dia 80 - tricotomia

não queria nem precisava de mapas
desbravava o caminho a golpe de uma fome cuja origem desconhecia

e enquanto se lançava nesses impulsos
uma parte dele ficava para trás
parado na nascente da resolução

assim
um pedaço ia louco desvendar o desconhecido
outro imóvel enraizava uma mistura de medo e indecisão

o que ia
mergulhava na vertigem de um horizonte inalcançável e no pôr do sol sem fim
a eternidade pela frente ia ao mesmo tempo saciando a fome inicial e renovando-a em permanência
a ida era inevitável o regresso impossível e o destino uma miragem

o pedaço que ficava
prendia-se ao tempo
ancorado num momento preciso nascia e morria instantaneamente
como as partículas que viajam à velocidade da luz
que surgem e se extinguem no mesmo instante
assim
a ida era irreal o regresso redundante e o destino inútil

no fim destas contas
uma terceira parte dispersa e difusa completava a tricotomia
ela dita e escreve algures
entrança e tece esta rede labiríntica
e oferece de novo um convite a ir ou a ficar
fomenta o ciclo infindável e subtilmente poético de andar por aqui


ps - Serra de São Mamede, Portalegre, Alentejo, agosto de 2009

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