dia 20 - vinheta poética

pelo chão o caos de rascunhos e desenhos inacabados
a refeição por terminar
e uma série de teorias da conspiração penduradas pelas paredes
numa teia de recortes e fios e realces coloridos

por entre chávenas de café sujas e espalhadas pela mesa
um gato dormia numa poça de luz vinda da janela

a um canto um tabuleiro de xadrez a um passo de xeque-mate a favor das brancas
um chapéu de pernas para o ar no sofá
um revólver e uma bala 
uma corda com um laço e uma caixa de comprimidos
um cinzeiro meio cheio e um copo meio vazio

ele sentado num banco a ler
talvez um guião
talvez um livro de orações

um som de rádio abafado a vir do vizinho
o calor da tarde a vibrar por toda a sala

haveria uma decisão a tomar em breve
mas quem sabe se seria tomada

talvez hesitasse
e uma eternidade mais tarde
alguém o veria ao longe
já velho a regressar a casa com as compras


ps - Bruxelas, Estação Central, março 2019

dia 19 - despojos de um duelo

o lugar era perdido
o tempo passara em marés antigas
e o que sobrara era um esquecimento do qual somente um eco ainda teimava

mais do que um abandono
eram penumbras que habitavam o infinito

o velho que me contava o que acontecera
falava baixo e a medo

o duelo fora final
e no dia em que aconteceu
um caiu logo
o outro caiu mais tarde

o primeiro a golpe de navalha
o segundo a golpe de remorso

depois disso
o mundo ficou vazia

não me disse mais nada
nem quem tinham sido
nem o porquê do confronto

mas por todo o lado
as sombras ora pareciam manchas de sangue
ora suspiros de arrependimento

ps - Djerba, Tunísia, julho 2017

dia 18 - o tecido do universo

pode ser que desta vez o dia não entre pela janela
e o quarto tenha atracado na madrugada
um porto deserto de memória
onde os únicos vestígios são roupas espalhadas pelo chão
e uma almofada a mais esquecida na borda da cama

nas paredes uma ténue maré de sombras a jogar à preguiça e ao adiamento
a soluçar pelos traços dos quadros silenciosos

dois corpos adormecidos
um nas profundezas de um sonho
o outro abandonado após ter velado tudo isto

existe um rumor subtil num quarto dormente
que conta os segredos que importam
que nada existe
nem dentro nem para lá dos versos

a poesia vive numa lâmina
numa tangente cósmica da existência
que ora implode ora detona
e nesse propagar
seja para dentro
seja para fora
compõe o tecido do universo


ps - Lençóis Maranhenses, agosto 2025


dia 17 - ao vasculhar

ao vasculhar todas as coisas
deu-se conta que nem o presente nem o futuro se agarram

tudo é pretérito

no exato instante em que alguma coisa se gera
ela se afunda na torrente irrefreável do tempo

assim tudo é passado
e há nisso uma melancolia extrema
como se na verdade já tudo acontecera

mas curiosamente
perante essa evidência
algo acalenta uma esperança
um instinto desvairado que luta contra o inabalável
uma teimosia que se calhar
essa sim
é o que mais se aproxima de ser presente
que implode a cada segundo e que renasce no seguinte
e assim sucessivamente
sempre derrotada
mas sempre de regresso

e ao ser nem que seja uma centelha do agora
acaba por lançar a sua própria insignificante sombra no futuro

e assim
mesmo que presente e futuro não se agarrem
eles insistem e desistem para todo sempre


ps - Ilha de Porto Santo, Madeira, julho 2022

dia 16 - confissões

contou-me que houve um tempo em que as quedas eram abismais
bastava um olhar e um vento quente de leste a correr
para que num instante ela mergulhasse numa íris ou pupila
das azuladas às esmeralda passando pelas outonais e noturnas

sim entreguei-me a certas febres e delírios
sentia dentro de mim um estremecimento selvagem

enquanto dizia estas coisas
encostava-se na última cadeira do café e já não me olhava

