outra coisa


aguardam o momento certo para se elevarem também na galeria nua da tua sala, pois já na tela se elevaram quando o artista as alcançou
o silêncio profundo de uma pintura por pendurar
qual rumor do mar nas madrugadas solitárias
 
existe um lugar especial entre o momento presente e o momento futuro, um entretanto impossível de perceber, de afagar, os quadros por expor aí se encontram, num limbo incerto de cronos
a planície imensa de uma ideia ou de um sonho estende-se nos gestos adiados das nossas vidas
 
se por um lado tenho de pendurar quadros, por outro lado gostava de fazer uma outra coisa
 
e se escrevo sobre telas encostadas ao solo não é sobre telas encostadas ao solo que quero escrever, é sobre a outra coisa

trovões silenciosos

 
 
é em certas esquinas de espuma e chumbo que se formam os trovões silenciosos
ondas profundas da alma onde cardumes de peixes por inventar nadam em uníssono
como vagas de harpas em mãos de sereias sem rosto
ah como sonho em ser um desses lobos do mar que o sol queima
e cuja pele é esculpida camada a camada até serem estátuas de sal negro onde no lugar dos olhos está somente
o oceano inteiro
relâmpagos cegos que desenham a noite num breu tão denso que nos chega apenas o rumor do possível 

ao dia mundial da poesia


o tempo que não se deixa enganar, que nos leva inevitavelmente à derradeira igualdade que é o silêncio

por isso aquilo que nos distingue não será a quietude a que estamos destinados
mas antes o assombro que possamos criar nos entretantos
as ondas de impacto que gerarmos com a alma, com um sorriso ou com um gesto
as sombras que consigamos deixar para trás
os vôos que alcancemos em desenho para lá de nós
a entrega sem medos ou com todos eles que façamos ressoar nas noites profundas da cumplicidade
a poesia, esse silêncio que se diz que interrompe a pequenez que nos eleva e nos coloca no berço da pertença

pertencer a alguma coisa
nem que seja a nós próprios

a mais absoluta das belezas

Na verdade, nunca sabemos o que queremos e ainda menos sabemos do que precisamos. As necessidades do espírito movem-se por caminhos dúbios, revelam-se de formas inesperadas. Mas se de incertezas é a vida feita, ela acaba também por ser feita de algumas certezas. Tudo isto para dizer que precisava de cá voltar. Ao Douro. E é certo, igualmente, que terei sempre de cá voltar, de cá perder o olhar para poder, no fim, reencontrá-lo renovado e inocente uma vez mais. A alma tem curiosas formas de se revelar, de se render, e nada como um banho de xisto e de silêncio, de esforço de seiva e de sangue para renascer no mesmo deslumbramento de sempre.
Não há nada igual a isto, não há mesmo. Este rio, estes montes, estas vinhas. Porque o Douro é o impossível, o inimaginável. E de todas as vezes é sempre uma primeira vez, um permanente reencontro com o início e com a inocência. Porque não há habituação à mais absoluta das belezas como disse o Torga.




casaco de ganga

Comprei um casaco de ganga. Só tive dois casacos de ganga. Um quando andava na escola armado em grungeiro e outro na faculdade que raramente usava. Este é o terceiro. É de ganga cinzenta, forrado a flanela azul e branca e tem na gola uma lãzita de cor de ovelha suja.
O simbolismo disto é que por vezes sabe sentir um abraço do passado esquecido. Como um regresso inesperado ao ninho.

cadernos vazios

Vieste, sem falar, para junto da janela. O céu ao longe desenhado por algumas nuvens, deixava, ainda assim, entrever o sol.
Vários rastos de avião cruzavam no alto. Na estrada passeavam-se algumas pessoas no início de tarde.
Abriste a janela. Uma brisa entrou e enroscou-se nas cortinas.
Olhava-te, sentado enquanto limpava o pó de um caderno cheio de palavras.
Um dia leio-te tudo isso. Palavra a palavra, verso a verso. Talvez uma emoção nasça dessa leitura. Algo inútil com certeza, mas real. E então, ao olhares pela janela verás que esses rastos de vôos no alto, desenham uma teia infinita de destinos adiados, de silêncios, de futilidades.
Para que saibas: tenho cadernos igualmente vazios, adiados.




sem ti não há manhãs

uma manhã que seja sem o eco do teu corpo sobre a cama
ou sem o som dos teus passos no quarto ao lado
ou sem a tua silhueta desenhada por trás do vidro embaciado do banho
é uma manhã vazia.
por muito sol que inunde as paredes
por muita chuva que resvale nas janelas
sem ti não há manhãs.
sem ti não amanhece nunca.

