mas os versos teimam
quebram antes da parede imaginária
e quando
por vezes se estendem para lá
é porque carregam um alento a mais que não estava nas contas de tudo isto
a poesia será indomável
mas mortal ainda assim
pois esgota-se no silêncio inevitável
quem sabe se o poeta não faria melhor em rastejar para dentro de outra pele
ou então trocar de derme como as serpentes
ou aceitar uma metamorfose como exercício de humildade
o que sobra é que tudo isto deveria ser prosa
ter um princípio meio e fim
uma construção lógica e alicerçada numa argumentação plausível
mas não
o caos reina
dançando ao ritmo de intuições e instintos
como os loucos que bailam ao luar em praias desertas
ou os que bebem em bares decrépitos até o dia chegar
ou ainda
os cavalos do oeste a galoparem pelas planícies sem fim
não sei
ninguém sabe
num momento achamos uma coisa
no outro essa coisa esfuma-se por entre um delírio acabado de nascer
e que berra como se nunca tivessem inventado um pulmão
tudo isto deveria ser uma prosa
mas não se escapa à lei da anarquia
nem ao devaneio de uma insónia
ps - Recife, Brasil, outubro de 2018
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