Lanzarote
a pena
a poesia é a queda de uma pena
lenta e suave na descida até ao chão
esburacando-o com estrondo
como se de um piano lançado do décimo andar se tratasse
do ler
desescrever-te II
de descrescer todas as palavras que por ti semeei
des-sonhar-te também
deslembrar-te até ao mais recôndito de uma lembrança nossa
não é esquecer-te
isso é uma impossibilidade
falo de regressar a um passado que não existiu
um passado depois de nós sem que o nós se pudesse reconhecer
mais do que deixar de te sentir
seria uma forma de nos viver uma vez mais
mas ao revés
de pernas para os ares
tudo isto é mais uma declaração de amor
imaginar
ou desimaginar-te de uma só vez
até ao local
ao momento
ao gesto primeiro do nosso amor
provar essa infelicidade de um antes de nós
sei
sei bem que o escrevi antes
mas tudo isto é
como já o disse
uma declaração de amor
des-sonhar-te para que o meu sono seja um silêncio final de nós
para apenas
uma vez mais
chegar o teu deslumbre total
e arrebatar-me até aos versos loucos que escrevo
amar-te tanto
que pensar ao contrário é também uma forma de te amar
não sei
falta-me o jeito
a arte
a sorte na álgebra das palavras existentes para que elas se encadeiem como deveriam
ou então
o mais provável
é não existirem as palavras certas para esta missão insana
que é desescrever-te de novo
desescrever-te
isso mesmo, desescrever-te
recuar ao silêncio antes de nós
desfazendo todos os versos que fui rasgando
desbrilhar-te da minha alma até à escuridão primordial de mim
despir-te
desalmar-te
chegar ao tutano do amor
ao húmus inicial de tudo isto
e encontrar aí o antes da felicidade que me és
Com todo o universo
ao encontro
descer de mim
ir até à estacão
ou ao cais
ou à biblioteca
ou às profundezas da alma
e ir ao encontro
de todos os combóios
de todos os barcos
de todos os versos
de todos os gestos
regresso
Casa
Douro
o definitivo
a mais obscura revelação da verdade
apenas teu
tempo resvalado para o passado
palavras não escritas no adiamento de seres tu
a mesma velha história de calares
de te esvaíres em sombras no lento correr dos dias
no desvanecer das noites
no derramar sereno das madrugadas
a velha lengalenga do teu abandono perante a escrita
a tua sina
seres o teu silêncio
igual a tantos outros
mas teu
só teu
apenas teu
a beleza absoluta
as árvores ao contrário
as árvores ao contrário
as raízes no cimo, magras e histéricas viradas ao céu, recortando os veios em contraste com o branco das nuvens pálidas
em silêncio petrificado, um esforço derradeiro de seiva, em vão por agora
talvez mais à frente na combustão da primavera recuperem e disfarcem em folhagem o esqueleto real que vão sendo
o que revelam para já é a contradição da própria existência
a batalha contra a força invisível da gravidade a cada ramo que se ergue um pouco mais e a luta assombrosa de cada raíz que rompe o atrito do subsolo, pela terra e pedras que as trava
as árvores hibernadas delas mesmas, quietas em silhueta, pilares de nada, monumentos do mais profundo desconhecimento

