiu como um fio de água cinzenta para lá de mim
seguiu-se o meu corpo
esfumando-se como os nevoeiros devorados pelo sol no final das manhãs
o que sobrou foi uma sombra oblíqua sobre um muro de cal
sesgando a parede sem fazer caso às rugas e pregas
e um lampião também projetado num vulto geométrico de esboço
no entanto
enquanto falava
todos lhe víamos o corpo e um pedaço de sombra sobre o chão
sentiu a nossa descrença e retomou
face ao vosso ceticismo
não posso dizer muito mais
mas sumi naqueles instantes
e acreditem se quiserem
a verdade não é negociável
e ao sentar-se em silêncio
concordámos em dar-lhe o benefício da dúvida
afinal
não seria a primeira vez que algo rocambolesco era dito nos nossos encontros
e não seria a última em que um de nós
com a alma a transbordar
partilharia um sonho ou alucinação onde nos falta o chão
e nessa ausência por lá caíssemos
desvanecendo
para somente nos reencontrarmos no momento em que tudo isso vozeássemos
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