José e Pilar

José e Pilar. Não quis ir ver ao cinema. Vi-o este fim-de-semana em casa com a Lira, no escuro. É sempre interessante termos a prova de que os imortais também são feitos de pele e osso, e que vão sendo carcaças como nós. E é bonito ver-se uma história de amor, com os seus limites terrestres e os seus infinitos de espírito.
.

A crença

Chegou à conclusão que os conselhos que nunca lhe deram, fazem-lhe tanta falta como aqueles que lhe foram atirando. Poderá ter sido muita como nenhuma. A verdade é que cada decisão que acabou por tomar foi baseada num instinto. Instinto esse baseado na crença irresponsável de que há uma escapatória a tudo. As crenças são mesmo assim: irresponsáveis. Não têm de ser de outra forma.
.

Decapitação

No turbilhão já gasto do meu atraso, está o Moby Dick, o Medo do Al Berto, o Ofício Cantante do Herberto Hélder e um livrinho engraçado do Woody Allen (Side Effects). Junto-lhe agora o "Leite derramado" de Chico Buarque.
São tudo livros que vou lendo aos soluços.
De resto, não tenho escrito nada. É assim, os desertos semeiam-se a eles próprios, e é complicado medrar o que quer que seja em chão árido.
Não são queixas nem lamentos, são o que são, que não sei que sejam. Como disseram os pais de Swift "Let the saw do the work"... até à decapitação final.
.ss

Penafora

Eu sei, eu sei, isto está um marasmo. O Penadentro ainda não levantou voo, por isso vou continuar por aqui. Está a chover. E não é pouco.
.E

Penadentro

O blogue "a pausa e o silêncio" vai acabar em breve. Mas desta vez, termino um blogue por uma razão diferente que não um "desalento" ou um "fim de linha" criativo. Comecei nos blogues há já uns bons anos (julgo que em 2004) tendo passeado em registos variados. Mas como em tudo, os inicíos é que marcam. E o início foi um blogue com o meu amigo Miguel chamado Penadentro (na verdade eram três blogues num, política, lazer e literatura). Pois tenho a dizer que o Penadentro vai regressar em breve com a dupla do princípio. O Miguel andou a correr o mundo e eu andei por aí, agora vamos regressar ao local do crime.
Novidades para breve.

Carcaças e amputados

Apagam-se os velhos e nós a ver-lhes as carcaças, não crendo que um dia mais tarde seremos nós as carcaças. Apagam-se novos por vezes, e nós a ver-lhes a vida amputada, não acreditando que pode ser a nossa que de repente se quebra.
.

Lendo

Gente de Smiley, de John Le Carré.


Hei-de recordar sempre as palavras de um comediante de Berlim quando, contra todas as previsões, o Muro de Berlim foi finalmente demolido. "Perdeu o lado certo, mas venceu o lado errado."


Ostrakova sentou-se à secretária do seu defunto marido e escreveu ao general com a franqueza que as pessoas solitárias reservam para os estranhos...


Além disso, há uma certa camaradagem entre dois homens que contemplam um cadáver.


Há pessoas que conhecemos e nos trazem todo o seu passado como uma dádiva natural. Há pessoas que são a intimidade em figura de gente.


Passou um rapaz de bicicleta com um gorro de lã vermelho e o gorro deslizou rua fora como um archote até ao nevoeiro o apagar.


E que, uma noite, ao ouvir a mãe rezar durante o sono, ele mandara os seus homens buscá-la e eles a tinham levado para dentro da neve e nunca mais ninguém a vira: nem sequer Deus, que ainda andava à procura dela.

.

Durma-se

O atraso, ai o atraso. Já escrevi sobre o conceito, sobre o enguiço do adiar e de como nos aliena subtilmente. Tenho lido sim. Aliás, na mesinha de cabeceira jaz o "A Gente de Smiley" lido de fio a pavio e com algumas notas para partilhar por aqui. Tal como "O Medo" de Al Berto, que vou lendo aos soluços. E agora, como anunciei noutros lugares, debato-me com o Moby Dick em inglês. Pura demência claro. Há noites atrás, quando Ismhael, ainda em terra, conhecia um estranho canibal com quem teve de partilhar cama, e eu, qual marinheiro perdido, lutava contra a torrente de vocabulário que me escapava, a luz do pequeno candeeiro fundiu. Assim, de repente. Em pleno Moby Dick, seriam umas duas da manhã, eu já encharcado de palavras desconhecidas para o meu inglês (pobre mas esperto), a luz foi-se e fiquei na escuridão com uma obra prodigiosa nas mãos. Pensei: "a morte deve chegar assim, nós sem entender muito do que se passa, mas apercebendo-nos de que deve ser algo de grandioso, e depois, de repente, o breu. Durma-se pois", pensei assim mesmo. Dá-me para isso.

