indigno de amanhecer

houve um tempo de manhãs consumadas
de um lento acordar onde o corpo despertava antes de tudo o resto

sobre a cama os rumores da noite anterior já esmorecidos
e a ausência a impor-se com o silencio da solidão reencontrada

na véspera povoaste-te de suores roubados
de carícias e atrevimentos apenas possíveis num desespero de sentires alguma coisa
qualquer coisa

mas as manhãs trazem o peso de um arrependimento
um arrependimento não passado mas futuro
como se o remorso viesse do porvir
como uma anunciação de que
mais cedo ou mais tarde
começarias a acordar e já o sol se teria posto
e a tua vida seria sempre uma noite ou uma madrugada mais

as manhãs ainda te assustam hoje
e talvez esse medo não se apague nunca
porque a manhã é um mundo perdido e longe
afastado do que os vícios te tentam

as manhãs são proibidas aos teus olhos
pois és esquivo de ti mesmo e a noite e as penumbras oferecem-te um ninho

porventura não te julgas digno de amanhecer

onde a poesia expira

que luto pode caber num livro
ou que silêncio num outro silêncio
quando madrugadas há que não terminam nunca de amanhecer

estas coisas espalhadas pela alma
e uma janela aberta para um mar enlouquecido
por onde o olhar se incendeia em correria
sem açaime nem trela nem dono

a sede de morder o horizonte
de o ferrar até ao rasgão
para que céu e oceano se despenhem de vez
e vermos como seria tudo isto
emaranhado no caos
na tempestade derradeira
no limite de um verso às portas de um silêncio tão denso
que o próprio breu se cala
e onde a poesia expira



o cego

a imagem terá o seu simbolismo
e como uma aparição
revelou-se inesperada

era um poeta cego erguendo uma tocha

para quê
se era cego

perguntou-me o meu companheiro de bebida

por isso eu pensei em simbolismo
não o saberia explicar

um cego com archote
por que raio

talvez para os que não fossem cegos
para que o possam ver
já que ele não pode

ah
assim percebo

e
de acordo calámo-nos
bebemos até ser dia e o dono do bar nos atirar pela porta de volta ao mundo




o personagem

o céu e nada mais
que ele se anuncie numa tempestade final

e usar estas frases como lema
nem que seja a fazer de conta
que isto de simular uma existência prende-se muito com a pose e com o estilo

pelo menos ter a decência de se tentar enganar as gentes
fazê-lo com classe
com a vaidade de um pavão mesmo que depenado

o céu e mais nada
e uma gabardina
e uns óculos de sol
e um humor tão corrosivo que entre a gargalhada e a vergonha
nasça uma dúvida cheia de certezas melancólicas

e claro
a acompanhar tudo isto
uma bebedeira daquelas


 

nunca leio o que escrevo

faz do gesto algo perfeito
como um acorde de piano exato numa madrugada
ou uma onda de inverno numa daquelas praias infinitas

lentamente no íntimo dos murmúrios noturnos
espera que se revele o verso definitivo do que ouviste lá longe
e deixa que pelos nevoeiros frios
corram desvairados os cometas forjados pelo cosmos
lê-lhes os rabiscos de faúlhas nas fendas do firmamento
conspira para que os milagres se anunciem
e os barcos possam desatracar e partir enfim rumo ao naufrágio inevitável

inspira-te no velho poeta que inventaste e que disse

não posso escrever sobre o medo enquanto o medo se revela

impõe-se um certo decoro durante o bolero das vertigens
e há que ter pudor quando alguém aterrorizado ainda não sabe bem que o está

por isso
antes de cada palavra e de cada verso
fecho os olhos
e nunca leio o que escrevo