era mais forte do que eu mas também mais forte do que qualquer um
eu uivava a minha loucura para cima de quem encontrava
e era vê-los esses machos tão cheios deles próprios
a escapulirem-se com medo e vertigens
até eu me temia diga-se

eu ouvia em silêncio e atento
ela olhava pela janela
o vidro sardento de gotas de chuva onde a rua era refletida mil vezes

talvez bebamos mais um copo
e quem sabe
pode ser que o meu olhar cansado pálido e ébrio
seja suficiente para que a noite se incendeie uma vez mais no rosto dela
e eu encare essa tempestade de frente

também tenho os meus devaneios de coragem
nem que seja para os desmascarar

dia 15 - orquídeas

as orquídeas vão ditando ritmos
têm os seus próprios invernos

nas cadências silenciosas
a seiva hiberna numa rotina adormecida

e num instante indefinido e difuso
qual predador invisível
anunciam uma ideia de flor

há um milagre que acontece pela calada da noite
e até as manhãs se surpreendem quando a luz resvala num nó de pétalas
e obriga a uma sombra nova que não existia na véspera

às vezes
só às vezes
acontece o mesmo num rascunho de verso ou num esquiço de quadro

se calhar falam a mesma linguagem
um dialeto furtivo e clandestino
proferido nos recantos encobertos e ocultos do que existe

dia 14 - do condenado

jejuou a própria noite
como se por milagre pudesse escapar à madrugada

talvez até o tenha conseguido
vivendo um embuste tão verdadeiro
que se desfez a diferença entre a irrealidade e a noite já velha de tanto ser

o dia quando chegasse que dissesse ao que vinha
por ele já não importava fazer-se perguntas nem esperar respostas
o tempo seria um silêncio e não mais uma conversa

tudo fora dito
ou pelo menos tudo tivera a oportunidade de ser dito
para ele chegava

agora
restava o inominável
e esse infinito teria de bastar

um condenado à morte
uma vez cumprida a sentença
não devia ser obrigado a morrer uma outra vez
mas ainda assim
é sabido
morre-se num dia e morre-se depois num outro mais à frente

pouco importa

ao criar o esquecimento
os deuses sucumbiram ao próprio feitiço
pois nada é novo de facto
somente olvido


ps - detalhe de uma pintura de Franz Sedlacek, "Aparição acima das árvores (segunda versão)"
foto em Viena Abril 2022

dia 13 - somos mais um

para o meu sobrinho
Francisco

uns dias antes de chegares
a irmãe disse-nos

daqui a pouco seremos mais um

e então chegaste

temos cada um um sonho ou dois para ti
temos ideias e sentimentos e coisas
e isso tudo até se pode confundir com um plano

de mim haverá uma bola com certeza
e poesia e música e um olhar que eleve o teu para o cosmos e os infinitos
e mais tarde quem sabe um vinho ou outro e um segredo ou evidência
e o que for preciso e o que nos formos lembrando juntos pelo caminho

mas não é o mais importante
não é o fundamental

o que importa é que haja carinho e um sorriso na alma
seja nos dias mais luminosos como nos mais escuros

chegaste e somos mais um
e ao sermos mais um
somos todos de novo outra vez
graças a ti
somos todos
de novo
outra vez

dia 12 - ascensão

procurou a menor faísca possível
toda ela rodeada do mais profundo dos breus
como se a noite tivesse vindo do início dos tempos e coberto o mundo inteiro

por entre as camadas negras da madrugada
vasculhou até sangrar dos dedos
e da ferida apenas um cheiro coalhado se ergueu até ao rosto oculto

a manhã chegaria com certeza
mesmo que com o atraso de muito poema por escrever
não há silêncio que não sucumba a uma fraqueza

quando enfim o sol nasceu e o dia foi crescendo até ser azul por inteiro
ascendeu
levado por querubins invisíveis

talvez tenha pago dívidas antigas
talvez nessa procura da centelha primordial tenha encontrado o segredo dos deuses

há penitências que desconhecemos até que se revelam e ganham vida própria
e perante o palco da vida se despedem e se retiram



