dia 64 - propagados

a conversa mais longa entre eles
durara duas ou três frases
o bastante para que houvesse conforto no silêncio
uma raridade preciosa que encontraram logo ali

partilharam a mudez entre bebidas e olhares lentos
num daqueles dias em que a noite estava tão atrasada
que quando chegou pouco faltava para ser amanhã

o cenário à volta espiava-os
fossem bonecas empoleiradas
relíquias empoeiradas
ou espelhos com molduras antigas cujo reflexo tinha cores sépia e abafadas
portais que desvendavam um outro tempo
um pretérito tímido mas que perdurava reverberando até eles

sobre a mesa os copos e por vezes uma mão ou um braço a descansar
os corpos a endireitarem-se na cadeira e no sofá à procura do aconchego perfeito
à volta as outras mesas com suas conversas
em suas próprias órbitas e translações em redor de um momento
ou talvez fosse a ventoinha no teto a rodar
e eles propagados por esse volteio
deixando-se ir até o futuro chegar e a quietude cumprir-se


ps - Pub Bonaparte, Foz do Douro, agosto 2021

dia 63 - apócrifo

dei por mim
numa noite em que estava sóbrio
a vasculhar velhos cadernos que roubara na véspera

por lá
li umas citações recolhidas pelo anterior proprietário dos ditos cadernos
eram tiradas de um bêbado com quem
pelos vistos
partilhava serões à volta de um interminável carrossel de bebidas

dei por mim a lê-las em voz alta

a diferença entre amanhecer e anoitecer
não existe
a diferença está no depois

quando saltei para a morte
do alto do prédio
o que vi durante a queda
foi a silhueta das janelas passarem por mim numa pressa que desconhecia
depois o chão engoliu-me e eu acordei para lá de mim

soube que te amava quando me lembrei daquele dia
em que fui encontrar-te à porta
pronta para sair de casaco vestido
recordo que endireitei-te a gola e fomos

passei uma existência sentado
durou mais ou menos tempo
mas durou
e fui nesse entretanto
ambiguamente mudando e intercalando estados
como no mundo do infinitamente pequeno
nessas metamorfoses delicadas e subtis
o meu corpo eu e a minha alma
revelou-se bizarro aos olhos dos outros
mas na verdade
os outros é que se deformam e se bestializam
eu sou absolutamente irrepreensível 


ps - Figura Sentada (1960) de Francis Bacon, obra exposta no museu Albertina, Viena, abril 2022

dia 62 - insular

não era propriamente um lugar
era uma estrada e uns quantos sinais
um caminho para o tempo não passar

um lugar exige um peso que o prenda ao chão
um alicerce qualquer que sustenha uma carga
um espaço para que haja história
para que coisas possam acontecer

ali
a luz e as sombras tinham um outro pacto
falavam uma outra língua
e o que parecia ser sítio
era etéreo e onírico
era uma dúvida e uma curiosidade

uma ilha
insular por dentro da alma
à deriva
onde quase sempre a terra era negra
e doutras vezes verde até doerem os olhos
o céu era branco até se confundir com a página de um caderno
ou tão azul que tudo parecia despenhar-se por ele adentro


ps - Ilha de São Miguel, Açores, junho 2017

dia 61 - culpas

pelos séculos
as confissões foram ecoando
herdadas e deserdadas às mãos dos que foram aparecendo

existem culpas que passaram por gerações
outras que se perderam
até não serem mais que órfãs sem lugar por onde remoer

nos templos
sob as abóbodas ou outras coberturas
dentro de muros ou atrás de portões
ainda hoje
jazem as que perduraram
à deriva numa imensidão de silêncios sem nome

elas são os alicerces do que teima em não ruir

é sabido
nada dura tanto como um arrependimento e uma penitência


ps - Amersfoort, Países Baixos, junho 2018