 

insónia

há a possibilidade de todas as coisas e a impossibilidade de coisa nenhuma

escorre das paredes um musgo primordial
um magma do tudo por chegar
coalhado em manhãs que têm o peso de um arrependimento
como se o que dissesses agora pudesse ocupar um silêncio anterior

escrever o que te dita a voz muda da madrugada é o que resta
e nem o nevoeiro da memória
nem o roer do tempo
encobrem ou desfiam esta loucura
este traço imperfeito que de tão imperfeito
certeiro se revela

sobra a lembrança baça do que foi perderes-te num poema
e brotares do outro lado da página com o peito em chamas
coado por uma insónia que dura desde sempre

excesso maior

fosse eu um desses lobos do mar que o sol queima
e cuja pele é esculpida de ondas e sal negro
onde no lugar dos olhos habita o oceano inteiro

talvez assim pudesse eu pertencer a alguma coisa
e fosse digno de amanhecer

haveria lá excesso maior

atalho

a mesma velha história de calares
de te esvaíres em sombras no lento correr dos dias
no desvanecer das noites
no derramar sereno das madrugadas
até que nasça uma manhã de insónias
e com ela versos póstumos desse momento preciso em que tudo se revela

um dia leio-te tudo
isso palavra a palavra
verso a verso

talvez uma emoção nasça dessa leitura
algo inútil mas real

para que saibas que tenho cadernos vazios
adiados
rabiscados de abandono perpétuo da palavra
cemitérios de silêncio lavrados com a tua ausência

pois dos ecos da tua sombra nem penumbra ficou
nem cinza nem pó
nem a intenção
essa etérea nuvem que por vezes resiste a tudo
nem ela permaneceu
esfumou-se no breu derradeiro do esquecimento

que resquício de contentamento pode sobrar

somente uma promessa quebrada

e é sabido
uma promessa quebrada é atalho para a loucura

alguém

viste um solo lunar
queimado pelo frio e pelo silêncio
mudez petrificada
um esforço derradeiro de seiva e lava
que hibernou desde que o tempo tem memória

talvez mais à frente na combustão da primavera
alguém possa passar os olhos por um livro e lá os deixar para sempre


um verso só

falou até o verão ser uma palavra inteira
não hesitou quando confrontado
entre a possibilidade de poesia ou de silêncio
explicou tudo até ao limite do que pode ser explicado

tu ouviste
mas vagueavas no lado oculto do que ele contou e falou
vagueavas pelo lado oposto de tudo isso

imaginavas as constelações todas
uma a uma polvilhadas no firmamento
ias cassiopeando
como uma febre
conspirando versos declamados
silêncios derradeiros já pronunciados

e se ambos fossem poema
seriam um verso só

pertença

teres vertigens nos olhos
e saber que a espera é o perfume do outono
que na melancolia conhecida dos poemas
jaz o verso abandonado numa imensidão de praia e mar
mudo perante o infinito
como um ninho de cegonha abandonado

não se regressa a nada a não ser ao fim
não existem recomeços
não se acerta o relógio profundo
esteja ele atrasado ou adiantado

os lugares que te sangram na boca
que rangem entre os dentes e cospem saliva e fogo
são a tontura contraditória
de saberes e não saberes
mas que a esses mesmos lugares pertences desde sempre





o resvalar do tempo

no aperto de se ser deserto
na quietude de um dia solitário
o teor das coisas sabe melancolicamente a pouco
as ruínas carregam ecos do passado
como sombras de oniros desaparecidos
e cavalos correndo ao longe nas planícies incendiadas de um oeste esquecido

chega-te à pele o sopro do resvalar do tempo

é certo que para que te seduzam
basta uma metáfora
ou duas

famintos de destino

o futuro com o seu avanço subtil sobre o presente
espera o sol oblíquo do ocaso
e enquanto vai sendo
já o teu rumor foi
pois não se agarra um instante nem se colhe um momento
eles derretem e deslizam por entre os dedos

decides que assim é e cismas até ao absurdo
fazes da teimosia uma arte
um capricho que insiste

sabes bem
que condenados há que vão pelo seu próprio pé para o cadafalso
que encaram o destino com fogo nos olhos
pois já viveram mil vidas e morreram mil mortes
nada temem e tudo anseiam
famintos de destino
e às mãos dos deuses sorvem nas linhas da própria sina

regressos

o vulto que vamos sendo na silhueta que nos calha
vai roendo o murmúrio que arde furtivo e lavra por dentro

e quando a poesia não chega
ela escreve-se sozinha
nasce nas catacumbas da alma
medra até se revelar ao espelho que nos devolve o ser

e diante desse pesadelo ou abismo
tudo se sabe
e só se acorda quando nos lançamos
como se na vertigem dessa queda regressássemos a nós
mesmo quando os regressos são obra de toda uma vida

Delírio

Entrou decidido e sentou-se à minha frente. Não o reconheci. Começou a falar enquanto eu bebia a última cerveja. Já antes dele entrar, essa decisão fora por mim tomada. Uma última cerveja, fosse qual fosse o desfecho.

