Marrocos

Viagem a Marrocos - Agosto 2012 (clicar nas fotos para visualizar)

Dia 1

De Albufeira a Algeciras (Espanha) de autocarro. Troca de veículo em Sevilha onde esperámos umas horas antes de nascer o dia, sob um calor intenso e alguns morcegos a voar nos tectos da estação rodoviária.
Chegada ao porto de Algeciras às 10h30 da manhã. Comprámos os bilhetes de ferry para Ceuta. Viagem rápida e tranquila envolvidos num nevoeiro digno de D. Sebastião.
 

Desembarque em Ceuta, continente africano pela primeira vez, eu que apenas o tinha visto há uns anos de Gibraltar. Ceuta, território espanhol, nosso em tempos idos, onde ainda prevalecem as nossas quinas, agora sob a coroa castelhana. O nevoeiro persistia mas sentia-se já um ar diferente. Pequena viagem de autocarro urbano até à fronteira com território marroquino. Aqui começou verdadeiramente a viagem. O nevoeiro dissipa-se aos poucos.



A fronteira é tudo o que se imagina: uma estrada ladeada pelo mar de um lado e por montanha do outro, não há por onde escapar, é seguir as pessoas, marroquinos a esmagadora maioria, com sacos de compras feitas em Ceuta. Filas de carros carregados, tudo a querer entrar em Marrocos. A lira e eu, de mochilas às costas chamamos rapidamente à atenção. Um homem vem ter connosco e encaminha-nos para a fila "correcta", mostrando-se prestável e dando indicações a um outro para nos entregar uns papéis para preencher. Percebemos depressa que é um "favor" que se paga, uns trocos para o homem que faz da vida entregar "mais cedo" os papéis que o polícia da fronteira dar-nos-ia de qualquer forma. Faz parte. Passa-se a fronteira a pé e chega-se a um descampado, sempre ladeado pelo mar e pela montanha.


Nesse descampado uma centena de táxis. Só homens e crianças. À nossa chegada logo dois ou três taxistas vêm ter connosco "taxi, taxi?". Sim, digo eu, para Tétuão. Pede 20 euros. Digo que não, que é muito (o guia routard, sempre no meu bolso, tinha-me dito que por 3 ou 4 euros fazia-se a viagem de 40 km). O guia insiste, que por 20 euros eu e a Lira iríamos num táxi para Tetuão, senão era preciso partilhar com outras pessoas, seriam 5 euros para os dois. Concordámos, partilharíamos o táxi. No entretanto, outro taxista meteu-se ao barulho e os dois pegaram-se verbalmente em árabe, zangados um com o outro. Já as nossas mochilas estavam na mala do táxi (mercedes dos anos 80, esmurrado, à imagem de todos os outros). A coisa resolveu-se, eles iam resmungando, nós íamos esperando por mais passageiros. Um homem, uma mulher de véu e uma grávida, sem véu, todos marroquinos. Lá fomos. A condução marroquina é toda uma teoria da física: onde há espaço é meter lá o carro, essa é a única regra. A meio da viagem a grávida diz qualquer coisa ao condutor. Pára-se no meio da estrada, ela sai e vira o barco. O resto da viagem passa-se sem peripécias.

Tetuão. Chegámos à cidade dois dias depois do fim do Ramadão e, pelos vistos, é feriado, dia de festa. O comércio fechado, muita gente na rua, descendo e subindo as ruas, em todas as direcções. Procuramos hotel, e nessa procura temos o primeiro contacto com Abdul, personagem que mais tarde terá um papel importante, e que procura ser nosso guia, recusamos. Deixamos as mochilas no hotel, quarto simples mas limpo. Seguindo o Routard vamos dar uma volta. Novo encontro com Abdul que novamente propões os seus serviços, nova recusa nossa, queremos experimentar a coisa sozinhos para já. Vamos até à praça do Palácio Real. Muita polícia e militares de vários ramos nas ruas. Cafés cheios... de homens, bebendo chá e café com leite. Está calor. Tentamos a primeira incursão na Medina. Percebemos que com o comércio fechado o labirinto é sujo e complicado, mas não há dúvidas, estamos noutro mundo, noutra forma de viver. Os olhares que nos lançam não são nem bons nem maus, são olhares. A maior parte dirigidos à Lira claro, mas ninguém a aborda enquanto eu estou perto (não por ser eu suponho, mas por ser homem vá). De 10 em 10 metros um fulano vem ter comigo a perguntar se quero guia, se quero "chocolate" ou se quero comprar alguma coisa. Vou recusando.