dia 11 - luto impossível

a carcaça de um piano
o luto impossível de melodias inacabadas nos ventos que vêm de longe
que deslizam por uma língua de mar até lamber o porão de uma alma abandonada
como um quadro atracado no deserto perdido de escamas

o rosto sem esgares nem alívios
silhueta derramada nas areias esquecidas de um tempo que se calhar nem passara

quem sabe se estas coisas são verdade
ou plágios de uma outra vida

certo é que vibra algures entre o silêncio e o que é dito
um rumor indomável e selvagem

só assim se explicam a soturnidade e outras melancolias

dia 10 - o romance por escrever

contou-me uma história

apaixonara-se por uma mulher de nome de Lara
que mais tarde descobri ser o nome de uma primeira namorada do primo
e que quando ele ouvira o nome na infância
de tal forma se encantara que talvez aí tenha imaginado a sua

paralelamente a esse amor
vivia perseguido por uma espécie de grupo organizado
uns caçadores de escrita disse-me
vestidos de fato preto e gravatas da mesma cor apertadas nos colarinhos de camisas brancas já gastas

vivia uma realidade peculiar
e ao mesmo tempo que era precisa e rica em detalhes
também era abstrata e difusa

optei por confrontá-lo
segui-lo pelos delírios a ver se a verdade se revelava por si só

disse que tivera de escapar
deixá-la para trás para fugir a essa gente
que se exilara num destino antigo de férias
onde em tempos ela e ele se amaram com a sede e a fome das paixões

foi-lhe escrevendo mas nunca recebeu resposta
até que descobriu que estava para morrer
com essa notícia decidiu enviar-lhe uma última carta e recolher-se a lembrá-la por dentro
queimar em monólogos internos os dias que lhe restavam

e eu que o segui pela narrativa
dou comigo à beira de um mar final
as mãos por doer pelo que ainda não foi escrito


dia 9 - a espera

nos arquipélagos dos sonhos
onde envelhecem palmeiras devagar
encontram-se os suspiros de sempre
e as sedes nunca saciadas do presente cansam-se sozinhas
até serem abandonadas pela nossa própria resignação

há sempre um triz de desistência antes da esperança regressar
um instante em que já nem o corpo clama por uma alma que o preencha ou o carregue
um céu órfão de voos das aves que há muito se evadiram
pedras silenciosas por debaixo das ondas
banhadas por espumas que vão e espumas que vêm
e marés indecisas que ora recuam ora avançam

no exame celeste
o olhar desliza pelo firmamento
resvalando nas subtis matizes azuladas do éter
num instante mais profundas
noutro mais leves e luminosas

enquanto o olhar desaba e naufraga
sobra sempre essa vertigem de infinito

e até aprendermos a caber num poema
os versos suspendem-se e aguardam
numa espera que arde em lume mudo

dia 8 - pertenças

escreveram uma pequena história sobre eles
falava de um quarto que era dela e da vista da janela que era dele
tornara-a dele mesmo se a vista fazia parte do alheamento de ambos

o quarto era dela portanto
o calor e o suor eram deles
e o silêncio do depois não era de ninguém
órfão e perdido errava pelas manhãs que se faziam tarde

enquanto ela se arrependia sem sequer se aperceber
ele ia à janela disfarçar o incómodo

no fim
para ambos
a perfeição desértica dos corpos derretidos um do outro
contrastava com o remorso do antes e o remorso do depois

ela afundava-se nela própria
ele esfumava-se à varanda na paisagem exterior

ambos estavam de acordo no desacordo dos seus feitios
um amor imperfeitamente completo e por isso perfeitamente escusado

cada um com o que era de cada um
um quarto uma vista
e um certo desencanto que ainda assim não era o suficiente para impedir um entretanto
esse entretanto que desunia o tal silêncio por umas horas

um entremeio de fogo pelos corpos abandonados um do outro

dia 7 - onde nem palavra nem silêncio reinam

desta vez falou mais pausadamente
não parecia o louco de outras noites
e parecia procurar com o que dizia
não apenas compreensão
mas também uma qualquer absolvição
como se cada um de nós que o ouvíamos fôssemos sacerdotes de um qualquer culto
(o que não anda longe de uma verdade)

