a tarde ia a meio e as portas estavam abertas para a rua
a luz tinha o sabor tímido de um fim de inverno
ou talvez fosse a memória dessas coisas que entrava pelo bar dentro
há sempre uma dúvida que paira
a incerteza entre o que é real e o que é lembrança
seria fácil saber
se a imagem se embaciasse na hora
e a névoa se dissipasse de seguida como nos espelhos
o que é certo é que o copo esperava
o líquido dourado a prometer uma breve doçura antes do fogo
o gelo a consumir-se na diluição inevitável
prolongando o tempo mas também dissolvendo-o
elevando o paradoxo da demora mas também do desaparecimento
a cada trago um adiamento e um sonho menos concreto
a indefinição a revelar-se
a ser
a valer-se e a subsistir
como as ondas
não as que chegam à praia
mas antes aquelas ondulações que cremos avistar ao longe
a embalar o horizonte e a hipnotizar barcos e seduzir marinheiros
tragando
ao ritmo do que foi sede e passou a rendição
à deriva
do que era rumo e passou a poesia
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