trilogia do início - início


trilogia do início

III

início

depois do antes

é impossível saber o inicio no seu exacto momento
ele é invisível ao presente

o começo ocorre apenas quando o tempo já sobre ele fez o seu trabalho
e é uma saudade futura cuja percepção se me escapa

o início é uma ilusão
até porque muitas vezes ele não acaba de se revelar
como se o seu nascimento fosse permanente e inacabado

por isso não sei propriamente o que se ergue no horizonte
mas navegar é inevitável e à deriva teima em ser o melhor plano

depois do antes
quando tudo se incinerou nos vales mais profundos da alma
quando a cinza assentou dos seus voos flamejantes
caminho diferente e igual

pronto a cometer os mesmos erros e as mesmas glórias
sabendo que nunca se recupera o que passa mas que se abrem as portas escancaradas do que está por passar

antes do antes, o antes e o depois do antes
são o desenho preciso de tudo o que é possível
nada se altera e ainda assim tudo muda

das verdades

Das várias linguagens, a Verdade é uma entidade indizível, inexplicável, irrevelável. Pois se no momento exacto em que se manifesta já ela se metamorfoseou.
No fundo, a Verdade viaja até se mostrar. Seja essa viagem no gesto primitivo de um abraço, mimo ou beijo, seja tatuagem de um verso ou expressão artística, no afago ou vertigem de uma emoção, esse percurso muda a Verdade. Ganham-se outras verdades e perdem-se forçosamente outras do tecido original. E assim é, e assim é bom que seja.
Tudo isto para dizer o seguinte:

ele caminhava junto ao mar, o que por si só é todo um manifesto. Chegou à conclusão de que tudo deixa um rastro, um eco ou um traço de sombra e penumbra. Rastro invisível, eco inaudível ou penumbra ténue. Mas nenhum testemunho se apaga de vez. As coisas acontecem. E mesmo depois de acontecerem, mesmo após o esquecimento e de milhões de anos de erosão, sob a pele da existência uma cicatriz delicada não deixa de se desenhar num sopro, numa subtil textura levemente rugosa.
Os venenos destilam fel eternamente e os variados antídotos que vamos criando e tomando, ajudam, sim, a manter a alma no seu voo mas a gravidade é a lei teimosa que prevalece e, a longo prazo, nada evita a derradeira queda.

Mas a beleza de tudo isto é que a queda não é queda pois não há cimo ou baixo no cosmos, as quedas vêm de todos os lados.
Dizem eles, até, que devagar, ao ritmo de incomensuráveis medidas de tempo, o universo desacelera, que a gravidade definha e se extingue, que depois do futuro restará somente um caldo morno no marasmo disto tudo, um pântano espacial.

Aos olhos dele, que caminhava junto ao mar, esse tal futuro seria a ausência dela. Ele já lá estava.

devaneio

ah esta coisa de vir aqui e não dizer nada e assim dizer tudo e esconder-me ao mesmo tempo que me dispo e de falar de solidão e de estar com o mundo inteiro

de lutar sem outro corpo para destruir que não seja o meu e na dor dessa violência enterrar a dor a sério que nunca é minha e diluir esse amor pelas coisas simples que uma vida pode dar como um beijo partilhado pela boca toda sem pudor nem vergonha e um verso perfeito no poema que quase se escreve

de entregar a alma a uma bebida e com ela desligar de tudo num vôo solene transcendente até ao âmago de uma sombra que não pára de nascer num recanto de estrada

ah esta coisa de saber e não saber e saber tudo
de falhar e acertar e continuar e insistir no mesmo erro esperando que algo de novo brote
no fundo tudo isto é a receita de enlouquecer e entender que não há outro caminho que não este
o da loucura
da entrega total a um momento e ele se perpetuar num devaneio perfeito de mim

a constante obsessão de tatuar na pele do silêncio um qualquer suspiro um qualquer sussurro uma brisa que nasceu antes de nós e nos levou por mil universos até nos despenhar aqui agora já

premonições póstumas e outras alquimias


soube depois mas já o sabia num limbo do antes
como se o tempo fosse atirado ao esquecimento momentâneo do que corre silenciosa e inexoravelmente

escrevi-o num repente que brotou já o sono me vencera
e qual náufrago a este caderno me agarrei e escrevi

premonições póstumas e outras alquimias 

sem outro sentido que não fosse o instinto definitivo de sobrevivência:

que se não me salvasse eu ao menos se salvassem os versos
e que pudesse o rosto dela estilhaçar-se noutros olhos e neles sugar a paz de alma de um coração que nunca amou e para sempre o assombrar de vertigens e rendições inúteis como o garimpeiro que nunca se satisfaz com a pepita de ouro que eventualmente encontra