Fim de tarde regressamos ao hotel para descansar um pouco antes de sair para jantar. Apercebemo-nos de que o Routard não chega para nos guiar, que Tetuão é uma cidade complicada, que está suja e que hoje é um dia diferente que dificulta ainda mais o seu descobrimento.
Quando saímos para jantar novo encontro com Abdul, apercebe-se que procuramos onde comer, de novo presta-se ao serviço. Desta vez aceitamos, por que não? A escolha foi acertada. Levou-nos pela medina, algum comércio abriu de noite, começa a cidade a ganhar charme. Seguindo Abdul pelo labirinto do mercado reparamos que ninguém nos aborda nem nos chateia, ele vai contando umas histórias, mostrando uns edifícios, algumas portas de mesquitas pequenas e algumas escolas corânicas. Leva-nos a um restaurante "perfeito" em plena Medina, por trás do Palácio Real, cujo Rei virá em breve visitar diz-nos Abdul, daí tanta polícia e militares. Deixa-nos no restaurante, apresenta-nos ao dono e combina connosco daí a uma hora e meia para nos levar de volta ao hotel. Jantámos bem, tajines e espetadas e sopas e saladas marroquinas, tudo por quantias irrisórias. A viagem ganhava cor e nós respirávamos um pouco de alívio após umas primeiras horas complicadas. O chá de menta revela-se uma descoberta açucaradamente saborosa.



Findo o jantar Abdul lá apareceu como falado. Levou-nos ao hotel e combinámos com ele às 9h30 do dia seguinte para eles nos fazer uma visita pela cidade. Abdul ganhara dois amigos e até então zero dirhams (a moeda marroquina), disse-lhe que dependendo de amanhã lhe daria alguma coisa.
Fomos dormir, a primeira noite em África, calor e barulho na rua até tarde.

Dia 2

Nestes dois primeiros dias a hora supostamente mudava. O engraçado é que mudava apenas para alguns. Combináramos às 9h30 com Abdul mas ele chegou apenas às 10h30. Enquanto esperávamos por ele perguntei a duas pessoas as horas, tive duas respostas diferentes. A terceira pessoa a quem perguntei foi a Abdul, que me disse serem 9h30 quando eu pensava serem já 10h30. Ele disse-me que a terceira pessoa a quem se perguntava as horas é que tinha razão! Na verdade, é costume no fim do Ramadão haver um indefinição durante um ou dois dias quanto à hora certa. Confirmava-se que estávamos num outro planeta.
Com Abdul visitámos a Medina de Tetuão sem aborrecimentos. Pelo labirinto do comércio mostrou-nos mesquitas (apenas o exterior claro) e escolas corânicas, visitámos o curtume e vendedores de tapetes onde aprendemos lições sobre o regateio.







De Tetuão partimos para Chefchaouen. Viagem de 40 km a 7 num táxi por pouco mais de 5 euros.


Chefchaouen é uma cidadezinha azul e branca incrustada na montanha. Uma delícia para se visitar. Está também no coração da região onde mais haxixe se produz e logicamente muito artista tenta ipingir uns gramas aqui e ali, mas mais interessante é proporem visitas às "fábricas" do produto. Optámos por não aceitar esse tipo de convites, ficará para uma próxima vez, mas no ouvido ficou uma imagem bonita que alguns dos vendedores atiravam quando tentavam vender o seu produto: "Hey, tenho aqui algo para bronzeares a cabeça e a mente".
Pelas ruas azuladas o comércio trouxe-nos boas surpresas, uma livraria muito engraçada cujo dono também se chamava Abdul. À noite jantámos com um gato e uma vez mas o chá de menta acompanhou-nos a cada pausa.





Dia 3

De Chefchaouen partimos em autocarro para Fès, 5 horas de viagem. Pelo meio uma paragem numa estação de serviço no meio do nada com um sistema de alimentação engraçado. Uma banca de carne crua (um talho portanto), onde por alguns euros se compra carne picada com especiarias, e uns metros ao lado, outra banca com um grelhador, onde por mais alguns dirhams um homem grelha o que lhe trazemos e ainda nos oferece pão para acompanhar. Tudo saboroso para além de peculiar.


