dia 72 - compulsivo

desde sempre que ele falava de causas perdidas
ao mesmo tempo que celebrava o estremecimento da existência

aparecia à janela a gritar

desejo viver assim
com a sede que vem sem avisar
só não quero é morrer da mesma forma
sedento sem perceber

e voltava a recolher-se enquanto a cidade ia sendo lá fora
no compasso habitual de ser urbe
com os cheiros a asfalto e embraiagens gastas
os motores a grunhir nos arranques e as buzinas a palpitarem aqui e ali

lá dentro
ele ia acumulando esperas até ser hora de voltar a debruçar-se
calcorreava o caminho puído do quarto à sala da sala à cozinha
esfregando o rosto e passando as mãos pelo cabelo na luta perdida de o tirar da frente dos olhos

ocorria um duelo permanente entre o abandono e a loucura
ora caia um ora esbracejava a outra
e ele no meio
a assistir
apostando num vencedor sem grande convicção

haveria de chegar o dia
em que à janela
ou a cidade já não lá não estaria
ou ela o engoliria de uma só vez

como jogar um cara ou coroa com a última moeda
e depois de saber o resultado
fosse ele qual fosse
quase que o consigo ouvir deste lado a perguntar ao éter

à melhor de três


ps- São Paulo, Brasil, maio 2018

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