estas coisas são impossíveis
elas não cabem no próprio sítio onde acontecem
transbordam e acabam por derramar-se
seja em versos
em pasmo
ou num outro lugar sem nome
esse excesso nasce de uma desmesura
e a redundância faz sentido
porque ela vem tanto do que revela por si
como também vem do fundo de nós
como se já lá estivesse antes em duplicado
e ao fulminar perante o olhar
finalmente se visse frente a frente consigo mesma
isso
estas coisas são o encontro delas próprias
o reconhecimento de que existem e pulsam e vibram e reverberam pelo tecido da existência
talvez as descreva com demasiada verve
mas não há como escapar a essa torrente
as palavras enlouquecem por entre os silêncios
e quando não se calam acabam por despontar caoticamente
há um caminho a percorrer antes da rendição
ela é inevitável
mas até lá há um galope desenfreado por cavalgar
não há que ter pudor nem hesitar em emocionarmo-nos até que não sobre mais nada
os milagres são para se engolir
para se devorar
ou não fôssemos nós possuídos por uma fome e sede inatas
há de haver tempo para o abandono da alma
mas enquanto essa capitulação não chega
o olhar tem de perder-se até dar a volta ao seu desencontro
mais um
um desses instantes feitos de infinito
e que ainda assim acabam para que tudo isto não colapse de vez
ao largo
depois do deslumbramento
o que sobeja é a melancolia profunda do espírito
talvez uns quantos versos ou traços leves do que foi uma alegoria
aos poucos
as coisas voltam a ser o que são e o mundo volta ao que é
findo o desfasamento da realidade
e com o regresso ao eixo de uma normalidade que quase esquecemos
instala-se o hiato que se alonga pela vida fora
sem sequer se aperceber
que mais cedo ou mais tarde
um outro impossível há de acontecer

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