.

Artur Agostinho

Faleceu Artur Agostinho. Ícone do relato desportivo, dono de um porte doce e afável, presente na televisão e rádio desde que eu me lembro de ver e ouvir. Mas aquilo que mais me emocionava e que hoje me entristece um pouco mais num cantinho de mim, era a sua semelhança física com o meu avô que também já partiu. Ver Artur Agostinho era sempre experimentar uma lembraça carinhosa e terna, muito minha. Que descanse em paz.

.

Eterno sabor a nada

Sabia a pouco o vento naquela noite. A solidão sabe sempre a pouco. Melancolicamente a pouco. Porque quando não se está só, quando a alma comunga, nem que seja em silêncio, o paladar encontra-se cheio, distraído com tanto sabor diferente. Mas no silêncio, no aperto de se ser deserto, o gosto das coisas é nada. O infinito será isso, um eterno sabor a nada.
.

31, the aftermath

Dos 31.

Feitos. Mais um. A dois da capicua que sentenciou Jesus. Uma torradeira, o livro "Deus não gosta de nós" do fictício autor Hank Moody, algum dinheiro e o "on ten legs" dos Pearl Jam, a caixa, com fotos, posters, cd e dois vinis. Telefonemas, mensagens, beijos e abraços.
Eis o balanço de ontem.
Tudo maravilhosamente igual. Ainda bem.

Obrigado.

Para memória futura 11

Começou cedo, mas gosto de acreditar que este tipo de coisas (as paixões) já começam antes de tudo, no eterno. Teria 3 ou 4 anos e, aos domingos, lembro-me do meu avô Fernando de rádio no ouvido a beber o relato. Era o Porto. Lembro-me do meu outro avô, Francisco, contar que fora árbitro e cronometrista de várias competições (atletismo, ciclismo, natação) e que muitas foram no velhinho estádio e antigas piscinas das Antas. Lembro-me do meu pai falar que foi juvenil no FC Porto e do primeiro treino que fez nesse mesmo estádio. E lembro-me de ir às Antas, no meio de uma multidão imensa, rodeado do meu tio-avô Américo e do meu pai para ver o Porto -Dínamo de Kiev em 1987, meias-finais das Taças dos Campeões Europeus que o Porto venceria na Áustria com um calcanhar. Nesse jogo frente aos ucranianos, o Futre marcou um golo com a ajuda do defesa e recordo ainda hoje do festejo louco que o esquerdino fez. Trepando o arame farpado para ir ter com os adeptos. O André marcou o outro.
Aquando da final, estava em Bruxelas com os meus 7 anos e com a minha querida avó Beatriz, os meus pais, esses, estavam em Viena a ver o jogo ao vivo. O Porto sofreu um golo cedo e a minha avó vendo-me triste disse "não te preocupes que a Nossa Senhora vai ajudar o Porto", fiquei ainda mais nervoso e, se não me engano, fui a chorar para o quarto. Mas certo, certo, é que a "Nossa Senhora" lá foi parar ao calcanhar de um muçulmano chamado Madjer e deu o empate, e pouco depois foi parar ao voo de um brasileiro pequenino chamado Juary e deu a vitória. A minha avó teve razão, e lembro-me de na sala festejar e ver o Carlos, um amigo dos meus pais que morava connosco na altura, de joelhos em frente à televisão a festejar também.
Meses depois, é a memória do meu pai a festejar em Bruxelas, de madrugada, a vitória da Intercontinetal. Anos depois no Algarve com um bom amigo, recordo o festejo em cima de um comboio que ia para a praia festejando a vitória frente à Lazio para a UEFA e meses depois em plena Avenida Brasil, de onde escrevo, recordo-me de estar a fazer a barba no quarto-de-banho e ouvir vindo da sala, amigos a festejar o terceiro golo do Porto frente ao Celtic (quando foi o prolongamento não consegui ver mais o jogo com os nervos e decidi ir fazer a barba) e de ir a correr com meia barba por fazer festejar com eles. E toda a noite até ao Dragão onde chegaram os vencedores. Um ano depois, de novo com amigos, recordo os três golos frente ao Mónaco e de mais uma noitada na Alameda das Antas esperando de novo pelos campeões.
Lembro-me também de derrotas: frente à Sampdoria na Taça das Taças, frente ao Barcelona nas meias-finais da Liga dos Campeões, frente ao Famalicão nas Antas no último minuto, frente ao Boavista do Jaime Pacheco também nas Antas, frente ao Benfica há semanas atrás, frente ao Shalke nos penáltis. Lembro-me de empates, de jogadores, de treinadores, de jogadas e de golos.
No fundo, esta memória para o futuro, é apenas a demostração atabalhoada do que é ser-se de um clube. fSou-o pela família, por amigos e pela cidade. Outros terão histórias parecidas, outros diferentes. Há coisas que não se explicam.
.

