a pausa e o silêncio
*
Assim de repente. No silêncio de um regresso a casa, cai de uma vez um silêncio maior, esmagando num só golpe almas descansadas e carregadas de futuro. O futuro apagou-se para elas. Fica o nosso, violentamente puxado ao presente, em choque, em luto. A tristeza alagando-me todos os poros. Tlvez um pouco mais do que o costume, por serem de onde eram e por eu, em tempos, ter feito a mesma viagem, com a mesma idade, com o mesmo silêncio de regresso a casa, com a alma descansada e carregada de futuro.
*
regressou o sol, espelhado em azul por todo o céu, dizendo coisas à pele, aos olhos e às almas, coisas silenciosamente agradáveis, segredos antigos que o nosso corpo reconhece para além de nós
repousa-se por momentos nesse lençol morno vindo de cima, uma rendição breve à gratidão que todos carregam profundamente mas à qual poucos se entregam totalmente
regressou o sol e tudo está estranhamente igual, mesmo se diferente
.
repousa-se por momentos nesse lençol morno vindo de cima, uma rendição breve à gratidão que todos carregam profundamente mas à qual poucos se entregam totalmente
regressou o sol e tudo está estranhamente igual, mesmo se diferente
.
*
Moby Dick jaz, parado, pesado demais neste momento para os meus frágeis braços de leitor preguiçoso. O Medo e o Ofício Cantante, igualmente em silêncio aos meus olhos. O primeiro já mais de meio lido em dois anos de leituras furtivas, o segundo aguarda que lhe caia em cima, pressinto que o devorarei.
Para já ando com os diários de Saramago, um já foi, estou no segundo. Reconheço-o na sua humilde vaidade, nas suas tiradas sábias e nos seus amargos. Um homem com voz e com a habilidade certa para a vozear. Mas um homem, fraco, amargo, agradecido, mal agradecido por vezes também e todos os "etcs" de um diário. Ando também com Kjersti Annesdatter Skomsvold, norueguesa com talento pelo que já li.
Isto é assim, vou lendo, aos poucos o que me calha.
.
Para já ando com os diários de Saramago, um já foi, estou no segundo. Reconheço-o na sua humilde vaidade, nas suas tiradas sábias e nos seus amargos. Um homem com voz e com a habilidade certa para a vozear. Mas um homem, fraco, amargo, agradecido, mal agradecido por vezes também e todos os "etcs" de um diário. Ando também com Kjersti Annesdatter Skomsvold, norueguesa com talento pelo que já li.
Isto é assim, vou lendo, aos poucos o que me calha.
.
*
Dizes para ti mesmo que é agora. Sabes da falsidade mas não a deixas de a dizer, porque numa falsidade existe a face oculta da possibilidade. Não sendo "agora", já o foi menos. Estás um pouco mais de volta ao sentimento do irremediável atraso. Já não é mau. Uma pessoa esquece-se do que é ter sonhos, mas não deixa totalmente de sonhar.
.
.
*
O cenário na tua mente tem a vida que lhe falta no papel. Tudo na tua mente tem a vida que lhe falta no papel. Talvez por isso escrevas tão pouco agora. Cabe-te a humildade de supores que dantes também não tinha grande vida no papel o que escrevias, mas pelo menos vivias com essa ilusão. Inverteu-se o sonho portanto: julgas-te agora dono de grandes ideias mas incapaz de as mandar cá para fora. Se calhar nem as ideias são assim tão boas, nem tu sabes mandá-las cá para fora com a arte que mereceriam.
.
.
*
Não tiveste nunca a noção do tempo. A percepção de que ele passava era ténue. Continua igual. O sol cai no mar todos os dias, e as gaivotas fazem o mesmo voo ao fim da tarde. Recordas talvez as noites de chuva intensa, com relâmpagos ao longe a despenharem-se no horizonte como cicatrizes celestes. Das manhãs, guardas a sensação do banho das primeiras luzes, dos candeeiros a apagarem-se, dando lugar ao sol. Das tardes tens o peso do seu arrastar por livros e músicas no rádio.
O tempo esvai-se. É um suspiro e já passou. Há muito.
.
O tempo esvai-se. É um suspiro e já passou. Há muito.
.
*
Entrar, não entraram. Mas sei que rondaram. O meu vizinho, um tipo gordo e mal cheiroso que não dorme de noite (nem de dia), disse-me, quando me encontrou nas escadas, que de madrugada viu quatro brutamontes de espingardas na mão, a espiar a rua, espreitando pelas janelas e arrombando caixotes de lixo.
- Espingardas? - perguntei.