eles levam-me de noite para caves de prédios devolutos
e obrigam-me a escrever

não sou o único nessa penitência que não sei de onde vem
outros há a meu lado que pela madrugada fora se debruçam sobre papel e silêncio

quando o sol ameaça nascer
roubam os rascunhos e despejam-nos para a manhã mais solitária de sempre

não tenho como provar o que afirmo
mas acreditem para que não morra sozinho este meu delírio

calou-se até lhe encherem o copo de novo
ninguém respondeu
mas trocámos olhares cúmplices entre os ouvintes

sabíamos que dele já não haveria mais palavras escritas para extorquir
logo à noite não valeria a pena entrar-lhe pelo quarto dentro e levá-lo
este estava vazio de esperança
sobrava-lhe um curioso sentimento de culpa
mas isso era para outro tipo de gente explorar

nós o que queremos são palavras cravadas e forjadas até darem a volta a si mesmas
ansiamos pela revelação de um absoluto
cremos no dia em que tudo acabe por ser dito e nada mais haja a dizer

almejamos por esse instante onde nem palavra nem silêncio reinam



dia 6 - pontuação

disse-o algures num pretérito velado
que a minha pontuação se rege pelo sopro dos versos
que não existem pontos nem vírgulas que não sejam ditados pelo pulmão

as perguntas ou exclamações revelam-se na fluidez do que é dito

é certo que por vezes se confundem as intenções e a rebeldia inata das palavras
mas isso é o que acontece quando arde a poesia no incêndio que é

não distingo prosa ou poema
somente fôlegos
uns cavalgam até ao desmaio
outros cravam-se num instante fulminante de libertação

a epifania do que vou dizendo
é órfã de leis e dependente de cada leitura selvagem

não sou eu que escolho estas coisas
elas vão nascendo e morrendo com cada leitor
esmorecendo até o próprio eco emudecer
sem rastro nem memória

dia 5 - náufrago

ouvira falar de magos errantes
e recordava-os agora entre silêncios e solidões tímidas 

tinham-lhe dito que se juntavam nas clareiras possíveis dos sonhos
e que por ritmos invocados ao cair da noite
e velas a debaterem-se com os últimos soluços de pavios cansados
se agarravam às chamas no limiar da luz e das sombras

até que nos derradeiros instantes
antes de um manto de breu cobrir de vez essas noites de encantamento
e enquanto os outros tapavam os olhos entre os joelhos
um deles abria os braços ao céu anunciando a tempestade final

nestas alucinações e suores noturnos
a febre vinha de um lugar sem nome
ardia pelas planícies do corpo até que o incêndio do espírito
fundia céu chão e horizonte
cegando não só a vista mas também o própria alma

quando a manhã chegava
e a cama alagada escorria pelos lençóis até ao mar da rotina 
voltava a naufragar

e
à deriva mantinha-se
até um novo delírio o afogar uma vez mais



dia 4 - arrepio cósmico

na aparente ordem a desordem
porque existe um jogo de sombras
que empata na geometria final

pergunto-me se os infinitos também acabam
se se cansam de tanto ser e se se desalentam até se renderem

haverá um limite para lá das formas e até mesmo da poesia
um cessar de tudo o que pulsa

só o que finda pode dar lugar a um recomeço

e a esperança e o assombro
hão de pedir um silêncio para clamar

só quem sorve as madrugadas de insónia e de versos arrancados à loucura
pode imaginar uma manhã que nunca acaba de nascer
como se o tempo não se cumprisse e ainda assim todo ele se desenrolasse de uma só e única vez

tudo e nada
implodindo até ao âmago
até a um arrepio cósmico na alma que nos calhou


dia 3 - simetria

existem outonos que não terminam nunca
erguem-se ao ritmo da seiva
e tombam em cadência lenta

dizia estas coisas para ele próprio
sem audiência e no escuro de um quarto

quando se chegava à janela
e lá fora o silêncio era ainda mais denso
sustinha a respiração até não poder mais
e um sopro lhe fugir pela boca embaciando o vidro brevemente