O que dizia eu não percebia bem, mas evocava gente toda vestida de igual que se juntava para escrever.

Sobre isto, sim, eu já ouvira falar e testemunhara da veracidade da coisa. Não era incomum, perto da hora do fecho, gente igual à que ele descrevia, entrar pela porta do bar, afundar-se numa das mesas escondidas num canto e conspirarem umas quantas coisas impercetíveis.

Lá continuou mais algum tempo, ofegante, até se despedir, levantar-se e, tão decidido como chegou, sair.

Terminei a cerveja, quente e murcha. Paguei. 

Cá fora, no caminho de regresso a casa, apercebi-me de que estava a ser seguido. Estas coisas sabem-se, as sombras e os olhares emanam um peso impossível de velar.

Na esquina seguinte, escondi-me, esgueirei-me por detrás de um contentor do lixo, perscrutei e confirmei. Eram três homens, vestidos de igual, farejavam o meu caminho agora oculto. Deixei-os afastarem-se um pouco e arreei caminho. Mas eram quatro, afinal. Esse com o qual não contava, encostou-me à parede, imobilizou-me e chamou os camaradas. Não lutei. Levaram-me até um prédio abandonado do outro lado da cidade.

Lançaram-me numa cadeira velha. Havia uma mesa, um lápis e umas folhas em branco. Os quatro vestiam um fato preto, uma camisa branca coçada do uso e uma gravata negra e fina com um nó mal-amanhado e meio aberto no tiracolo.

Escreve, disseram.

Não questionei, escrevi, horas a fio.

A sala situava-se numa cave, havia uma janela corrida que dava para a rua, uma luz baça de candeeiro noturno era coada pelo vidro fosco. Os quatro olhavam-me, imóveis. O tempo foi passando, a primeira página redigida, virei-a, continuei.

Um deles saiu pela porta de ferro, quando voltou, trazia uma garrafa de água. Bebi e retomei a escrita.

Dei por mim num daqueles momentos de saber e não saber, como quando se falha e se acerta e, ainda assim, se insiste no erro do costume mas esperando um desfecho diferente. Enquanto escrevo, aceito a receita de enlouquecer, que não há outro caminho que não o da loucura, da entrega total a um instante e assim perpetuar um devaneio. Refugio-me na pele do momento, porque enquanto estas coisas sucedem, não sucedem outras e assim vou adiando o futuro e uma inevitabilidade.

Quando me começa a faltar a inspiração, lembro-me de um professor que tive. Recordo o ar tresloucado e os poemas que declamava a cada início de aula. Fazia-o numa língua que ninguém conhecia e onde cada verso rangia por entre os dentes e um rastro de cuspe e quase sangue desenhava-se nos lábios. Dizia que seria bom haver uma guilhotina à entrada da escola, que não funcionasse, obviamente, mas que se erguesse simbolicamente para que cada aluno e cada professor não esquecesse nunca que entre as profundezas da terra e o firmamento, há sempre cabeças prontas a rolar, eram as palavras dele após esses poemas iniciais. Lembro-me também do conselho que nos dava de cada vez que a mudez da vida se abatia em nós. Olhava-nos com o rosto sério e perguntava, quando não tenho nada a dizer, o que digo? E insistia para que colocássemos essa questão até ao infinito, até que as palavras se esgotassem, até que o silêncio tudo cobrisse com a quietude imensa que o sustenta. E rematava, Prometo-vos, meus caros, que após esse silêncio, alguma coisa irão de dizer, seja uma torrente infinita de coisas, seja um soluço tímido. Em ambos os casos, após tudo isso, podem sempre repetir a pergunta.

Agarrei-me a essa sabedoria e quando parecia que nada mais tinha a despejar nas folhas que se acumulavam à minha frente, lá ia escrevendo. Um pouco mais, palavra a palavra.

As horas passavam e do vidro fosco chegava agora uma luz de nascente, subtil ainda, mas com o prenúncio da manhã. Os meus quatro anfitriões mantinham uma postura grave, concentrada. Aos poucos, reparei que esperavam alguma coisa, ou alguém. Dava para notar, que afinal, tal como eu, desempenhavam um papel a mando de alguém.