Até Fès percorremos regiões agrestes do interior marroquino, onde o termómetro andou pelos 40 e poucos graus.




Fès, cidade imperial, a parte histórica encafuada dentro de muralhas com cheiro a tempos idos. Do alto das ruínas dos túmulos da dinastia Merídina a vista sobre a cidade é impressionante. O labirinto da Medina é imenso e mais tarde perdemo-nos lá no meio durante umas horitas.




 











Na Medina visitámos, para além de nos termos perdido, o Palácio Mnebhi ainda antes de jantar. O resto ficaria para o dia seguinte.








Dia 4

Ainda em Fès, lançámo-nos de novo pela gigante Medina. Descobrimos os curtumes famosos, visão incrível com cheiro ainda mais incrível. As peles são colocadas em tanques com cal para perderem o pêlo, depois são despejadas noutros tanques onde misturam pigmentos naturais com excrementos para curtir e tingir as peles. É um trabalho manual e duríssimo, a vista é impressionante. Visitámos igualmente uma perfumaria natural, onde mulheres berberes produzem óleos, pomadas e perfumes a partir de frutos secos.









 De tarde partimos para Meknés, cidade que não estava prevista no nosso plano original mas que oda a gente nos aconselhou. Deixámos Fès para trás com a sensação de que valerá a pena nova visita.

Para Meknés fomos de combóio, pouco menos de 100 Km de distância, viagem tranquila. Almoço em Meknés





A conselho do dono do hotel onde ficámos, contratámos um guia oficial por 15 euros para visitar a cidade. Nourdine, guia profissional foi exactamente isso. Em 3 horas mostrou-nos o essencial da cidade com explicações interessantes. Meknés foi uma surpresa muito agradável e dos lugares que mais me agradou. Cidade também imperial cujas muralhas separam a cidade moderna, imperial e medieval.


Começámos por visitar o Mausoléu do Mulá Ismaïl, preciosidade arquitectónica, aberto a não-muçulmanos, com salão de reza.Os três elementos fundamentais: azulejo, gesso e madeira, tudo trabalhado à mão dos inícios do séc. XVIII.





Atravessando da parte Imperial da cidade para a Medina, passamos junto à Prisão dos Cristãos, projectada por um prisioneiro português a troco da sua liberdade. A porta de Bâb-Mannsour é das mais belas do mundo árabe.






Na Medina visitámos a Escola Corânica de Bou-Inania, criada no séc. XIV, de novo o azulejo, o gesso a madeira trabalhados artesanalmente.




Até ao jantar passeámos pela Medina da cidade, de novo o labirinto de comércios, de gente (com bom gosto uma delas) e de um fervilhar típico da região.



Meknés será um destino a revisitar numa próxima viagem.

Dia  5

Saída de Meknés de combóio até Casablanca onde a ideia era apenas almoçar e visitar a Mesquita Hassan II e partir directamente mais para Sul para Mazagão/El-Jadida. Infelizmente, depois de um bom almoço as visitas à Mesquita já tinham acabado, partimos para El-Jadida de combóio.

Em Mazagão fomos visitar directamente a Cisterna Portuguesa, edifício construído por nós no séc. XVI. Toda a cidade tem memórias da nossa passagem, do nome das ruas à muralha que ainda hoje fortifica o cento histórico. Tivemos dificuldades em encontrar um hotel, até que chegámos a um Palácio Andaluz, edifício lindíssimo com um quarto barato e disponível. Pousámos as nossas coisas e fomos jantar.





El-Jadida mostrou-nos o seu charme (e bom gosto uma vez mais), as muralhas portuguesas, o mercado, as especiarias, as tatuagens de hena e o pulsar de uma vila colada ao mar, conquistada em tempos e recuperada mais tarde, no fundo um cruzamento de civilizações. Regressámos ao nosso "palácio" andaluz perto da meia-noite. No quarto, já quase preparados para dormir a visita de algumas baratas (não há imagens) obrigou-nos a mudar de planos. Foi a primeira (e única) verdadeiramente má experiência por terras magrebinas. Lá negociei com o dono a devolução do dinheiro e saímos de novo, mochila às costas, à procura de hotel. Não encontrámos. Essa noite dormimos na estação de comboios.






