outra coisa
trovões silenciosos
ondas profundas da alma onde cardumes de peixes por inventar nadam em uníssono
como vagas de harpas em mãos de sereias sem rosto
e cuja pele é esculpida camada a camada até serem estátuas de sal negro onde no lugar dos olhos está somente
o oceano inteiro
ao dia mundial da poesia
as ondas de impacto que gerarmos com a alma, com um sorriso ou com um gesto
as sombras que consigamos deixar para trás
os vôos que alcancemos em desenho para lá de nós
a entrega sem medos ou com todos eles que façamos ressoar nas noites profundas da cumplicidade
nem que seja a nós próprios
a mais absoluta das belezas
casaco de ganga
Comprei um casaco de ganga. Só tive dois casacos de ganga. Um quando andava na escola armado em grungeiro e outro na faculdade que raramente usava. Este é o terceiro. É de ganga cinzenta, forrado a flanela azul e branca e tem na gola uma lãzita de cor de ovelha suja.
O simbolismo disto é que por vezes sabe sentir um abraço do passado esquecido. Como um regresso inesperado ao ninho.
cadernos vazios
sem ti não há manhãs
ou sem o som dos teus passos no quarto ao lado
ou sem a tua silhueta desenhada por trás do vidro embaciado do banho
por muita chuva que resvale nas janelas
sem ti não amanhece nunca.
abandono perpétuo da palavra
O teu abandono perpétuo da palavra. Cemitérios de silêncio lavrados com a tua ausência. O que deixaste por dizer jamais será dito. Essa ferida não sara mais, não sara nunca.
Sicília, notas avulsas para memória futura
antecipar o desenho das nuvens
Quando começo a escrever o céu está azul quase por todo. Algumas nuvens deslizam devagar no alto. Uns quantos arquipélagos de algodão a revolver no firmamento. Antecipar-lhes o desenho certo no momento exato do fim da prosa é tarefa complicada, pois se agora parecem barcos, basta uma sílaba mais e em pássaros se transformam. E outras sílabas mais à frente em abstrações de árvores se desenham. A metamorfose das nuvens é mistério com segredo bem guardado. Recordo Herberto Hélder e o peixe que ia mudando de cor à medida que o artista o ia pintando. No fim, pintou o peixe de uma cor que ele ainda não tinha. Talvez neste céu, estas nuvens, no fim disto tudo, descansem com o teu desenho, o teu rosto de perfil, desvanecendo em azul e em ocaso.
a beleza absolutíssima
A janela
Pelas traseiras entrava o mar, quer em luz infinita de verão quer em negrume de inverno com rajadas de chuva e vento.
dos cadernos
dos infinitos regressos
Calhou de lá passar um rio
O vento diz coisas
como quem ama
o primeiro passo será perceberes que não são tuas
as palavras
são furtivas, sedutoras, esquivas
que se insinuam, que se oferecem e desoferecem facilmente
que como quando se olha o sol menos se vê
quanto mais as agarramos mais se nos fogem
o segundo passo terá forçosamente de ser o da humildade, da rendição
mesmo se a grande a lição que as palavras te dão
são a da liberdade, da tenecidade, do inconformismo
no fundo, há que mergulhar num mundo de antonímia
de conviver com o paradoxo
como quem ama.
liberdade, igualdade, fraternidade
queres ser fraterno
constatação
curvas e regaços
Detalhes de Lanzarote III - A escada e a janela
um verso nunca é solto em vão
silêncio ou nada
folhear os livros e os cadernos
abrir as gavetas
procurar os papeis que por lá andam e verificar se as palavras ainda repousam
ligar o rádio, a televisão
certificar-me de que a música e a luz ainda ondulam
procurar-te
tocar-te
para crer que existes e que o amor tem casa
lembrar-me, recordar-me para acreditar que houve passado
sonhar, iludir-me para tecer futuro
semear tato para que o desejo encontre o teu corpo e tenha razão de ser
escrever para que o cosmos se perpetue
nem que os versos sejam silêncio ou nada







