Arrependo-me não ter questionado o meu primeiro interlocutor, talvez soubesse mais do que disse, talvez, quem sabe, até soubesse como escapar.

A porta de ferro abriu. Entrou uma mulher, também ela vestida com o mesmo fato, a mesma camisa gasta e o mesmo nó de gravata mal feito pendurado no pescoço.
Pode parar de escrever.

Pegou nas folhas, colocou-as dentro de uma pasta velha que trazia. Saiu.

Do outro lado da porta ouvia alguém a ler. Não sei se era o que eu acabar de escrever ou se uma outra coisa. Os quatros saíram também. Fiquei sozinho e talvez nunca tenha ficado tão sozinho como agora. Impossível esgueirar-me pela janela corrida junto ao teto. Havia que esperar.

Quando a porta voltou a abrir, regressou a mulher. Olhou-me, explicou-me que a solidão é uma queda interminável, que se nota na minha escrita um tempo cansado onde há muito navegam as palavras sem rota nem rumo.

Ao dizer-me estas coisas, senti o corpo a escapar-me, a cadeira a dissolver-se sob o peso da minha atenção, toda a sala nesta cave a evaporar-se. Dei comigo a acordar, de regresso ao bar, no meu canto e mesa do costume. A última cerveja multiplicada e o dono a querer fechar.

Perguntei-lhe se alguém se tinha sentado comigo. Respondeu que não, que nunca ninguém se senta comigo, que eu é que, às vezes, incomodo as pessoas. Pedi desculpa, paguei e sai.

Ninguém me seguiu até casa, só a minha sombra, essa sempre fiel. Até ao dia, quem sabe? Poderá haver uma noite que nem ela me acompanhe e que no meu regresso a casa, ao passar pelo prédio devoluto onde na cave se juntam os loucos escribas, nem penumbra eu desenhe no passeio. Talvez eu me deite no chão, junto à janela corrida que dá para a cave soturma e espreite lá para dentro. Pode ser que me veja, sentado, detido e obrigado a escrever. Pode ser que esse eu me olhe de volta, se aperceba da redundância, que olhar um louco nos olhos é inútil, a loucura arde para além da realidade, ela lavra no entretanto da eternidade.

Estas coisas são o que são, pairam no limite do relato e no limite da verdade. Há muito que vivo estes sonhos, que os caminho até à exaustão, até ser dia, até ser hora da medicação.

Ouço os enfermeiros a chegarem, entram pelo meu quarto, dizem que passei a madrugada muito irrequieto, que sendo assim, vão aumentar a dose.

Sorrio, rendido, quando a ponta da agulha desaparece pela veia.

Pergunto-me, ainda antes de desmaiar, que delírio me irá calhar a seguir.

de novo

vamos de novo
meu amor

falar-te do assombro que há mil noites despontou quando te vi pela primeira vez
esse mergulho para lá de mim numa sede que soube desde logo ser insaciável

porque nisto da paixão há uma ânsia feita de fogo que lavra loucamente
como se as chamas ardessem até ao âmago de todas as coisas

e recordo que no labirinto dos teus caracóis vagueei até à orla da madrugada
onde caímos numa cadeira um sobre o outro
e das cinzas dessa noite renasceu a fénix para todo um futuro de incêndios

polaróide

enquanto o meu café inverna definitivamente
os corvos
esses pássaros enlutados
soluçam pela manhã a preto e branco

antologia

sobra pouca coisa da tua poesia
revisitaste os cerca de seiscentos e oitenta poemas dos últimos trinta anos
voltaste a eles com a sede de sempre e saciaste-a como pudeste

estão feitos
organizados
sepultados finalmente em compêndios
já não são teus

(a prosa
essa ainda cavalga selvagem nas planícies adiadas)

o que resta de versos ou se perdeu ou não arde o suficiente para que te queime a alma

mas há o silêncio infinito do futuro por navegar
madrugadas como jangada
e palavras como naufrágio
resta-te embarcar ou fazer de conta


desígnio

meu amor
no silêncio sigo-te quieto
e no escuro sem ver
vejo-te ainda assim
como se o teu desenho se revelasse por entre a penumbra
e a silhueta que és vai saindo da cama em direção à porta

antes do teu regresso
o que é nosso paira sobre o quarto
e dura uma madrugada
ou um sonho febril