Dia 6

De El-Jadida regressámos a Casablanca para, então sim, visitar a Mesquita Hassan II e deixar a experiência das baratas para trás. A Mesquita é a terceira maior do mundo. Artesãos de todo o Reino Marroquino foram contratados para trabalhar na construção da Mesquita. Toda a decoração é trabalho artesanal, e as imagens não dão a ideia de escala real. o Minarete ergue-se 200 metros acima do nível do mar. Como cereja no topo do bolo, conhecemos um casal espanhol na visita que nos deu boleia e dormida em Rabat. Marrocos revelava-se de vez uma moeda de duas faces, em que a da felicidade levava a melhor.





Em Rabat, depois dos nossos novos amigos ficarem em casa a descansar, visitámos o Mausoléu de Mohamed V e a torre Hassan. Fomos ver igualmente a Kasbah das Oudaïa, uma espécie de aldeia fortificada dentro da capital, com vista para o mar e com as casas pintadas de azul e branco, bebemos chá como sempre e mergulhámos na Medina. Jantámos com a Marijo e com o Roberto e dormimos numa cama limpa e perfeita longe de baratas e outros bichos.










Dia 7

Despedimo-nos dos nossos novos amigos e visitámos a Necrópole de Chellah entes de partirmos para Assilah, onde almoçámos peixe grelhado antes de ir para Tanger, última cidade da nossa aventura.







Em Tanger ficámos num hotel ao lado de uma mesquita dentro da Medina. Fizemos as últimas compras, demos uma volta pelas ruas da Medina, jantámos e fomos dormir... para ser acordados às 5 da manhã pelo chamamento da oração, que durou um bom quarto de hora!

Dia 8

Último dia. Derradeiras voltas por Tanger onde comprámos os bilhetes de ferry para regressar a Algeciras em Espanha, avistámos Gibraltar através da bruma persistente do estreito e fomos dizendo adeus a Marrocos. De Tanger ao porto são 40km e aí nova aventura: os bilhetes que compráramos eram afinal apenas para pessoas com carros, tivemos de nos meter num táxi ir à outra ponta do porto para que nos trocassem os bilhetes, enfim mais uma correria para chegar a tempo do ferry certo, porque em Algeciras tínhamos autocarro com hora marcada.






 De Algeciras até casa nada digno de relato aconteceu. África ficara para trás no mapa mas perto da alma. Marrocos foi uma viagem a um outro mundo, onde cada pequeno revés era compensado com descobertas e surpresas que ficam para sempre connosco. O sol tem um outro sabor, os olhares um outro peso e os cheiros outras dimensões. É curioso o contraste entre a aparência e a realidade do povo marroquino. A primeira abordagem é um pouco agressiva mas depois o trato é sempre baseado no respeito e o discurso feito olhos nos olhos. Os gestos são deliciosos, ao agradecer, ao despedirem-se, ao cumprimentarem-se. A paisagem variada, do mar à montanha, aos planaltos agrestes. As cidades caóticas mas ao mesmo tempo lógicas, baseadas na troca comercial, no frenesim. E depois os minaretes a despontarem em cada esquina, os chamamentos 5 vezes ao dia, os tapetes, as peles, as cores, os lenços, os gatos e as crianças.
Terra de onde veio uma civilização que nos deu muito durante séculos e terra por onde depois andámos nós nas nossas descobertas. A Marrocos voltaremos um dia, mais para Sul com certeza, ver o deserto e outras paisagens. Por agora ficámos pelo Norte e centro.

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Terminei a leitura de "Quanto mais depressa ando, mais pequena sou". Livrinho a roçar a delícia. Mathea, viúva solitária, dona de um humor cuja a ingenuidade se mistura com sarcasmo, fechada sobre si mesma, suas memórias e suas manias. Recomendo. Ficam aqui algumas passagens.

Porque a natureza só está interessada na preservação e na continuação da espécie; pouco se importa com os indivíduos, e a natureza quer mesmo que os indivíduos vivam o menos possível, de modo que as gerações possam mudar rapidamente e a evolução decorra mais depressa, o que é uma vantagem na luta pela sobrevivência.

A última coisa que está na Bíblia é: "Digo a qualquer um que ouça as palavras de profecia deste livro: se alguém lhe acrescentar alguma coisa, Deus fará cair sobre si as pragas descritas neste livro." Assim, foi surpreendente virar a página e descobrir que tem um suplemento.

