Para breve palavras de Garrett. Regressei às leituras. Tenho também o Al Berto em atraso. Muitos sublinhados, tiradas que ficam, gestos literários. Tudo para me acalentar corpo e espírito neste frio que vai roendo por aí.
.
tudo e nada
entende que tudo é tudo
que tudo é nada e em nada se firma
no silêncio da tua existência
porque isto tudo é tudo
e não há mais nada
não que seja pouco
pois tudo é já muito
no nada que tudo é
e no tudo que o nada vai sendo
.
que tudo é nada e em nada se firma
no silêncio da tua existência
porque isto tudo é tudo
e não há mais nada
não que seja pouco
pois tudo é já muito
no nada que tudo é
e no tudo que o nada vai sendo
.
Não chega
Escrevo-te poesia mas não te chega pois não? Sei que não. Tu própria disseste tudo: claro que a poesia não chega, é por isso que ela se escreve, não é?
Pois é. Por não chegar.
.
Pois é. Por não chegar.
.
O tempo em que era mais fácil
Houve um tempo em que era mais fácil. Escrevia em folhas soltas ou em cadernos que dormem em gavetas nem sei bem onde. Digamos que a alma se me brotava em melancolias de hora marcada. Normalmente era ao fim da tarde ou antes de adormecer de madrugada. Raramente acontecia de manhã. Hoje já nem escrevo, tirando estes esquissos que se me nascem de lés a lés.
Ouço o vento em rajadas lá fora, vindo do mar, assustado, a fugir. Estou abrigado aqui, mas desabrigado por dentro. Houve um tempo em que era mais fácil. Foi-se.
.
O tédio
Duas pessoas que me são queridas (muito), falaram-me do tédio que lhes provoca a rotina. Julgo que ninguém está imune a esse torpor. O que fazer dele? O problema da rotina é que sentimo-nos tentados a arranjar "culpados" para ela. No fundo, apercebermo-nos de que a "culpa" é, em último caso, nossa, e que o arrependimento custa a carregar. A rotina não é um bicho. O bicho somos nós.
Também eu a sinto. E ao bicho que vou sendo, atiro-lhe pedaços de sonho e imaginação, pois não sou dado a "depressões". Tudo para enganar o torpor, mesmo se ele vai crescendo silenciosamente por dentro.
Mas pergunto-me às vezes como reagiria (eu e os outros) se experimentasse o mesmo tédio, se o aceitasse plenamente e o gritasse ao mundo. Existimos nós, existe a imagem que temos de nós e existe a imagem que pensamos que os outros têm de nós.
.
Coveiro
Explicar-vos o meu atraso para comigo, ou pelo menos, para com a ideia de mim próprio. As leituras e as escritas. Personagens e histórias deixadas a meio.
No último Auster que li, uma das histórias dentro da história relatava precisamente isso: uma personagem encurralada para sempre numa cave, pois a porta fechara-se e era impossível abri-la por dentro. O personagem que escrevia essa história, ficara sem ideia de como salvar o protagonista que colocara nessa cave sem saída. Ali ficou.
No fundo, no fundo, sou um coveiro. Coveiro das minhas histórias. Não um assassino, pois elas já nascem mortas de dentro de mim, limito-me a enterrá-las no olvido, no tal atraso.
.
No último Auster que li, uma das histórias dentro da história relatava precisamente isso: uma personagem encurralada para sempre numa cave, pois a porta fechara-se e era impossível abri-la por dentro. O personagem que escrevia essa história, ficara sem ideia de como salvar o protagonista que colocara nessa cave sem saída. Ali ficou.
No fundo, no fundo, sou um coveiro. Coveiro das minhas histórias. Não um assassino, pois elas já nascem mortas de dentro de mim, limito-me a enterrá-las no olvido, no tal atraso.
.
Da culpa
Os inocentes. Quem são eles? Somos obviamente culpados de tudo. De tudo e MENOS alguma coisa. Isto de andar por aqui carrega, desde logo, um quê de culpa. Falo de culpa, não de responsabilidade que é uma outra coisa. A culpa, vem na Bíblia, brotou logo a seguir ao "início". Mas "logo a seguir" implica um "antes", que apesar de ser virgem em culpa, tinha no seu corpo a iminência da culpa. Ter-me-ei embrulhado? Paciência, é que a palavra inocente é muito próxima de cianeto. Inocente cianeto. Cianeto inocente. Não deveriam existir dúvidas.
.
.
Anedotas
Em tempos inventei uma anedota e adaptei humoristicamente um provérbio. Há que vangolariarmo-nos dos grandes feitos e conquistas da humanidade.
Anedota:
Um homem caminha pela rua com ar sério. No fim da rua existe uma ponte. Ao atravessar a ponte o homem começa-se a rir. Ri durante toda a travessia da ponte. Terminada a travessia da ponte, regressa ao seu ar sério. Ao chegar a outra ponte, o homem volta a rir às gargalhadas enquanto a atravessa, regressando de novo ao ar sério após a travessia.
Sabem porque é que isso acontece?