dos extremos



fossem antes nevoeiros ou tons cinzentos de penumbra difusa e indefinida

fossem dúvidas e incertezas definitivas

mas não

são o breu mais denso imaginável
ou são o total encadeamento de luz

é a mais desoladora desilusão
ou o encantamento final da tua beleza

não há meio termo nem há consensos ou compromissos

no fundo, o que há é tudo e nada

o silêncio ou a poesia toda do mundo

o teu rosto ou o derradeiro esquecimento

traço imperfeito


o traço imperfeito de tão imperfeito ser
certeiro se revela
de como se emaranhando em redes e labirintos se vai desatar depois
em silhueta para nos falar em silêncio
sendo o silêncio cor e contorno e desenho

uma vida numa noite

uma vida numa noite e nem o nevoeiro da memória nem o roer do tempo encobriram ou desfiaram essas loucuras

coisas há que ecoam para sempre, pois puras e livres foram, flutuam e planam para lá disto tudo e são elas que nos fazem especiais e íntimos
e semeam a certeza de que nunca estaremos sozinhos
porque um outro a teu lado estendeu sua sombra e olhar

novos vícios


vais arranjando novos vícios para queimares o pouco que resta deste mutilado caderno
agora pões-te a escrever já na antecâmara do sono ao som de canções que já tinhas esquecido 
a ideia de esgotares o que te tormenta, de ires à volta de tudo o que nunca chegaste a cumprir, de enganares tudo aquilo que nunca chegaste a dizer, como se o que dissesses agora pudesse ocupar um silêncio passado.
não pode.
e para além de não poder, este semear de palavras deixa um novo infindável campo de vazios e nele corre uma permanente brisa cujos versos são ilegíveis.
resta-te a cisma que bem conheces, a de escrever o que te dita a voz muda da madrugada.
estranhamente, isso te consola o bastante para aqui regressares.
há uma beleza nisto, e tudo o que é belo brilha para além de nós

e todas as declarações de amor



enquanto não chega a história alongas o caderno e escreves horizontalmente, espraiando as palavras ao largo. foi preciso cair uma noite de nevoeiro e reencontrares os Simon and Garfunkel para também tu seres outono. disfarças esse adiamento do grande romance com jogos de escrita como este. soubesses tu desenhar ou esculpir. a fuga que é a tua só tem casa nestes nadas. talvez também pudesses dormir e encontrar um sono recorrente e nele tudo farias para reviver sempre o mesmo sonho, noite após noite, queimando madrugadas na teimosia de uma mesma narrativa. chegaste a amar a dada altura e esse incêndio ninguém to apaga nem ninguém to rouba, essa ferida da entrega incondicional da alma, por muito etérea que seja agora, ecoa pelo universo. ah, que se foda a solidão, no silêncio estão os ruídos todos do mundo e todas as declarações de amor.

gesto perfeito

o gesto perfeito que teima em adiar-se num perpétuo esquecimento de si mesmo
e não será num entretanto vazio que se poderá revelar

ainda assim insistes em escrever a cada momento perdido do dia como se enchendo de palavras o silêncio ele fosse menos arrebatador e as noites menos solitárias

já não tens mais promessas a quebrar pois esgotaste os estilhaços de todas as outras que fizeste e a loucura que brota de uma promessa quebrada é tão grande como a que nasce de uma que se cumpre e no teu mar não há mais lugar a novas ondas porque todo ele é somente ondas revoltas e revoltadas

o gesto perfeito aguarda quieto num canto qualquer da sua própria impossibilidade e nada o alcança
ele é halo de sombra e de cinza luminosa
é fumo
espuma fina
é um segredo que ninguém sabe
e saber é o conforto que a evolução nos nidificou nos genes
por isso nos contorcemos quando não sabemos
e nada sabemos de verdade e o desconforto é o estado permanente da nossa alma
por isso desejamos os gestos perfeitos
ansiamos esse afago divino como o colo de uma mãe ou um beijo de quem se ama ou o calor morno de uma cama

gárgulas

procuras o local exato onde semear a palavra para que faça sentido

nas esquinas altas de uma catedral, arrancada ao granito e ao calcário
cortando o céu em contraluz
seria o sítio natural da aparição

mas as gárgulas que queres escrever são silhuetas perdidas em profundos mares da alma
esgares petrificados em proas de barcos naufragados mil noites atrás
são ramos de uma árvore, que morta de pé, em vez de folhas, brota cimalhas por onde corre a água de chuvas impossíveis

gárgulas
dizes por dentro
e toda a língua estremece num calafrio perfeito

o silêncio tem o seu alfabeto e o seu dizer
nós é que o não conseguimos ouvir
pois surdos somos caminhado sobre o vibrar do tecido da poesia nas madrugadas que não acabam
como se a insónia durasse eternidades