CONSIGO SER DIVERTIDA. Lembro-me de uma piada que inventei uma vez: "Já ouviste falar do homem que era tão magro que só tinha uma risca no pijama?", perguntei ao Epsilon. "Sim", disse o Epsilon. "É impossível", disse eu, "acabei de o inventar". "Não, tenho a certeza de que já ouvi falar dele, Mathea", disse o Epsilon. "Sim, tens certamente razão", disse eu. "Agora que penso nisso, acho que houve um artigo inteiro acerca dele no Nós acima dos 60." Típico: quando se inventa uma boa piada, acaba-se por descobrir que já se a ouviu antes. Ocorre-me que é mesmo assim.

Lembro-me de ler algures que o número total de pessoas vivas na Terra hoje em dia é maior do que o número total de pessoas que morreram ao longo do tempo, e pergunto-me quando será verdade o oposto, quando haverá mais pessoas mortas do que vivas, porque se fosse esse o caso, eu estaria, pelo menos, a ajudar a equilibrar a balança a favor dos mortos. Seria bom fazer a diferença. Neste momento, porém, estar morto é mais especial do que estar vivo, e pensei por vezes que imensas pessoas recebemmais atenção depois da morte do que alguma vez tiveram quando estavam vivas. Embora no meu caso eu vá receber praticamente a mesma.

Antes de dormimos, o Epsilon lia-me sobre desvios médios e intervalos de confiança enquanto eu segurava a lanterna. Pouco depois, eu e a lanterna estávamos fora de cena, mas tenho a certeza de que o Epsilon continuava a ler à luz da lua, e é bom ter alguém acordado enquanto se adormece.

TRICOTEI UM GORRO para mim, que é vermelho de ameixa com um padrão de buracos, pois achei que seria bom ter alguns buracos para arejar, agora que é primavera. Experimento-o e sinto-me um mirtilo na neve, e pergunto-me se me conseguem ver da lua. Eu e a Grande Muralha da China.

Olho para a água. Li, num livro, que perguntaram a um condenado como imaginava a vida depois da morte. "Uma vida onde posso levar comigo as recordações desta", respondeu ele. Acho que falou bem.
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A herança

A herança é isto. Disse-lhe. Era uma sala ampla virada ao mar. À noite, no Inverno, se tiveres paciência, poderás ver os relâmpagos desenhados do céu ao horizonte, despenhando-se um atrás dos outros no breu. No Verão, até bastante tarde, verás as chamas do sol derramadas pelo firmamento até serem engolidas pelas estrelas e um manto negro de noite. A solidão nesta sala é de uma melancolia tenebrosa, causa-te vertigens que não sonhaste sentir.
Não sei se ela entendeu tudo mas isso não interessa. A sala era dela agora.
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Sul

Rumo ao Sul daqui a umas semanas. Qual D. Afonso Henriques, embora com projectos diferentes. Primeiro será em terras algarvias, saber de novo o sabor a sal e sol tatuados na pele e, claro, na alma. Depois mais a Sul ainda, atravessar para terras magrebinas, conhecer paisagens berberes de onde há alguns séculos atrás, outros de língua diferente vieram a nós e nos moldaram também, e por onde os egrégios avós, se lançaram mais tarde. Aí levo comigo apenas suposições e todo um imaginário. O sol será outro e os ventos diferentes, se os houver.
Irei com os olhos que tenho e com as pernas que me carregam. Dos primeiros espero que estejam abertos, das segundas que não me falhem.
Do oceano e mar, montanhas e planaltos, gentes, fauna e flora que calharem se revelar, desejo estar à altura. Irei em paz. Do regresso, espero trazê-la de volta, mais forte ainda, desassossegadamente inabalável.
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Terminada a leitura de "Less Than Zero".

O relato de Easton Ellis data de 1985. Assustadoramente frio e cru, a história contada deixa-nos como as personagens: sem reacção perante episódios e pessoas tão violentas como sem qualquer referência moral ou ética. A dada altura, quando já nos apercebemos que os jovens adultos retratados, meninos e meninas ricas da Califórnia sem objectivos na vida a não ser ver MTV, drogas e sexo, são seres atormentados por um vazio que lhes corrói as almas. Das simples farras e apatia do dia-a-dia, mergulhamos num mundo onde a decência humana se prende, onde tudo se corrompe e se suja. O que perturba é que tudo isso acontece sem razões aparentes, num mundo onde nada falta, falta afinal tudo, a começar por exemplos de humanidade e de respeito próprio.