quando voltas
e o leito balança como quem entra num bote
desatracamos de novo e rumamos pela noite

sem compasso nem bússola
sem estrelas nem destino

navegar é já de si um desígnio

Gilreu


a pedra à deriva
mas sendo âncora

ao largo
perto e inalcançável
feita de utopia

um horizonte em si mesmo
Camelot oceânica

Chamem-me Ishmael


Pelo menos em Março de 2011, já eu tinha iniciado a leitura de Moby Dick na versão original. Um ato que não pensei durar mais de uma década, mas que quase de imediato soube ser uma loucura.
Na minha vida de leitor, recordo apenas um livro que comecei e não terminei (Ulisses de James Joyce, também na versão original).
Moby Dick, a bem ou a mal, eu decidi, desde cedo, que iria lê-lo de uma ponta à outra, nem que para isso me afogasse. E afoguei-me várias vezes em interrupções sem conta.

A imagem acima foi ontem à noite, regressado de uma ilha, com o livro na mão e finalmente lido. Agosto de 2024. Pelo menos 13 anos de leitura.

Das centenas de capítulos e páginas, ficou-me um infinito de léxico marítimo por decifrar, fiquei-me pela intuição do que podem significar, um périplo de um barco e de uma tripulação, de seres marinhos, de horizontes sem fim e ondas do tamanho de catedrais. Ficou também a sensação de que as noites em mar alto são de um breu extremo, que mesmo alumiadas por lamparinas a óleo, essa luz tem negrume e a humanidade move-se por sombras tão densas que nem uma centelha faísca.

O que me fica também é o sabor a sal e a noção exata do que é uma obsessão.
A obsessão como fatalidade.
Seja a do autor que se agarrou à escrita, nota-se que exigiu uma entrega maníaca, uma teimosia irredutível, seja à minha leitura de náufrago, que engoli a espaços de meses e meses sem vir à tona, seja  até à loucura de um homem, um capitão numa perseguição compulsiva em busca do que ele julgava ser uma vingança mas não era mais que o reconhecimento de uma inevitabilidade.
Foi-se o barco, foi-se a tripulação e um homem amarrado a uma baleia branca, caindo nas profundezas oceânicas. Sepultados todos num fado inexorável.

Sobreviveu Ishmael e o relato.

Chamem-me Ishmael.

intento

quando parecia que as palavras tinham ido de vez
que não havia mais nada a dizer
ou que o que havia a dizer não sabia como ser dito
ao largo surge o navio que é a poesia
de destino traçado em naufrágio certo
perdição e desencontro

mas nesse desterro
ainda assim
nesse fim submerso e silencioso
na vertigem final do derradeiro verso
há um regresso a casa
um lar primordial
o retorno a um lugar onde nunca estivemos
e que no entanto nunca deixámos

e nesse afogamento
a sede de infinitos não se mata nunca
porque a ânsia de vales e montes
de mares e marés
de céus e madrugadas e de cosmos é insaciável

até mesmo para lá do último sopro
para lá do último sonho
reverbera um intento insondável e indomável

o velho com amnésia

não me lembro daquilo que esqueci
e busco por entre o labirinto da amnésia
a memória de uma coisa qualquer que se me escapou

talvez não por completo
mas ainda assim pressinto que uma boa parte se foi

não sei se é irrecuperável ou se pode renascer
se pode de novo atear o grande incêndio que sei ter lavrado antes

quando vou lá atrás e vasculho
quando mergulho as mãos nas gavetas e recolho os cadernos
e os abro e atiro os olhos às leituras
revejo palavras que escrevi
dedicatórias que fiz outras que acolhi
e ainda assim não me lembro daquilo que esqueci
como se já não houvesse chão para esses passos 

eu amei fui amado
eu desamei depois
com afinco e dedicação pelo meu alienamento de ser tudo tão plenamente que acabei por ser outra coisa
e sendo outra coisa não fui mais o que tinha sido