não era

adivinhei vésperas num olhar teu
como se o tempo por lá tivesse ancorado
e aí nos perdíamos num mar de afagos

faltam tardes lentas no meu corpo
e semeia-se um esquecimento por dentro
não do que acontecia mas dos sentimentos que sustinham o que acontecia
e assim a lembrança paira vazia como fantasma de um nevoeiro sem paisagem a encobrir

amnésia à parte
é o futuro que pretendo saber de cor
se o tempo desatracará
se ainda há correntes
e se por acaso
em marés longínquas um entardecer dura para sempre
como um abraço
se a paz de espírito reencontra o seu paradoxo uma vez mais
de se perder num outro rosto
de estremecer em vertigem tal
que todas as promessas somos capazes de cumprir em nome de um sorriso
que todas as loucuras nos parecem sensatas apenas para poder mergulhar num beijo
de acreditar que a entrega
a rendição
são a única forma digna de se viver

adivinhei madrugadas num poema que quase escrevi
fazia noite a cada verso
e o caminho fazia-se letra a letra
passo a passo no infinito de mim

pareceu possível por momentos
que o sol pudesse nascer
mas era cedo
era tarde
não era

pontos de não retorno

nas cartas ou poemas de amor
escrever o que se sente ou sentir o que se escreve

dessa escolha dois caminhos se revelam e ambos levam ao despenhar da alma num poço sem fundo

dessa queda imensa o ponto de não retorno chega célere
tal como a luz de um vitral que nos chega ao olhar, que é essa luz mais a soma do vitral que a coou,
o amor é o sentimento mais a alma que o irmanou

encontrei este verso num canto

talvez possamos deixar as sombras para trás e caminhar em luz translúcidos

e poderia agora escrever o seu contrário

talvez possamos deixar a luz para trás e caminhar em penumbra ensombrados

nas vagas da escrita muitos são os náufragos e muitos são os estilhaços de sol no espelho das suas águas
e infinitos silêncios cobrem imensidões sem praias e sem terra à vista

talvez possamos deixar luz e sombra para trás e caminhar sem nunca termos existido

dessa forma

cartas

poemas

de amor

seriam o ponto de não retorno
a cicatriz tatuada e cravada para sempre
como aquele pequeno corte que temos no céu da boca e que não sara nunca pois não saram as feridas assim
quais umbigos

e divago pois há muito navegam-me as palavras sem rota nem rumo pelos dedos
como os ventos que se enlaçam primeiro por entre ramos altos de árvores caducas e depois se emaranham em folhas que se soltam em suaves e longas e pesarosas quedas

cedo
por fim
à desordem natural das coisas

e deixo de escrever

cartas, cadernos e fotografias

E a vasculhar velhas caixas reencontrei coisas velhas. Com pó e tempo e abandono. Fotografias, cadernos e cartas. Cartas que não cheguei a escrever, cadernos com versos envergonhados e fotografias com silhuetas aladas de gente que já não é o que é.

Das cartas o que não foi dito eram sobretudo coisas do amor, da ideia pura e dura de uma rendição total para com um outro ser, do estremecimento que é vermos um rosto da mais profunda beleza e de saber no corpo que um abraço não chega para carregar o peso de um carinho desses, que as palavras não sustêm tamanha vertigem e que somente, quem sabe, um derradeiro mergulho no olhar de quem se ama acalmasse o arrebatamento que nos rebenta na alma. Estas coisas são assim e não de outra forma, são cruas e inocentes e da verdade mais singela, como um dia de chuva após meses de sol ou como o último comboio da noite a partir da estação onde já ninguém espera ou, até, como um gato a esgueirar-se na esquina mais longínqua da rua mais deserta de sempre. Estas coisas são, portanto, mesmo assim.

Dos cadernos, os tais versos envergonhados, despem-se ainda mais e revelam a ingenuidade que os fez nascer, são somente carcaça da centelha que os desenhou, pois já toda a chama se consumiu na língua que os nãchegou a dizer. Ainda assim, foram o que foram e, de alguma forma, cravaram um eco no tecido do mundo e, porventura, tocaram um ou outro coração no seu tempo de gloriosa verve.

Das fotografias, pouco há a dizer sobre o que ainda possa viver dentro dos contornos dos espectros revelados. Mas sem duvida, que todos estes perfis e sombras e sorrisos e esgares e cenários, se petrificaram em água luminosa. Nessa aparente contradição reluz o testemunho de um passado finito mas ainda a reverberar pelo presente até se esfumar aos nossos olhos, como assombrações. Disto tudo fica um sabor a penumbra e a outono, não sei dizer de outra maneira.

frente e verso

A frente do verso e o verso de frente como um muro.

Inevitável.