And in the elevator on the way down to Julian's car, I say, "Why didn't you tell me the money was for this?", and Julian, his eyes all glassy, sad grin on his face, says, "Who cares? Do you? Do you really care?" and I don't say anything and I realize that I really don't care and suddenly feel foolish, stupid. I also realize that I'll go with Julian to the Saint Marquis. That I want to see if things like this can actually happen. And as the elevator descends, passing the second floor, and the first floor, going even farther down, I realize that the money doesn't matter. That all that matters is that I want to see the worst.

The man comes out of the bathroom and tells me, "No music. I want you to hear it all. Everything." He switches the stereo off. I ask the man if I can use the bathroom. Julian takes off is underwear. The man smiles for some reason and says yes and I walk into the bathroom and lock the door and turn on both faucets in the sink and flush the toilet repeatedly as I try to throw up, but I don't. I wipe my mouth and then come back into the room. The sun's shifting, shadows strechting across the walls, and Julian's trying to smile. The man's smiling back, the shadows strechting across his face.
I light a cigarette.
The man rolls Julian over.
Waonder if he's for sale.
I don't lose my eyes.
You can disappear here without knowing it.

I leave the room.
Rip follows me.
"Why?" is all I ask Rip.
"What?"
"Why, Rip?"
Rip looks confused. "Why that? You mean in there?
I try to nod.
"Why not? What the hell?"
"Oh God, Rip come on, she's eleven."
"Twelve," Rip corrects.
"Yeah, twelve" I say, thinking about it for a moment.
"Hey, don(t look at me like I'm some sort of scumbag or something. I'm not."
"It's..." my voice trails off.
"It's what?" Rip wants to know.
"It's... I don't think that's right."
"What's right? If you want something, you have the right to take it. If you want to do something, you have the right to do it."
I lean up against the wall. I can hear Spin moaning in the bedroom and then he sound of a hand slapping maybe a face.
"But you don't need anything. You have everything," I tell him.
Rip looks ate me. "No. I don't."
There's a pause and then I ask, "Oh, shit, Rip, what don't you have?"
"I don't have anything to lose."

"Where are we going?" I asked
"I don't know," he said. "Just driving."
"But this road doesn't go anywhere," I told him.
"That doesn't matter."
"That does?" I asked, after a little while.
"Just that we're on it, dude," he said.
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Exemplos de como eu gostava de escrever.

 There's a pile of comic books on my desk with a note on top of them that reads, "Do you still want these?"; also a message that Julian called and a card that says "Fuck Christmas" on it. I open it and it says "Let's Fuck Christmas Together" on the inside, and an invitation to Blair's Christmas party. I put the card down and notice that it's beggining to get really cold in my room.

The man keeps starring at me and all I can think is either he doesn't see me or I'm not there. I don't know why I think that. People are afraid to merge. Wonder if he's for sale.

I don't like driving down Wilshire during lunch hour. There always seems to be too many cars and old people and maids waiting for buses and I end up looking away and smoking too much and turning the radio up to full volume. Right now, nothing is moving even though the lights are green. As I wait in the car, I look at the people in the cars next to mine. Whenever I'm on Wilshire or Sunset during lunch hour I try to make eye contact with the driver of the car next to mine, stuck in traffic. When this doesn't happen, and it usually doesn't, I put my sunglasses back on and slowly move the car forward. As I pull onto Sunset I pass the billboard I saw this morning thar read "Dissapear here" and I look away and kind of try to get it out of my mind. 

Bret Easton Ellis in Less Than Zero
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Da inevitabilidade

Os silêncios adensam-se, já o disseste antes. Mas há sempre uma janela entreaberta por onde se esgueira uma brisa leve. Brisa essa que percorre as catacumbas do que não escreves de vez, abanando as folhas brancas, quietas e mudas das leituras que nunca foram. E é então que surge um rumor, um murmúrio quase imperceptível, cujo eco ainda mais ténue se dissipa pelas sombras, erguendo-se de dentro, subindo o poço da alma até se estender num formigueiro pelos dedos que teclam ou que seguram um lápis. Impelido por ele, vais desenhando frases, palavras, letra a letra, como um chamamento profundo. Do que disso brota nem sempre o entendes totalmente, mas parece-te inevitável, que é o bastante para o ser de facto. .

Do fim do mundo

Do fim do mundo.
 
