dia 69 - teoria poética

ele aceitava que os versos quebrassem antes do fôlego
que obrigassem a uma releitura até que se acertasse o supostamente pretendido pelo poeta

o que ele não entendia
era quando o próprio autor
ao ler em voz alta
recusava a quebra e ia buscar ao verso seguinte a continuação do sopro anterior

para ele
isso era ter a mania
e enquanto ouvia declamações de outros
abanava a cabeça incrédulo e ia dizendo

um verso vai até ao fim
e depois do fim fica calado até que o outro comece
sim eu sei
cada um sabe de si e essas coisas todas
mas então
que lhes caiba ouvir da minha parte um ide enganar o

isso
reticências

só que eu não acredito em pontuações
só intuições

vi-o afastar-se
desistindo de ouvir e avançando para longe
uma lua a espreitar por entre a poalha do ocaso
gaivotas lado a lado a espiar a chegada da noite
enquanto versos iam sendo lidos sem respeito pelos horizontes onde se estenderam


ps - Porto, março 2017

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