Pico


passaram alguns dias
e de volta à rotina
habita-me ainda o assombro daquele lugar

não é só uma terra dos sonhos
é um universo paralelo
um sítio para lá do aqui

uma embriaguez e um enlevo
uma miragem magnética cuja vertigem é um doce atordoamento

está ali um monte no meio do Atlântico
e todo um derrame de lava petrificada a cair sobre o mar
no céu desenham-se voos de cagarros e outras aves
nas águas vários cetáceos em torna-viagens  
em terra há gente que luz orgulho na voz e nos olhos
e vinha nascida de um milagre contínuo

um paradoxo de irrealidade
e a certeza de que é inevitável o meu regresso
seja em carne e osso no futuro
ou em pensamento para sempre

nunca nada é sempre tudo

nunca nada é sempre tudo
nem tudo tem de ser sempre alguma coisa

e neste aparente nó edifica-se uma forma de se estar
estoica e serena
porque vamos estando em cada momento

e navegando entre vários esquecimentos
à deriva entre olvidos
de pouco servem certezas absolutas cheias de teimosia

não significa isto que não se nade nesse mar
somente se entende que não basta esbracejar
para não se morrer afogado

um poema que é mentira

um poema que é mentira
pois não se agarra o que é autêntico
ele tem coordenadas presas ao tempo
esculpido em cronos
feito pó poeira e bruma no instante seguinte

um poema que é mentira
como o são todos pois vivem na memória etérea
nas ruinas de uma lembrança

versos que não são mais
mesmo que lidos de novo porque a voz faz-se eco
e o eco extingue-se em murmúrio

poesia que é dúbia
que as certezas são feitas de ilusão

um poema que é mentira
num mundo de tanta verdade
resiste no embuste como símbolo solitário de exatidão

um poema que é mentira
e por isso
livre

ainda não acabei

Manuel Cruz

mergulha-se
e no simbolismo navega-se à flor da alma
contra as correntes e os ventos
ou naufraga-se que no fundo vai dar ao mesmo

já se disse antes
um náufrago não deixa de ser marinheiro
e quem sabe se não é o maior dentre eles
como são poesia os silêncios entre as palavras
ou como é saudade o nó que aperta mesmo antes de se saber do que se sente falta
ou são premonições os sonhos febris nas noites de verão

o que sobra

disse-me que desconfiava
que seguramente eu tinha escrito naquele dia derradeiro
que
conhecendo-me
não seria possível que eu não tivesse escrito

pode ser que tivesse razão
mas eu não confirmei

escrever está para lá de mim na verdade

basta uma melodia a pairar e uma madrugada pela frente
e é sabido
que melodias e madrugadas não faltam
nem palavras nem coisas a dizer

o que sobra é a dúvida de uma leitura
porque um verso trinca-se até que sobre somente silêncio e um pouco de saliva nos lábios

um poema estava escrito

e a voz dela desceu como o sol nas tardes intermináveis de outono
feita de veludo e de abraço felino
um afago com acorde de piano

de pé olhava-a deitada no sofá
o mar a entrar pela janela infinita
a banhar-lhe a almofada de caracóis
os barcos ao largo num balanço subtil
voos de gaivotas no alto de um céu malhado aqui e ali de nuvens passageiras

o tempo a passar devagar
e as orquídeas eternas em em flor
os livros nas estantes a sussurrarem
um caderno sobre a mesa à espera de um verso

fiquei
aguardei que viesse

quando chegou
trouxe vários
e à mesa ficámos enquanto ela dormia

já não sei se bebemos ou se escrevemos
mas no fim
quando a noite já chegara
um poema estava escrito


a sede

bebe até a sede voltar
uma e outra vez
como uma obsessão
e onde saciar é o verbo definitivo e também impossível

uma sede que não se mata
e que insiste em não morrer

a solidão

num dos inúmeros inícios
quando os primeiros seres se refugiavam em cavernas
pintavam o universo nas paredes
tatuavam
com lama carvão e sangue céus e horizontes
ardiam em sonho e alucinações todo o real
nasciam e morriam nesses incêndios dentro dessas mesmas grutas
nunca de lá de saiam de verdade

desconheciam que a morte quando chega
chega para todos no mesmo exato momento
que é quando o tempo se esgota e acaba

e eram ignorantes de que a única escolha que todos temos
é a de poder morrer agora ou morrer mais tarde
não existe outra

e de tão solitários serem
tão abandonados nesses incêndios do espírito
tão órfãos de deuses e de esperança e de acasos
descobriam a solidão em todo o seu esplendor
não tinham a quem rezar
pois eram eles os deuses e as esperanças e os acasos