Tiveste a sorte, dada a poucos, de teres pisado lugares limite. Lugares onde a terra acaba e o infinito começa. Claro que tudo isso é simbólico, que o fim e o infinito são noções tuas, presas à fragilidade do ser e a uma certa ideia romântica de que a aventura é tanto física como espiritual.
O limite de ti e dos teus passos é tentado pela alma, pelo salto final para lá da imensidão, antevendo em sonho outros limiares, outros penhascos, outros oceanos infindáveis.
Quando escreves é isso também que procuras, um sentimento de liberdade que te fará perfeito, como se a busca da harmonia fosse uma vertigem constante, um grito de eco imortal, rasgado muito antes de ti e que a tua voz quando nasceu, carregou e carregará até outro vir para o teu lugar.
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Dos sonhos

Dos sonhos. Todo o sonho requer um palco, e à medida deles agiganta-se na nostalgia. Batalhaste aqui como se estivesses nos grandes estádios ou coliseus. A felicidade não é apenas dos ingénuos, é dos que inteiros são o que lhes foi dado ser.

Campo do FC Moorsel, Tervuren, Bélgica
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Tempo dentro do tempo

Chega-te à pele o resvalar do fim da tarde. Como um sopro. Mais um dia desvanece. Se pudesses por algum truque de magia, ver o tempo como quem vê as coisas que se vêem, notarias um mar imenso banhando tudo. Entenderias, por fim, o segredo das marés invisíveis e os mistérios da luz e das sombras. Na hora da penumbra, o poente é o instante que se estagna um pouco mais, suspenso num breve momento que se escapa. Tempo dentro do tempo, como na lírica, a poesia dentro das palavras. .

Das leituras

Das leituras.

Acabei o terceiro caderno do Saramago. Continuo com O Medo, o Quanto mais depressa ando mais pequena sou, o Moby Dick e o Ofício Cantante, sendo que este último ainda não lhe toquei, apenas o coloco aqui porque está na mesinha de cabeceira e cuja leitura iniciei mentalmente ainda antes da Lira mo oferecer. Os outros, confesso, estão meio lidos, uns mais meios lidos que outros, porque no último ano as minhas leituras têm sofrido. Há dias adicionei um outro livro a esta feira, e é nele que tenho mergulhado mais: Less than Zero do Bret Easton Ellis (na barra lateral).
De todos eles já tenho apontamentos e passagens sublinhadas, em breve tenciono passá-las aqui. Ler é a única escola de quem escreve.
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Almas adiadas

Querias um pouco mais de algo invisível, mas ele apenas tinha para dar o que luzia aos olhos de todos. O olhar silencioso que por vezes te atirava não era sinal de uma qualquer profundidade de sentimentos. Os gestos ternos que te desenhava após o suor não eram mais do que isso mesmo, gestos. As esperanças eram tuas, nada nele as semeava intencionalmente. Quando saía de madrugada e te acenava da porta do quarto, sabias que um possível regresso não era uma certeza. Somente na solidão da tua cama havia lugar para o que ele nunca seria, e somente na solidão da alma dele havia espaço para a o sonho que teimavas em arder por dentro. Há almas assim, adiadas uma da outra, mesmo se os corpos se emaranham na quietude das tardes quentes de verão.
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Avó

Vive na contradição de lentamente passar rápida no tempo. Cada vez mais metida dentro vai queimando o resto que lhe falta vivendo depressa, mesmo que imóvel na rotina e na impaciência do lento passar do dia. Emana vagarosamente a luz de sempre, agora mais ténue, mas ainda firme, como o sol que não deixa de ser o sol mesmo quando se põe no ocaso. São muitos anos, muitas caras para lembrar, muita vida que lhe gastou a vista e a mente. No fundo, vai existindo como quem vela um doente madrugadas a fio, já cansada, ausente, mas seguindo a missão com brio. O carácter mantém-se mas agora revestiu-se de uma melancolia suave de como quem pede quase desculpa por ainda cá andar, alternando uma fadiga triste com o instinto de certos pequenos prazeres: um copo de vinho fino, um docinho, uma ida à janela ver a rua e ver quem passa.
E nós a assistir a tudo isto, com saudade já do futuro sem ela, rendidos à ternura que ela nos tatuou na alma, conformados, resignados, com a pequena satisfação de pelo menos saber que somos um pouco dela e que por cá vamos continuar com a certeza de a prolongar até mais à frente. Até onde pudermos e como pudermos. .