- Sim, ou metralhadoras ou lá o que era. Coisas grandes, assim. - e simulou o tamanho com os dois braços.
- Seriam Kalashnikovs? - atirei.
- Isso, sim, daquelas dos filmes nos desertos e o caraças.
Agradeci-lhe a informação e regressei a casa. Ele ainda dormia. Pelos vistos, o susto de ter gajos de kalashnikovs atrás passara, ou, pelo menos, não lhe tirava o sono.
- Pá, acorda. Os gajos andam aí.
Estremunhou.
- A sério? E falaste com eles?
- Claro. Paguei-lhes um café e tudo.
- Não brinques.
- Não brinco não. Andam gajos de metralha na mão, à tua procura, provavelmente para te fazerem uns furos e mais a quem estiver por perto, mas eu não brinco.
Voltei a trancar as portas e as janelas. O dia ia ser longo.
.
- Espingardas? - perguntei.
- Sim, ou metralhadoras ou lá o que era. Coisas grandes, assim. - e simulou o tamanho com os dois braços.
- Seriam Kalashnikovs? - atirei.
- Isso, sim, daquelas dos filmes nos desertos e o caraças.
Agradeci-lhe a informação e regressei a casa. Ele ainda dormia. Pelos vistos, o susto de ter gajos de kalashnikovs atrás passara, ou, pelo menos, não lhe tirava o sono.
- Pá, acorda. Os gajos andam aí.
Estremunhou.
- A sério? E falaste com eles?
- Claro. Paguei-lhes um café e tudo.
- Não brinques.
- Não brinco não. Andam gajos de metralha na mão, à tua procura, provavelmente para te fazerem uns furos e mais a quem estiver por perto, mas eu não brinco.
Voltei a trancar as portas e as janelas. O dia ia ser longo.
.
*
- Deixa-me entrar, andam uns gajos atrás de mim!
Estas foram as primeiras palavras que ele disse quando lhe abri a porta. Entrou nervoso e foi sentar-se no sofá.
- Uns gajos? - perguntei.
- Sim pá. Vieram-me dizer lá a casa que uns tipos andam à minha procura de kalashnikovs na mão!
- Kalashnikovs?
- Sim, uns gajos manhosos, com mau aspecto.
- Foda-se, e vens para aqui porquê?
- Pá, porque não tinha para onde ir. E tu tens cara de maluco, se calhar podes dar-me uma ajuda, não?
- Cara de maluco? Qual ajuda qual caralho pá. Gajos de kalashnikovs? Mas tu estás-te a passar ou quê?
Ele calou-se. Percebi que aquilo de eu ter cara de maluco era mesmo a sério.
- Ouve lá, mas quem são os gajos?
- Não sei pá. Eu não tenho entrado em esquemas nem nada. Não percebo.
- Foda-se, de kalashnikovs?
- Sim. De kalashnivokvs.
- E agora? Que queres que eu faça com a minha cara de maluco? Achas que paro balas de metralhadora com o focinho, é? É sempre a mesma merda pá. Cada vez que vens bater à porta vens com cenas à filme pá! Já quando foi a história dos dois irmãos atrofiados que te queriam rebentar as pernas, vieste bater à porta. Passei duas horas a convencê-los que tu és um gajo doente pá!
- Faz-me este favor pá, fala com os gajos.
- Mas que gajos meu? Achas que eu vou falar com gajos de Kalashnikov na mão?... Kalashnikov?
- Sim, kalashnikov.
Era tarde. Tranquei as portas e as janelas. Amanhã logo se via.
.
Estas foram as primeiras palavras que ele disse quando lhe abri a porta. Entrou nervoso e foi sentar-se no sofá.
- Uns gajos? - perguntei.
- Sim pá. Vieram-me dizer lá a casa que uns tipos andam à minha procura de kalashnikovs na mão!
- Kalashnikovs?
- Sim, uns gajos manhosos, com mau aspecto.
- Foda-se, e vens para aqui porquê?
- Pá, porque não tinha para onde ir. E tu tens cara de maluco, se calhar podes dar-me uma ajuda, não?
- Cara de maluco? Qual ajuda qual caralho pá. Gajos de kalashnikovs? Mas tu estás-te a passar ou quê?
Ele calou-se. Percebi que aquilo de eu ter cara de maluco era mesmo a sério.
- Ouve lá, mas quem são os gajos?
- Não sei pá. Eu não tenho entrado em esquemas nem nada. Não percebo.
- Foda-se, de kalashnikovs?
- Sim. De kalashnivokvs.
- E agora? Que queres que eu faça com a minha cara de maluco? Achas que paro balas de metralhadora com o focinho, é? É sempre a mesma merda pá. Cada vez que vens bater à porta vens com cenas à filme pá! Já quando foi a história dos dois irmãos atrofiados que te queriam rebentar as pernas, vieste bater à porta. Passei duas horas a convencê-los que tu és um gajo doente pá!
- Faz-me este favor pá, fala com os gajos.
- Mas que gajos meu? Achas que eu vou falar com gajos de Kalashnikov na mão?... Kalashnikov?
- Sim, kalashnikov.
Era tarde. Tranquei as portas e as janelas. Amanhã logo se via.
.
*
Um novo ano. A imensidão de 366 dias desta vez, para ficarmos com as contas certas daquelas seis horas a mais que a terra demora a rodear o sol. Uma imensidão que se dilui depressa, como as horas de sono durante as noites. O tempo é o mar que nos banha em silêncio. No fim seremos não pó, mas espuma. Que nos calhe uma praia bonita no olvido.
.
*
Percorri a livraria em tua busca. Algo que tivesse os teus olhos ou, pelo menos, uma simulação deles. Sondei a ver se a tua sombra descansava numa qualquer estante. E então aconteceu. Vi-te, de azul, na capa de um livro, o teu nome impresso num fundo branco, ligeiramente subido ao mesmo tempo que tombava. Não sei explicar melhor a não ser que eras tu. Comprei o livro. Será teu. Nosso portanto. E ao afastar-me da livraria já com o livro comigo, soube que estás em muitos sítios para além de ti e de mim, que o mundo te semeou e espalhou pelo seu infinito. Que me aconteça de tudo, menos perder o conhecimento de te encontrar em tudo o que vejo, nem que seja para me doer a saudade. O amor é a arte de não esquecer nunca.
*
Vamos ouvindo conselhos, alguns que seguimos outros que não. Talvez me faça falta, agora, nesta hora exacta, ter seguido algum dos que não segui. Mas os conselhos não são milagres nem definitivos, tem de haver em nós os pés certos para os seguir. em muitos casos os pés não são os certos, são mancos ou trapalhões, e então tropeça-se ou desiste-se. No fundo, seguimos os conselhos possíveis, pois a impossibilidade é o que rege tudo o que não alcançamos. Faz-se o que se pode, mesmo se teimosamente acedamos que podíamos fazer mais.
Desembrulhem lá isto que eu ceguei o nó.
.
Desembrulhem lá isto que eu ceguei o nó.
.
*
Já estiveste muitas vezes perante o vazio de uma folha em branco. O terror que provoca não vem desse vazio da folha, vem do vazio que tens em ti para lá meteres. O mundo tem muito silêncio para lá dizeres as tuas palavras, o problema está no sentido contrário, na ausência das tuas palavras, na tua impotência para as descobrir e lá as plantares para calares quer o silêncio da folha quer o teu silêncio. Pressentes que para além do teu próprio atabalhoamento, existe também o medo do que possas ter a dizer. É que sabes agora que isto não é fácil. Ampara-te o conforto de saber que também não teria que ser fácil, mas a verdade é que até agora tinha sido fácil, mesmo nos momentos em que te queixavas no passado. Agora que sabes que é difícil já não é bem queixares-te, é antes bateres com a cabeça e aguentares. É mesmo isso, aguentar, aguentar ao máximo, até esse aguentar se transformar naquilo de que já ouviste falar: resistir. Não será resistir no sentido ideológico e massacrado pelas fés, mas antes no sentido final e eterno da palavra, resistir como homem, como humano e ser individual perante tudo o resto. Isto se o teu corpo ajudar. Se o teu coração não rebentar e alma se te verter pelos poros.
Tudo isso só é possível porque sabes que não estás só.
.
Tudo isso só é possível porque sabes que não estás só.
.
*
Invernou. O tempo alonga-se um pouco mais entre a chuva e o frio e é mais fácil sentir-se o silêncio das coisas. Os livros ganham mais peso nas estantes e a música estagna na sala quieta. A ausência de ti próprio revela-se nas sombras e o teu atraso para com o destino torna-se ainda mais evidente. Mas é sabido que ao destino ninguém escapa e quando ele chega é já tarde demais.
.
*
Dissemos algumas coisas, mas muitas mais houve que não dissemos. O medo de termos de lidar com algo mais do que os nossos corpos a suarem juntos, era terrível. Através do silêncio ofegante da nossa entrega carnal, expiávamos o que havia para expiar, e sabíamos que qualquer palavra pelo meio seria, para além de um tormento, inútil. As nossas almas, há muito soterradas, nada tinham para se dizer.
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