abandono perpétuo da palavra



O teu abandono perpétuo da palavra. Cemitérios de silêncio lavrados com a tua ausência. O que deixaste por dizer jamais será dito. Essa ferida não sara mais, não sara nunca.
O compromisso com o verbo estilhaçado por infinitas páginas em branco. Dos ecos da tua sombra nem penumbra ficou. Nem cinza nem pó. Nem a intenção, essa etérea nuvem que por vezes resiste a tudo, nem ela, esfumou-se no breu derradeiro do esquecimento.
Que resquício de contentamento pode sobrar? Apenas uma promessa quebrada. E é sabido, uma promessa quebrada é o atalho para a loucura. Queda, talvez, uma escapatória: é igualmente sabido, que uma promessa cumprida é, também, muitas vezes, o desvio imediato para a demência.
Se ficar perdido era a sina irremediável, o caminho para a cumprir seria, porventura, irrelevante.

Sicília, notas avulsas para memória futura

Curiosamente, começou em Espanha a aventura siciliana. Voámos do Porto para Madrid onde fizemos uma escala de várias horas. Nessa paragem encontrámo-nos com amigos do tempo de Erasmus da Lira. Todos italianos e com conselhos ótimos para os dias que se avizinhavam. A lista reproduzida abaixo foi uma cábula preciosa sobre gastronomia. A amizade criada em Erasmus valeria uma reflexão própria, é uma amizade feita do mesmo tecido que a família, não se explica, fica para sempre, como uma tatuagem na alma, e a cada reencontro os contornos desse desenho adensam-se.


Dia um na ilha. Fomos ver o mar. Há uma luz própria do Mediterrâneo e dos seus mares. Um azul primitivo, telúrico passe a aparente contradição. Esse manto azulado serviu de berço a muitas civilizações e parece que a cada vaga leve nos relembra tudo isso 2- Palermo, tarde, contato com Mediterrâneo, cor azul. Noite palermo, peixe fresco, grelhado na hora. Palermo enorme.
 
 

 
Primeiro contato com Palermo. Na minha ignorância não pensei que fosse um cidade tão grande. Perto de 700000 habitantes, Palermo não é uma cidade fácil. Pesada, densa, um pouco suja. Mas perto do centro histórico não faltam coisas bonitas e sente-se, como só em alguns sítios, o caratér do local e das suas gentes, um orgulho palpável. Encontrámos um mercado/restaurante numa praceta que nos tirou a barriga de misérias. Escolhia-se o peixe e marisco fresquíssimos na hora e tudo saltava para a grelha o sertã para cozinhar.
 

Dia 2, novo encontro com uma amiga do tempo de Erasmus da Lira, em Patti. Recebidos pelos pais da nossa amiga Federica, comemos pasta alla norma e de sobremesa cannoli, depois de uma bela manhã de praia. Cannoli foi uma descoberta revolucionária. Eu que não sou especialmente fã de sobremesas, este biscoito recheado a ricota entra no meu top 3 de sempre.


De tarde visitámos Cefalu. Baía saída dos livros sobre piratas. Ruelas com cheiros de outro tempos e o sol a desvanecer devagar.


Dia 3, visita à reserva do Parque Natural do Zingaro. Um Gerês mas com mar. Escarpas derramadas de um lado, montanha do outro. Em cada pequena praia que encontrávamos descíamos para um mergulho de água quente. Os olhos e a alma voam para lá de nós.



Dia 4. Uma das parias mais bonitas que já vi. A Scala dos Turcos. Azul e branca, como outro grande amor meu. Azul do mar e branco de uma falésia enorme de calcário. O contraste é tal que o sol queima por todo, do firmamento e da parede alva cheia de rugas calcárias. Dia de praia inesquecível.



De tarde fomos a Agrigento. Visitámos o parque arqueológico. Imaginar templos gregos e romanos com mais de 2000 anos e ainda de pé. Oliveiras com meio milénio de idade. O silêncio nessas pedras amareladas, o céu sempre azul até cair o sol. Sombras deitadas para lá da imaginação. Isto não são ruinas, o que eventualmente não está lá, lá está em espirito. As gentes de então descobriram o segredo das árvores e semearam-no nos templos, mesmo mortos, morrem de pé.



Dia 5. Saímos de Palermo em direção a Catania. Palermo, como disse, não é uma cidade fácil mas sempre surpreendia ao virar da esquina.


Catania, por seu lado, seduziu logo e foi o nosso poiso até ao fim das férias. Um mercado de peixe diário, efervescente todas as manhãs. E brindou-nos com uma chuvada tropical que não esqueceremos.


Dia 6. Visitámos Castelmola, pequena aldeia no alto duma falésia. Um nevoeiro pesado cobriu tudo durante a manhã. Com o passar da horas foi-se dissipando e quando descemos a Taormina só ao longe havia nuvens. Essas cobriam o monstro silencioso chamado Etna.



Dia 7. Fomos a Siracusa. Entrámos em Ortigia que é uma ilha (península agora) que estica a cidade pelo mar. Uma preciosidade. Um mercado típico do cruzamento de diferentes civilizações e culturas, praças e monumentos inundados de luz. Uns dos cenários que mais me deu prazer em beber uma cerveja.
De seguida o parque arqueológico e o seu teatro grego ainda perfeitamente desenhado contra a erosão dos anos.
À noite regresso a Catania onde jantámos na Tratoria Giglio Rosso onde comi uma das melhores refeições da minha vida, um spaghetti vongole perfeito. Explicar isto não é fácil. Enquanto que um cannoli, a tal sobremesa divina, sei que poderei repetir, aquele prato, naquele local, com aquele sabor, naquele sítio, naquele momento, é irrepetível (não há foto).



Dia 8. Fomos de manhã ver a Gola dell'Alcantara. Regressamos a Catania para almoçar, atacar um último cannoli e ver ao fundo da avenida Etnea uma montanha de nuvens a cobrir o vulcão ao qual subiríamos mais tarde.




 


Etna. O que é um vulcão? A voz do planeta que ocupamos. Das entranhas por vezes vem fogo e esse fogo amontoa-se em pedra negra e cresce até aos céus. Por sorte, subi a este.



Dia 9. Regresso, nova escala em Madrid com tempo ainda de visitar o museu Thyssen. Entre muitas obras ficou este Bacon. A mesma perplexidade com se olha o que da terra sai, um vulcão, este é um vulcão humano, enigmático, tortuoso, infinitamente belo.

 
Pedras Rubras, à saída do avião.

antecipar o desenho das nuvens

Quando começo a escrever o céu está azul quase por todo. Algumas nuvens deslizam devagar no alto. Uns quantos arquipélagos de algodão a revolver no firmamento. Antecipar-lhes o desenho certo no momento exato do fim da prosa é tarefa complicada, pois se agora parecem barcos, basta uma sílaba mais e em pássaros se transformam. E outras sílabas mais à frente em abstrações de árvores se desenham. A metamorfose das nuvens é mistério com segredo bem guardado. Recordo Herberto Hélder e o peixe que ia mudando de cor à medida que o artista o ia pintando. No fim, pintou o peixe de uma cor que ele ainda não tinha. Talvez neste céu, estas nuvens, no fim disto tudo, descansem com o teu desenho, o teu rosto de perfil, desvanecendo em azul e em ocaso.

a beleza absolutíssima

O portão em ferro com quatro letras: DAAF. Dona Antónia Adelaide Ferreira. Uma mulher ímpar na história do Douro e do país, como esta Quinta que dela foi e que eu já por 4 vezes tive a sorte de visitar e, desta vez o privilégio enorme de lá dormir.
 

A casa é como a paisagem, uma lenda, algo de inverosímil. Feita do próprio tecido do tempo.


A paisagem já a descreveram muitos. O melhor que sei é dizer que o mesmo deslumbramento se sente aqui como perante o mar, só que as ondas são de vinha e xisto em todo o redor e que o silêncio é tal que se faz ouvir.
 
 


Torga disse que o Douro era "a beleza absoluta", a Quinta do Vesúvio é a beleza absolutíssima.

A janela

 

Pelas traseiras entrava o mar, quer em luz infinita de verão quer em negrume de inverno com rajadas de chuva e vento.
Pela frente era um outro silêncio a roçar a porta. E no quarto de cima, o dos avós, a quietude era tal que apenas o tempo o parecia habitar. Havia uma sombra do lado de fora da janela. Uma árvore. Essa árvore foi sendo várias árvores ao longo dos anos, substituída à medida que as raízes se tornavam demasiado profundas. Dizem que minha avó chorava cada vez que a removiam para lá meter uma mais nova, mais franzina. Na rua havia uma garagem cuja moldura foi baliza de futebol durante gerações. E a árvore subia até à janela onde a avó espreitava quem passava.
Foi há séculos. Foi ontem. Será para sempre.

dos cadernos


O teu deserto é feito de um outro nada, de uma outra solidão. O teu silêncio é sopro de outra cor e tecido. A imensidão dos nossos corpos cobriria o mundo inteiro como um manto infinito de penumbra. O tempo inerte, incolor.

dos infinitos regressos

Esgotaste as desculpas e todos os adiamentos possíveis mas existem inevitabilidades agarradas às palavras. Escreves, portanto. E isto de escrever é mais forte que tu, é, como dizem os franceses, "malgré toi". E sendo assim estás isento de responsabilidades, de moral e de ética. Mesmo até, isento de estética. Literalmente. Ainda bem.

Calhou de lá passar um rio

Lá voltei, pela quarta vez em formação pela Symington, a sorte de ver de tão perto uma das maiores esculturas do mundo. Torga disse que era a "beleza absoluta" e bastou-me ir lá a primeira vez para o confirmar, mas para além da beleza há todo uma outra coisa que eleva o Douro a um milagre humano sem paralelo. Porque paisagens belas, deslumbrantes, existem em cada canto do nosso mundinho, mas o Douro é diferente. Está lá a paisagem sim, trabalho dos milénios da geologia, mas há uma outra coisa por em cima, algo mais recente no calendário cósmico, há todo um trabalho do Homem a desenhar esse vale, a plantar teimosamente vinha e a fazer dela a custo de sangue e suor, vinho. E pensar-se no caminho percorrido nos últimos séculos, no avanço tecnológico aliado há mais nobre das tradições de viticultura e vinificação, na produção pelas mãos mais humildes das gentes durienses de vinhos bebidos em palácios reais e em restaurantes de luxo por esse mundo fora, perante tudo isso me deslumbro de cada vez que lá vou. Disse-o alguém: o Douro são pessoas, trabalho, xisto, vinha e vinho, calhou de lá passar um rio com o mesmo nome.
 

O vento diz coisas

O vento diz coisas. Talvez não saibamos bem quais mas diz. E o mar, estes dias, veio confirmá-lo. Cada onda estendida para lá da praia até à estrada, será uma forma do vento falar. E as árvores nuas, tombadas ou de pé, uma outra forma. E o rodopiar das folhas soltas nos jardins uma mais. As coisas que dirá vêm de longe, de um outro tempo, e mesmo que repetidas são sempre novas. Há nas tempestades uma rebeldia que nos assusta, um estremecimento do mundo que abala também por dentro e ficamos sem saber se foi em nós que se iniciou ou se apenas servimos de eco, de caixa de ressonância.
O vento diz coisas, basta ser-se surdo para ouvir.

como quem ama

o primeiro passo será perceberes que não são tuas
as palavras
são furtivas, sedutoras, esquivas
que se insinuam, que se oferecem e desoferecem facilmente
que como quando se olha o sol menos se vê
quanto mais as agarramos mais se nos fogem

o segundo passo terá forçosamente de ser o da humildade, da rendição
mesmo se a grande a lição que as palavras te dão
são a da liberdade, da tenecidade, do inconformismo

no fundo, há que mergulhar num mundo de antonímia
de conviver com o paradoxo

como quem ama.

liberdade, igualdade, fraternidade

da alma para Paris

queres ser fraterno
poder comungar com o próximo ou com alguém mais distante mas que te calhou no caminho
sabê-lo a ele e dares-te a provar também,
 
queres ser igual
para poderes ser diferente, aceitar, compreender, crescer
colher sapiência e paz no lento caminhar para longe da ignorância,
 
queres ser livre
estar em silêncio ou em uníssono na sinfonia caótica que todos somos
 
queres essa trindade
pensavas que lá por ta terem dado, tua seria sempre
 
mas ser livre, igual e fraterno exige de ti um outro triunvirato:
a defesa intransigente da tolerância, educação e dignidade.

constatação

Não duvides de que chegou o momento. E os momentos, é sabido, escapam-se dentro deles mesmos, desmoronam-se como as estrelas já cansadas de eternidade. As palavras, aquelas que te couberam dizer, anseiam por esse pulsar efémero de se revelarem, condensam em si um arrepio vindo de não se sabe bem de onde.

curvas e regaços

Tinhas estas palavras guardadas há muito tempo. Guardadas naqueles sacos de plástico onde sempre puseste as palavras que escrevias em papel, no tempo em que escrevias em papel, agora escreves por dentro, no escuro de ti, no silêncio mais profundo, no silêncio do silêncio. Tinhas, como disse, estas palavras guardadas há muito:
 
a sala adormecia nos finais de tarde, deixando pequenos rumores escondidos nos cantos. apenas a tua sombra vibrava pelas paredes, desenhando curvas e regaços.


Detalhes de Lanzarote III - A escada e a janela

César Manrique foi a verdadeira descoberta que a Lira e eu fizemos em Lanzarote. Como nunca tínhamos ouvido falar dele? Um homem cuja obra é enorme e o que ele fez naquela ilha de vulcões deveria ser um exemplo a seguir em todo o lado se quisermos deixar um mundo decente para o futuro.
Na fundação com o seu nome, criou uma casa pousada, casada, imbuída, numa torrente de lava petrificada. Fê-lo com tamanha mestria, que a casa se casa com esse rio parado, tanto à superfície com as paredes brancas, como nas bolsas subterrâneas onde aproveitou para fazer habitável o que era inóspito.
Dois detalhes de talento se me tatuaram.

Primeiro uma escada em espiral, cravada na e com a terra negra, descendo para as entranhas dessa terra, como um caracol perfeito, leve e inteligente.


E depois a janela. A imagem não faz a justiça devida a este pormenor. A queda de lava velha, vinda do topo do vulcão pela encosta abaixo, entra pela sala. A janela existe mas não existe ao mesmo tempo. Sentimo-nos no espaço. A coisa está tão bem feita que a casa parece estar lá há mais tempo que a queda de lava. O golpe de génio é esse, Manrique chegou séculos depois da erupção, mas criou algo que simula um regresso ao passado. A arte é também isso: viajar no tempo, para lá dele.

um verso nunca é solto em vão

Não resta muito mais senão escrever. Nunca restou aliás. Não se trata de abandonar o mundo, a escrita é, até, a única forma de cá ficar. O exercício não é abstrato, trata-se, de facto, de comungar. O esquecimento será a maior força de todas, no futuro, quando o universo estagnar no morno silêncio da eternidade, será o eco das palavras escritas o solitário ténue rumor resistente. Sim, mesmo esse cessará eventualmente, mas havemos de crer que um verso nunca é solto em vão.

silêncio ou nada

ir à janela ou abrir a porta para ter a certeza que o mundo ainda lá está
folhear os livros e os cadernos
abrir as gavetas
procurar os papeis que por lá andam e verificar se as palavras ainda repousam
ligar o rádio, a televisão
certificar-me de que a música e a luz ainda ondulam
procurar-te
tocar-te
para crer que existes e que o amor tem casa
lembrar-me, recordar-me para acreditar que houve passado
sonhar, iludir-me para tecer futuro
semear tato para que o desejo encontre o teu corpo e tenha razão de ser
escrever para que o cosmos se perpetue
nem que os versos sejam silêncio ou nada

Detalhes de Lanzarote II - As vinhas

Havendo constantemente um vento Norte, quase Norte, meio Norte, na Ilha, não espanta que as vinhas se escondam dele. A insistência desse sopro milenar, fez com que se erguessem pequenos muretes de pedras negras para proteger a vinha. A vinha em Lanzarote é rasteira, um arbusto. Desliza sobre o chão de cinza e estica-se rente ao solo. Filas e filas de muros pretos com folhas verdes coladas. Dizem que dali saem vinhos de uma acidez notável, como se bebessem a lava lá dos fundos e a resfriassem à superfície com essa brisa permanente e seu solo queimado.


Detalhes de Lanzarote I - Saramago

Disse ele sobre a ilha: Lanzarote não é a minha terra, mas é terra minha. Da visita à casa dele e de Pilar, relembro aqui umas pequenas coisas. É sabido que as pequenas coisas são as mais saborosas.

A carpete de pedra no hall de entrada da casa. Basáltica escura contrastando com o laranja da tijoleira. Pelos vistos, Saramago gostava muito dessa carpete.Achei o mesmo.


A vénia. Quando Saramago recebeu o Nobel, fez o que a tradição pedia, uma vénia ao Rei da Suécia que lhe entregou o prémio, e fez uma outra depois, mais significativa talvez, dirigida a Pilar, essa segunda vénia alimentava-a a mais antiga das tradições, o amor. Seguiram-se outras para os seus pares desse ano e para o público em geral, mas aquela foi especial.


a sombra do mar - ao Al Berto

ao Al Berto
 
Quando chegar o Inverno e o mar for de chumbo, tão negro será que finalmente lhe veremos a sombra. Sim, a sombra do mar derramada finalmente sobre o céu, o areal e todo a cidade. Revelada aos nossos olhos e poderás então fotografá-la como sempre o desejaste.

