dia 100

a inércia do silêncio semeia inúmeros livros sem palavras
e as histórias que não contam descrevem mundos iguais ao nosso
onde quando alguém grita que há perigo
berrando num bramido que faz estremecer os quadros das paredes
logo há os que fogem levando consigo tudo o que podem
como os há que tudo largam e se lançam irredutíveis na direcção do apelo

dia 99

passo os olhos nuns poemas que não são meus
folheio e despenho o olhar pelos vários versos
e ficam ecos
para sempre

dia 98

há um verso do Cohen que diz

you'd been to the station to meet every train

e com uma janela e um café à frente
imagino essa demência
como se os trilhos suassem de tanta espera

dia 97

o fóssil desenhava uma forma indescritível
como se o tempo tivesse coalhado e apenas uma ideia sedimentara

a memória não tinha cor
e o cheiro a sal cobria lua

a tribo inteira rezava à volta da estranha peça
e os cânticos entoavam pelas paredes do universo

dia 96

poderia atirar orquídeas pela janela
escrever sobre o Pacífico e de como as ondas de lá são menos salgadas que as de cá
poderia saltear legumes e deixá-los suar até ser o momento certo para terminar com um nó de manteiga
poderia abrir um tinto e decantá-lo ao som de um concerto de cravo enquanto pela sala o cheiro das velas e do incenso pairam no ar

mas tudo isso seria petulante
e não tenho orquídeas nem mergulhei no Pacífico
tenho os legumes mas a manteiga acabou
há vinho e velas e incenso mas o som do cravo, todos sabem, não combina com um tinto

dia 95

ao certo ninguém sabe
quanto tempo dedicou à arte esquecida de errar
mas a mestria com que o fazia
levava a crer que fora muito

era preciso na ideia de imprecisão e exacto no conceito do defeito
esquecia os amanhãs lendo coisas antigas
vestia largas camisas às cores

diziam que era louco
que quando amanhecia era o primeiro a sair à rua tropeçando no próprio sono
e que mal o primeiro raio de sol se propagava sobre a estrada
invariavelmente tentava colhê-lo com as mãos para logo descobrir que se lhe escapava em sombra

dia 94 - um quadro imaginado

um quadro imaginado

uma cadeira partida onde o velho se senta olhando nuvens indecifráveis
a sabedoria que o inunda cresce a cada trago de bagaço
e assim vai cosendo sesta atrás de sesta até o retalho fazer-se noite e ser hora de dormir

o absurdo de uma nódoa na camisa tão velha quanto ele
o copo já vazio tombado sobre o chão do alpendre onde uma última gota escorre para o chão
é uma tarde quente e de dentro da casa chega a voz rouca de um rádio

dia 93

houve céu e voos de gaivotas
e houve o teu próprio adiamento
até chegares aqui

agora deparas-te com a incerteza do verso por escrever

dia 92

plagiou a própria vida
fazendo de conta que era ele mesmo
falando no mesmo tom de voz e dormindo na cama de sempre
repetiu as rotinas até serem ecos
sonhou os mesmos sonhos até serem mitos

dia 90

uma série de tridentes luminosos erguem-se sobre a praia
como se poseidon os tivesse semeado ao longo da costa
por trás
na escuridão da noite
revelam-se os abismos do mar e do céu
separados apenas por pequenas luzes de barcos ao largo
equilibrando-se no gume do horizonte em tremores reluzentes
ondulando na solidão da madrugada
é a hora da quietude e a bordo provavelmente alguém escreve

talvez escreva o que vê em terra
a tal linha de tridentes e de prédios
e que as luzes das janelas reluzem na noite escura
e que numa sala de uma dessas janelas
provavelmente alguém escreve

dia 89

lembro as tardes em que a luz vinha lá do fundo
inundando o corredor com cheiro a mar
a madeira do chão rangia aos soluços e o relógio ecoava o compasso do tempo até cair a noite

dia 88

à Cilinha

a última das velhinhas
a vizinha de décadas
de sempre
de tão pegada que era família

e faz jus ao nome
pertence agora à luz
ao brilho da nossa memória
sempre


dia 87

fizeram falta as lágrimas que morderam os olhos nas noites sem sono nem lua
e onde grandes naufrágios aconteciam nos pântanos da solidão

pois no deserto árido da indiferença
onde não sopra brisa alguma
ardem as derradeiras cinzas do espírito

dia 86

as regras:

seguir o mapa invisível dos silêncios
e fazer do desassossego bússola
ter a paciência exacta de um verso
e a postura de um lince sobre a neve

escapar na solidão como quem foge de noite
acender fogueiras
declamar poemas de outros

quase beijar os teus lábios
e nesse quase ficar sempre um pouco mais tempo
até que a distância colapse

dia 85

Muito calmamente explicou-me que onde não há nada, há, ainda assim, alguma coisa.
Perguntou-me se eu sabia o que havia no espaço entre as estrelas e o nosso olhar mergulhado no céu estrelado. Eu disse que não havia nada, o espaço é feito de nada e de vazio.
Então, perguntou, como nos chega a luz? E respondeu: nesse nada, onde nada há, há, ainda assim, um caminho para que a luz o percorra.
Foi a última coisa que disse nesse dia.