Porque era um homem que achava piada atravessar pontes.
Provérbio adaptado:
Mais vale uma na mão, do que duas no soutiã.
.
Os clássicos
Regressar aos clássicos. A expressão não pode passar incólume, ela é plena e una, deverá transmitir aquilo a que os crentes chamam de fé e que os hereges como eu apelidam de insondável: arrepios na alma. Os crentes dirão: vês? é Deus! Eu respondo, pois é, chama-se Elvis (Eça de Queirós, Pelé, Miguel Ângelo, Pessoa, Sophie Marceau, o Gilreu, ela a dormir, etc, etc)..
Léxico
Na gráfica, palavras para se dizerem por dentro com todo o aparelho fonador em funcionamento:
montar, passar à chapa, pose, imposição, deitado, fotolito, offset, imprimir, caderno, tira-retira, frente e verso, gramagem, tinta, papel, medida, molha, revelar, rolamento, tinteiro, cilindro, resma, palete, conta-fios, ponto, ganhar ponto, ponto estocástico, dobrar, alcear, coser, colar e reforçar lombo, guardas, vincar, cortante, estampar, película, guilhotina, trilateral, lombada, mono, cartão, contracolado, cartolina, couché, cola de bancada, cabeceado, transfil, telagarça, fitilho, revestimento, bolear, armar capa, meter à capa, friso, retráctil, a apara, prensa, cola gelatina animal, livro, revista, encadernação, barbante, fio de norte...
.
As palavras
Restarão as palavras. Mesmo depois de não haver olhos que as leiam, restarão as palavras. O mesmo seria dizer o silêncio. Palavras não lidas são silêncio, carregam a mesma ensurcedora quietude do que é definitivo. Os gestos, esses, já não padecem do mesmo infinito, desvanecem, nem que para isso demorem anos a apagarem-se dentro de nós. Mas uma palavra não. Uma palavra é tatuada e não sai mais.
.
Para memória futura 9
Era aos domingos. Íamos buscá-las à Ribeira, num pequeno andar bem alto debruçado sobre o rio. A Titi e a Teté. Lembro-me do chão de madeira a ranger e das pequenas louças dentro de armários envidraçados. Lembro-me de uma televisão a preto e branco com uns botões digitais assinalados a vermelho. A Titi, madrinha de minha avó (cujo nome nunca soube, era Titi e pronto) e a Teté (Celeste), irma de minha avó. Íamos buscá-las ao domingo para almoçar. Tinha eu 4 anos, não mais, e ainda assim lembro-me. A minha Tia Celeste tinha um dedo permanentemente dobrado para dentro, algo que sempre me fascinou. Tinha os mesmos olhos que a minha avó Beatriz, os mesmos que a minha mãe tem hoje e que a minha irmã vai ter com certeza. Terá sido das tias que mais pijamas e lenços me ofereceu no Natal.
Celeste no céu, desde ontem. E dentro de mim, é mais um rosto numa constelação que se vai adensando e enevoando com o tempo. Por vezes, isto é tudo demasiado triste. Por isso vale tanto a pena.
.
Ar, água, fogo e terra
Um a um. Afinal não fecho portas. Deixo-a entre-aberta com um artigo de cada vez. Está sempre ali o arquivo para quem nada tem que fazer e gostar de vasculhar.
O Outono veio e invernou-se. Lembra-me a Bélgica, embora por cá o vento seja mais temperamental. Nas canções de Brel, mesmo quando ele fala do vento, a melancolia é algo de natural, por cá não existe tanto, é mais monotonia. Mas entendam-me, quando uso os substantivos (melancolia, monotonia) não penso em adjectivá-los (bons ou maus), as palavras não têm sentimento, somos nós que os metemos lá dentro. Por isso, se digo melancolia ou monotonia, leiam essas palavras sem juízos de valor nem procurem adjectivá-las. São o que são no vazio do seu próprio dizer. E se por acaso no fim restar um certo sabor cabisbaixo neste texto de outono invernal, desenganem-se, tudo é ar, água, fogo e terra, já diziam os alquimistas.


Fecho
Fecho a porta. Este blogue não resistirá às medidas de austeridade... da minha economia criativa. Obrigado a todos, os credores que me perdoem.
.
Na teia
Vais caminhando com o teu silêncio que se adensa. A rotina é uma teia subtil de hábitos vazios. Vais-te enredando, enredando, enredando. E quando, devido a súbito espasmo de introspecção, te dás conta do emaranhado, verificas que a teia é bem mais resistente do que julgavas. Resta-te o múrmurio dos sonhos que vais queimando dentro de ti, mas é pouco. Dizes para ti, "acorda", mas estás naquele limbo em que sabes que só acordas se te lançares em queda livre.
.
Lendo
Depois de terminar Promessa do VF e antes de remegulhar em O Medo do Al Berto, li um pequeno livro que me ofereceram nos anos em Março. No café da minha juventude perdida de
Patrick Mondiano. Esta versão portuguesa perderá um pouco daquele toque parisiense que dever-se-á sentir no original, mas não deixa de ser uma leitura valorosa.