Lanzarote

Suponho que uma ilha, seja ela qual for, nos obriga forçosamente a duas coisas: primeiramente olhar para fora dela, para o mar, horizonte, escarpas e areal que a rodeiam e todo esse chamamento de fuga, de esvoaçar, de embarcar.


E depois, também, olhar para dentro dela, para o ventre, o âmago, a selva se a tiver ou os vulcões se lhos calhar, como é este o caso, para essa terra esventrada, cicatrizada, essa terra do avesso. A alma vinda ao de cima. Eis Lanzarote.


Sim, o solo lunar ou marciano, queimado, petrificado, chagado, mas também o azul profundo do mar ou o azul alado do céu e o seu correr sereno e teimoso de novelos de nuvem branca. Sim, um correr de pequenas outras ilhas de algodão lá no alto, porque em Lanzarote há sempre um vento quase Norte, meio Norte. Não muito forte é certo, mas tão pouco manso.


A ilha é a lição da maior violência de todas: o tempo. O tempo, esse, é a maior das violências, a maior calamidade, a maior hecatombe e esta ilha o comprova com todos os seus vulcões adormecidos dizem. Vulcões, alguns com poucos séculos e uma terra que brotou há milhões de anos do fundo do oceano com os seus mares de lava agora estagnada, feita pedra, mas que ainda revolve como as ondas sob o efeito da luz e das sombras.



Sabia duas coisas sobre Lanzarote: isso dos vulcões e Saramago. Descobri uma terceira: César Manrique. Sim, a ilha é feita das cinzas do fogo profundo do planeta, e sim, foi a casa do escritor português nos seus últimos anos de vida. Mas é também a ilha desse artista visionário. É graças a ele que em Lanzarote existe apenas um edifício com mais de 4 andares, todo o restante urbanismo vive em perfeitamente harmonia com a paisagem. Como arquitecto todas as intervenções que fez respeitam o ambiente onde se inserem e criam uma experiência que, para mim, foi uma das mais belas descobertas que fiz.Um pequeno exemplo: na Fundação com o seu nome, uma casa montada sobre e sob uma corrente de lava negra, há uma janela em vidro cuja vista vai precisamente até ao alto do vulcão de onde essa corrente desce. Seguindo o olhar lá do cimo, acompanhando essa cicatriz negra de lava até mesmo junto da janela e dá-se o milagre, o génio: parte dessa onda entra pelo vidro e avança já dentro da sala uns metros. A fotografia não faz o jus devido à obra, mas garanto que é de uma sensibilidade extrema esse momento mágico.


E o Mirador del Rio, e as Cueva de los Verdes, os Jameos de Agua e as suas piscinas azuis e brancas, o Jardim dos Cactus, o monumento ao Camponês e uma série de detalhes que em mim ficam para sempre.


 
 
 
 










Teguise e o seu mercado, a Graciosa, pequena ilha ao largo de Lanzarote que visitei e onde dei o primeiro mergulho nesses mares, numa praia cujo o cenário mais um vulcão erguia ao longe, e suas ruas de terra e suas portas coloridas, a praia do Papagaio onde comi lapas numa escarpa ladeada de duas praias, e a Lira comigo e eu no seu alcance e uma Lua ainda de tarde com o céu mais que azul. As vinhas rentes ao chão, escondendo-se do vento.









  
























  



E Saramago claro, o seu reduto, os detalhes de uma casa que foi um ninho, a carpete de pedra na entrada, a oliveira que trouxe de Portugal e uma cadeira no jardim com vista para o mar e o silêncio.










E, pois claro, o mais impressionante, a Montanha de Fogo no Parque de Timanfaya, um jardim de vulcões, de deserto, de terras negras, vermelhas e douradas, de um lugar onde a terra sangrou fogo e tudo incendiou à volta. Um lugar que como disse Saramago, nunca ninguém visitará como deseja, isto é, , mas cuja a tatuagem me ficará na alma até ao fim, porque é disso de que se trata, como o tal de Hilário que habitou essas montanhas de lume durante 50 anos apenas com um camelo como companhia, é disso mesmo de que se trata, de rendição perante a vertigem de uma paisagem e tudo o que ela nos traz ao de cima.

Como um vulcão.