dia 83 - tragédias

ela despia-se
e o vestido cai até hoje

ele encontra dentro da memória
esse lugar preciso de uma ideia do amor
mas o resto parece esfumar-se nos dedos do cigarro que ela vai fumando

eles conviviam esporadicamente
trocavam algumas palavras até só haver silêncio e a vertigem dos corpos

para ela o tempo deles era um entretanto necessário
para ele era uma entrega narcísica e altruísta ao mesmo tempo

não se moviam na mesma realidade
e só quando entrançavam as línguas é que convergiam

ela não estava bem ali
ele estava em demasia
e nem por isso o equilíbrio singrava

provavelmente hoje
passadas tantas outras desventuras
ela não tem por onde se perder em lembrança
e ele não há dia que por lá não mergulhe

eu
a ver de fora
percebo ambos
nem um nem outro escapam a um destino traçado

ninguém escolhe as suas tragédias


ps - Casa da Fundação de Serralves, Alberto Carneiro, outubro de 2019

Sem comentários: