o cenário
seria pobre
um quarto com um postigo corrido no alto da parede do fundo
uma porta numa das laterais uma cama encostada na outra
uma cadeira a meio
do teto um fio magro a terminar numa lâmpada acessa que derrama uma luz timidamente ocre
ato primeiro
um louco deitado na cama
levanta-se
é alto e magro
veste uma bata de doente
fala sozinho
explica-se com uma certeza que vem de um outro tempo
sabe-se louco mas contesta
diz coisas que apesar da aparente demência
aos poucos vão fazendo sentido
ato segundo
um anão revela-se como uma aparição
dirige-se ao louco
tenta ser a voz da razão
acredita que as evidências sejam suficientes para provar a loucura
os dois batalham em argumentos até o dia começar a nascer pelo postigo
ato terceiro
ambos lançam ultimatos
por momentos desconfiam que há gente a olhá-los
questionam o que está para lá da suposta parede que dá para a plateia
ambos desculpam-se
ambos começam a dar razão ao outro
ambos se calam
ambos duvidam
epílogo
entram dois enfermeiros pela porta
o anão esfuma-se
o louco é amarrado à cama e sedado
os enfermeiros saem
cai o pano
o que sobra é uma ruína
ps- Candal, Vila Nova de Gaia, março 2017