Vários personagens vagueam pela Paris dos anos 60, onde os cafés serviam de refúgio e de fuga. E todos torneam em volta de Loki, uma rapariga com um passado misterioso que parece encantar todos aqueles que a cruzam.
Patrick Mondiano. Esta versão portuguesa perderá um pouco daquele toque parisiense que dever-se-á sentir no original, mas não deixa de ser uma leitura valorosa.
Vários personagens vagueam pela Paris dos anos 60, onde os cafés serviam de refúgio e de fuga. E todos torneam em volta de Loki, uma rapariga com um passado misterioso que parece encantar todos aqueles que a cruzam.
Estar tudo escrito, preto no branco, significava que tudo chegara ao fim, como nas campas em que estão gravados nomes e datas.
Pelo menos, não corríamos o risco de deparar com fantasmas. Os próprios fantasmas tinham morrido.
ps- ao lado do Al Berto, sobre o qual já muito tenho sublinhado e a seu tempo virá cá parar, decidi revisitar as Viagens na Minha Terra (custou-me um euro e meio no Jumbo)..
Pelo menos, não corríamos o risco de deparar com fantasmas. Os próprios fantasmas tinham morrido.
ps- ao lado do Al Berto, sobre o qual já muito tenho sublinhado e a seu tempo virá cá parar, decidi revisitar as Viagens na Minha Terra (custou-me um euro e meio no Jumbo)..
Cohen
A letra, a música, e claro, aquela voz e aquela presença. Uma monumental e extraordinária música. Para ouvir de alma despida.
Encadear palavras
Encadeava palavras em blocos de notas. Não escrevia, que isso é uma outra coisa. Mas lá encadeava palavras. Umas atrás das outras. Fazia-o como quem joga numa lotaria, com a secreta esperança de que por sorte matemática, do encadeamento saísse poesia. Fê-lo durante anos a fio. Não teve sorte, o melhor que fez foi acertar um ponto final.
.
Inception
Fui ver o Inception. Interesou-me, claro, o desvendar do mistério, de saber no fim (e no início e a meio) se os personagens estavam "na" realidade ou "no" onírico. Mas o que mexeu comigo foi uma outra coisa. O sonho como refúgio. Refúgio real, passe o paradoxo. A simulação de um mundo, a fuga do que existe. Os loucos que falam sozinhos estão lá, no limbo. E nós, os "sanos", não nos enganemos, vamos a caminho. Quantos de nós simulam em frente ao espelho uma outra vida? Ou antes de adormecer, ou no autocarro, ou? As simples projecções do que poderemos vir a ser, ou do que gostaríamos de vir a ser.
.
Avó
O atraso
O atraso começa seriamente a ser um tema recorrente. Vai ganhando forma, vida própria. Torna-se, por isso, inalcansável. No entanto, ao nomeá-lo, ao ficcioná-lo, posso, ao menos, expurgá-lo de mim. A responsabilidade deixa de ser minha. O atraso que me siga a mim, e não o contrário. Mas é mais fácil dizê-lo do que escrevê-lo.
.
Regresso
Regresso. E os regressos sabem a nada, que é como quem diz: a tudo. O sal e o sol ainda na pele dissolvem-se aos poucos na rotina. Mas partir também é rotineiro, tal como regressar. Afinal, reconheci-me lá no sul, onde tive tempo, que é igual a não ter tempo algum e a desligar-me um pouco de tudo, a adiar-me. O sorriso dela comigo foi a única âncora à realidade (isso e um livro de Mia Couto comprado em Lagos, o Al Berto só saiu da mala para enfeitar a mesinha de cabeceira), mas a realidade com ela é feita de sonho. Vou sonhando, portanto.
.
.
Rumo ao Sul
Rumo ao Sul. Reencontro com a praia e o mar. Já lá vão dois anos. No ano passado fui para outro tipo de mar, aquele que queima em luz e que ondeia em estalos o interior do Alentejo, outras marés portanto. Agora regresso ao sal e à areia, ao horizonte no seu devido lugar, rasteiro, inalcansável na dobra do firmamento. Sei bem que vou reconhecer o cheiro, o tacto e a luz, mas desconheço se me reconhecerei a mim. É sempre assim quando revisitamos lugares ou pousios do passado, reconhecemos tudo, mas muitas vezes desconhecemo-nos a nós..
Ela

Há algum tempo que não escrevo sobre ela aqui. Mas não escrever é também uma forma de poesia e, portanto, de amar. Amo lá fora, muitas vezes distraído na rotina, apático na certeza subtil de a ter comigo. Mas, ainda assim, há momentos de iluminação. Certas pausas numa conversa onde mergulho nos olhos enormes que ela me atira, no sorriso aberto, no brilho do rosto. Como no início. Sim, é isso. Amá-la é estar sempre no início, no princípio. E é sabido que já foi dito algo do género: no início era o verbo e o verbo era amar.
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)