Sobre mim

Escrevi textos, em tempos idos, que eram sobre mim. Eram textos que escrevia obrigado. Textos inevitáveis. É curioso reparar que as palavras mais pessoais jorravam devido a forças mais fortes que eu, espontâneas, independentes. Hoje, quando escrevo, faço-o sob o peso da inspiração sim, mas com mais consciência, percepção. Escrevo, claro, sobre tudo, menos sobre mim. Até porque não há nada a dizer sobre mim, ou o que houver, vou-o dizendo escrevendo sobre tudo o resto.
.

rumor

não tem fim o rumor que te percorre a alma, estende-se para lá de ti, como sombra projectada por um sol oblíquo. ele é já futuro com um avanço subtil sobre o teu presente mas, ainda assim, um avanço. vais sendo enquanto que o teu rumor já foi, é e será. no fundo, é tudo uma questão de tempo e modo verbal. e nessa matemática transcendente, sabes que escrever é inútil. de qualquer forma, escreves. também os há os que vão pelo seu próprio pé para o cadafalso.
.

L.C.

de um verso de Leonard Cohen

Perdida. Ia à estação encontrar-se com os comboios todos. Os trilhos desertos, ofereciam-lhe um sentido ou o outro, sempre era mais que a possibilidade de ficar onde estava. E numa estação, é sabido, mesmo que um comboio não pare, por lá passa de certeza.
.

Dos deslumbramentos

A cada episódio, novo assombro.

R&R

Na panóplia de sentimentos e emoções, gestos, testamentos, poesia e afins, que o rock fucking roll exprime, há um que nos comove a todos (ou devia) quando os acordes de uma guitarra/piano/baixo explode ou quando a voz/verso/grito rebenta. esse "um" é a liberdade.




















Mudo e virgem

um ano

Dir-se-ia que o mundo, à imagem da folha em branco, está deserto. Silêncio e quietude. Trata-se de um exercício. No início seria algo do género suponho. Um espaço mudo e virgem.
.

Dos deslumbramentos

Tanto a dizer sobre uma imagem destas. Do nó da gravata à careta dela. O desfecho natural seria esganá-lo. Mas como se lhe é tão adorável? Até ao dia...


.

Para memória futura 10

As viagens Bruxelas-Porto-Bruxelas de carro, fi-las eu umas 3 vezes por ano, entre os meus 5 e 18 anos. Recordo as primeiras, feitas num Renault Espace, dos primeiros a entrar em Portugal. Toda a gente olhava para o carro como se fosse uma nave espacial. E era. Engolíamos estrada a 170 km/h nas longas autoroutes francesas. Paravamos nos restaurantes L'Arche que eu adorava pelo aspecto limpo e perfeito. Em Espanha, no calor arrasador do deserto de Castela, dormia o mais que podia.
Lembro-me dos vários envelopes com as diferentes moedas da altura, para trocar quando cruzávamos uma fronteira.
Mas dessas viagens o que mais me fica na alma é a música. O meu pai tinha um conjunto de cassetes audio que me transportavam para lá disto tudo. Dire Straits, Bruce Springsteen, Pink Floyd, Rui Veloso, O Rei Artur de Purcell, Mozart, Rolling Stones, Karmina Burana.
O clásssico dos clássicos nessas viagens, a música que colocávamos quando chegávamos ao Porto, a alto e bom som, era os Dire Straits "Sultans of Swing". Ainda hoje quando a ouço, fico com arrepios. O solo de guitarra no final é das coisas mais extraordinárias que ouvi até hoje.


.

Álgebra

Crês que te avistam de um qualquer cimo, de um qualquer topo? Que te seguem, que te acompanham? Crês que te guiam por vezes, que te aconselham pela consciência? O que respondes?
Se desenhas gestos vazios e como recompensa tens a sorte de teres os olhos abertos e alguma poesia nos dedos, aproveita. Se por acaso calhares de criar grandes gestos com significado e como sina tens o azar da escuridão no olhar, arrisca versos nocturnos.
No fundo, no fundo, as palavras são álgebra, poderás ter a sorte de encontrar a fórmula do texto certo, na hora certa.
.