regresso

a ilusão do teu regresso não passa disso mesmo
pois sabes quão duro é regressar de vez, sobretudo se o lugar ao qual retornas é este
o branco infinito de uma página
a queda eterna pelo alvo do silêncio como se o que achasses que tens a dizer, fosse afinal nada, zero
não se regressa assim sem mais nem menos, fazendo de conta que não se esteve longe, que não se abandonou uma parte de nós
os regressos são obras de toda uma vida, não de um capricho ou de um golpe de sorte
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O homem dos segredos

Os segredos eram o que de mais valioso tinha. Durante toda a vida fez de um provérbio o seu lema: três pessoas podem saber do mesmo segredo se duas delas estiverem mortas. Até hoje conseguira manter as suas discrições à revelia de todos. Fazia-o à custa de um alienamento meticuloso, quase contrariando a máxima de que nenhum homem é uma ilha. Limitava as suas relações ao mínimo possível, mudando de cidade regularmente. Das suas actividades corre o rumor que as ditava em sussurros a um velho gravador de cassetes que logo de seguida destruía. Dizia-se também, em certos círculos, que dormia amordaçado com medo de falar durante o sono e assim revelar o que só ele conhecia. Aqueles que o tentaram seguir, relataram que nunca utilizava o mesmo caminho duas vezes, que nunca repetia o mesmo gesto e que nunca, mas mesmo nunca olhava para trás.
  

A metáfora

Desceu à rua, como todas as manhãs. Comprou o jornal e foi sentar-se num banco de jardim. Do mundo as notícias de sempre, do jardim os pombos do costume. Às pessoas que passavam acenava subtilmente, algumas respondiam, outras, distraídas não. Para além do jornal, tinha sobre o banco várias frases cravadas na madeira, quer a tinta, quer a canivete. Um "amo-te Pedro" sobressaía entre outras literaturas mais ou menos legíveis. Sorte a do tal Pedro, ou não, que isto do amor tem que se lhe diga. Um pombo mais atrevido debicava-lhe o chão perto dos pés. Os pombos avançam no solo com as patas, obviamente, mas é o pescoço que lhes dá lanço, como soluços repetidos. Os pescoços dos pombos devem chegar aos ninhos cansados. Da rua um carro mais acelerado fazia um ruído rápido que abanava os ramos altos das árvores.
Recordou um amigo que lhe contara a história de uma metáfora. Um autor africano, cujo nome não se lembrava, escreveu a mais bela metáfora que lera, dizia o amigo. Se é certo que não se recorda das palavras exactas, e isso valerá e muito para se julgar da beleza da dita metáfora, só a ideia em si vale que se conte: Existe lá no país de onde vem esse autor, um tipo de árvore cuja sombra da folhagem é tão densa, que um homem, em pleno sol de meio-dia, deitado no chão ao pé do tronco, olhando para cima, julga ser noite e estar a olhar o céu estrelado. A ramagem é tão espessa, a sombra tão negra, que a única luz que passa, é uma pequena poeira de luzes ténues por entre as folhas, dando a impressão de estrelas no firmamento nocturno. Imagine-se, em África ao meio-dia, sob a sombra de uma árvore, julgando-se ser noite.
Levantou-se, regressou a casa.
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os finais de tarde

os finais de tarde, as noites, as pausas e os silêncios
carimbados em versos que vertias numa sala virada ao mar
na penumbra fina de um certo modo de seres solitário, de seres para lá de ti, de existires para lá disto e daquilo,
como se o prolongamento das palavras te levasse também para esse outro lugar, na sala virada ao mar,
na simulação de uma pose de artista, na ilusão da pureza dos gestos simples, de um sussurro de lápis sobre o branco do papel ou da cadência das teclas do piano da escrita,
tudo isso revisitado agora,
nos papéis que guardaste quer em sacos de plástico, quer em sacos de memória, quer em sacos de invenção,
a sala virada ao mar, na busca da frase certa, do pensamento exacto, do descanso da consciência ou do rasgo iluminado de uma declaração de amor que pelo menos
ao de leve
chegasse a ela, ou a ti, ou a vós
porque sempre escreveste como se deve amar
porque sim
sem mais
sem menos
com tudo e com nada ao mesmo tempo
da sala virada ao mar
os finais de tarde, as noites, as pausas e os silêncios. .

Até ver

Os silêncios não se escrevem sozinhos. Sendo certo que me remeti ao meu, não deixa de ser verdade que fui escrevendo por dentro. Até ver..