De sua derme, escamas secam e caem como pele de serpente envelhecida
e por trás das palavras o verso do verso, o outro lado do que é dito, sem silêncio nem verbo.

a voz que dita por dentro

um retiro sobre cinzas
qual exílio de mim próprio

a fuga do chão já pisado para um outro caminho

dos sedimentos acumulados na gruta da alma, existem poeiras de uma cumplicidade e sombras de gestos desenhados por um carinho que se cumpriu

talvez sol e sal possam cobrir tudo isso e dos meus olhos outra foma de ver nasça

talvez lutando contra o adiamento dos versos consiga encontrar-me definitivamente

certo é que o silêncio habita cada palavra que não escrevo
e das que escrevo o ruído é levado pelo mar
pois sou filho dessa voz que dita por dentro

código genético póstumo

às portas do deserto, perante mais um infinito que me calhou em sorte, duas sílabas inundaram-me a alma

brotaram com a força das inevitabilidades e ressoaram por dentro
ecoando num aperto que já conheço do passado mas que é sempre novo

a paisagem arenosa e o sol a cair no longe do horizonte, o silêncio profundo

tudo isso incompleto

fazias falta

não nós, mas tu
a ideia de ti e do teu pronome vazio a resvalar-me pelos olhos e pelos dedos como os incontáveis grãos desta praia sem mar

depois o sol pôs-se e foi como se mil anos passassem desde essa fugaz solidão da partilha

será tudo isto normal e inocente

das duas sílabas fica a tatuagem invisível
como cicatriz por baixo da pele e da língua
qual código genético póstumo 

falhanços

A tua escrita (para além de quase inexistente) é incapaz de descrever. Dirão os modernos que é minimalista. Mas sabes bem que é somente pobre. Poderá ter algum mérito no rasgo intuitivo que brota de um rasgo ocasional, mas, no fundo, é deserta.
Deve-se isso à tua falta de disciplina, de entrega e de coragem.
Descrever alguma coisa dá trabalho.
Preferes o conforto da inspiração fortuita. E, mesmo essa, surge cada vez mais espaçada.
Talvez te agarres à crença de que a poesia escolhe quem quer, e a que te calhou em sorte e em palavra é essa coisa indizível na verdade. Escreves os teus pequenos falhanços.

sorrisos adiados e outras considerações

os sorrisos adiados
desperdícios de rugas que teriam razão de ser
assim são somente ondas sem praia onde resvalar

talvez possamos deixar as nossas sombras para trás e caminhar em luz
translúcidos
puramente brilho
sem rastro nem pegada
como penas ou borboletas leves de tudo
desenhos de voos e sono
pedaços de preguiça morna numa tarde de sol
o corpo coberto de sal e suor e lágrimas não choradas

a areia como rosto infinito e espuma de vaga como língua a lamber toda a orla
sem nunca saciar a sede nem a alma
o espelho do céu quebrado sobre o mar num estremecimento sem fim de mil sóis sobre outros mil

leves pregas de penumbra e sombra

Era um velho e era em noites como esta, onde os ventos quentes subiam até à solidão, que mais falta lhe faziam certas coisas que já tivera: uma janela sobre o mar e sonhos de sobra a rondar o espírito.

Tentava lembrar-se do momento exacto do seu esquecimento mas a pele ardia por fora e por dentro e desse incêndio restava apenas cinza.

Tempos houve em que a sala espraiava-se por entre rascunhos de versos, melodias de piano e copos vazios. No quarto talvez dormisse uma mulher ou ninguém, o que na maior parte das vezes ia dar ao mesmo. Nada somos se não houver testemunhas da nossa existência (há sempre uma testemunha).

O ar treme no bafo escuro da madrugada, baloiça ao sabor dos carros que rasgam a quietude no seu passar efémero. Estremecem os tragos amargos de uma bebida demasiado forte e o velho hesita em desejar o impossível.

Para além dos carros, alguns cães ladram à vez, assustados com certeza pelo adormecimento súbito de todas as coisas. O velho senta-se numa cadeira e recorda antigas cicatrizes da alma. Os lutos, os remorsos e as promessas que não cumpriu.

De todos os arrependimentos, um volta constantemente às lágrimas dos olhos: o velho jamais tinha sido novo. Não é fácil de explicar, mas, desde sempre, lhe pesou o tempo nos gestos, e cada um dos que desenhou, deixava um rasto arcaico, como se alguém já o realizara antes. Sendo que esse alguém podia muito bem ser ele próprio. No fundo, vivia a vida como se já a vivera anteriormente.

Era um eco, uma repetição cada vez mais subtil, cada vez mais ténue, mais curta.

Um dia deixou de se ouvir.

O calor subia ainda, vinha dos desertos mais longínquos onde se formara por teimosia. O velho que já não se fazia ouvir enrugava-se até ser apenas quebras no lençol da noite, leves pregas de penumbra e sombra.