dia 84

a curvatura do teu corpo
provavelmente explicada por equações matemáticas e observações cosmológicas
desenha uma sombra que se derrama pelo quarto
e esse esboço prolonga-se num verso até que a minha mão o percorra na sua sede

dia 83

Não escrevia há meses. A rotina tinha vencido várias batalhas, empurrando-a para velhos vícios de longas sestas, chás e cigarros à janela. Uma ou duas vezes por semana saía para se encontrar com alguns homens e satisfazer os desejos de um corpo que parecia fugir-lhe a cada madrugada de solidão.
Ia lendo e as palavras dos outros soavam distantes na vastidão da alma e no turbilhão do espírito. Voltava ao chá e, por vezes, a um copo de vinho ou dois. Voltava às sestas que duravam uma hora ou toda uma tarde de chuva. Fumava à janela enquanto o gato do vizinho caçava moscas junto ao vidro que separava as varandas.
Quando voltou a escrever optou por um grande verso sem quebra, um verso incompreensível onde as palavras diziam tudo e o seu contrário. Rasgou o que escreveu.
Deixou de dormir sestas, deixou de tomar chá e deixou de fumar. Agora, os encontros com outros homens eram diários. Não escreveu mais nada e o gato não voltou a aparecer à varanda.

dia 82

um mosaico e caleidoscópio de amizade
eis o que fica de hoje

dia 81

confesso que quase me esqueci
que no teu dia ia dormir sem me lembrar

mas aqui estou
no atabalhoamento do costume
sem saber bem como te dizer
como te chamar

porque tu não tens nome
nem tempo

poesia

dia 80

recordo um tempo em que os detalhes lançavam grandes sombras
e os heróis vagueavam perto do cais e das tabernas

os barcos nos estaleiros grudados ao próprio tempo
e canções antigas ressoavam nas madrugadas sem fim

tudo isso regressa por vezes sem aviso
como uma pontada num canto da alma
talvez ainda seja o eco da nossa origem oceânica

dia 79

o mar inteiro derramado no horizonte
as ondas tingidas de noite estrelada vibrando nas línguas de areia
o corpo nu das pedras nas dunas e no silêncio

o vento sopra
e diz coisas
sempre as disse

dia 78

procurou como um desalmado
procurou por entre as horas que teimavam em passar
procurou nos armários esquecidos
nas estantes mais altas
nos cantos mais escuros
e de todas as vezes as mãos vazias

deixou de procurar
e as mãos encheram-se de tudo
de palavras
de água
de sangue
de sol

dia 77

fixar vertigens
disse Rimbaud

esculpir o apelo do silêncio como uma ilusão de perspectiva
fazendo com que cada palavra agarre o olhar e o sorva num turbilhão

cair sem fim
cair para sempre
cair e cair até que a gravidade se esgote

dia 76

ela não quer que eu escreva sobre o inevitável
então eu não vou escrever sobre ela

dia 75

antes de nasceres do que te lembras?
e depois de morreres?

sobra o que fica nesse intervalo

dia 74

véspera
como se amanhã fosse possível
ontem apenas esquecimento
e hoje uma ilusão

véspera é o momento exato do que perdura
carrega a promessa do porvir ao mesmo tempo que se estagna qual barco com mil âncoras

dia 73

Dizem as leis da física que é impossível saber-se, ao mesmo tempo, o local exacto de um objecto e a velocidade a que se move. Que quanto mais se sabe sobre um dos parâmetros menos se sabe do outro.
O mesmo acontece na poesia.
Quanto mais escrevo e procuro onde está, menos reconheço quem a diz. Quanto mais ouço quem a dita, menos sei de onde vem e onde está.

dia 71

de noite
um vasto mar sem barcos sem lua sem linha de horizonte
um manto negro que cobre a vista da janela como um poço sem fundo

uma vertigem cósmica trepida nesse abismo e apela o olhar num mergulho sem fim
os segredos do cosmos clamam por entre metáforas

revela-se o infinito nesse penhasco qual goela de besta mitológica
em suma
nestas coisas
nestas aparições nestes devaneios e nestes pasmos
somos presa
somos cobaia
somos inevitavelmente devorados

dia 70

lembro-me de um certo vibrar nos olhos e numa pressa desmedida já no fim da vida
como se tivesse esperado 90 e poucos anos para recuperar os atrasos da existência

após Babel ter ruído foi seu nome que mais se espalhou pelo mundo
uns dizem que raízes germânicas lhe conferem o significado de "nobre" e "fiel"
outros no árabe a descrevem como "princesa" e "senhora"
os gregos diziam que era "amável"

Elvira se chamava