esta árvore tem séculos
e sei-lhe o segredo

antes de fechar a janela
completou

é o segredo da simetria
onde os ramos são raízes
e as raízes galhos num céu de húmus


dia 2 - tanto é muito como nada

lá atrás escrevi um poema que nunca cheguei a ler
no entanto sei-o de cor

não os versos nem as palavras
mas o âmago o tom e o caminho

disse por lá coisas que me saíram da alma
disse-as da única forma possível na altura
com falta de ar e a voz tragada por um desalento que não ousei contemplar de novo
pelo menos de frente

ainda assim
agora
passados outros poemas esquecidos
o que sobra
tanto é muito como nada

não me lembro dos versos nem das palavras
mas recordo o desmoronamento da alma
os ventos de uma tristeza sem rumo
e o labirinto emaranhado dos sentimentos

esse poema jaz algures
não cheguei nunca a mostrá-lo
e quando o vou espreitar
olhando-o em rascunho silencioso
revela-se como bruma desfocada

e eu
desconhecido de mim mesmo
ou pelo menos esquecido de quem fui
questiono se o passado existiu mesmo
ou se tendo existido
será a razão única do assombro

isto
tanto é muito como nada
o que já é alguma coisa




dia 1 - começar por ela

começar por ela
deixar que o ano se desenovele
se espraie pelo cabelo cacheado da minha rendição
da minha incondicional rendição aos pés do porvir que agora nasce

é sabido
todo o início é uma promessa
toda a viagem um regresso
todo o final um silêncio

que os versos tragam um pouco de noite
que as madrugadas tragam os dias seguintes
e assim sucessivamente até que o uivo seja maior do que a lua

não há princípio que não se esgote
não há poesia sem melancolia e um pedaço de solidão
não há amanhã sem a silhueta dela a desenhar os contornos do universo

começar por ela
para que nada falte
nunca





nenhures

perguntou

agora que aqui chegámos
onde o chão termina com o último verso
nesta falésia que não acaba nem começa
neste mar que nem é silêncio nem é palavra
por onde se vai
se nem sequer há por onde ir e se até mesmo de onde se vem já não cabe

eu
sem resposta
relembrei todo o périplo que foi o passado
cada fala em todos os palcos
cada silêncio em todas as madrugadas

porque enquanto houve o que dizer e o que calar
pelo menos sabia-se que um antes e um depois se encadeavam

mas agora
que tudo já fora dito e tudo já fora calado
o que dizer ou silenciar num lugar sem lugar
num nenhures sem mapa que o indique ou conceba

talvez se invente outra poesia
uma outra forma de dizer e de calar
para que de novo haja futuro
e onde se reinvente a mentira e a verdade

rematou

talvez
pensei
talvez

versófagos 

não se sabe bem quando tudo começou
mas aos poucos
sem ninguém se aperceber de verdade
essa gente foi tomando conta das madrugadas e das palavras

o resto de nós
acordou uma manhã e a poesia tinha sido sequestrada

não é fácil de explicar
mas de cada vez que alguém escrevia
eles e elas apareciam sem aviso
tomavam os versos e deixavam ameaças

quem insistisse
era levado também durante a noite
obrigado a escrever até ser dia e depois despejado num beco deixando para trás versos e palavras

estranhamente
não se sabia bem o que faziam com os escritos
mas cada vez mais
as caves dos prédios devolutos eram ocupadas por esses versófagos e suas vítimas durante a noite

vestiam fatos pretos camisas brancas enrugadas e gravatas negras com nós desalinhados
andavam em grupos de dois ou de três
só um falava

farejavam cada linha escrita e impunham uma vontade irrefreável

ei-los a entrarem-me em casa

pergunto-me em que beco acordarei amanhã

vim

voltaste?

não, vim

voltar é um outro caminho com outra laia de bagagem
é carregar a imensidão de eus que se avoluma a cada instante
amalgá-los no caldo quântico e imprevisível da alma do espaço e do tempo
e ao voltar descarregar todo esse peso de infinito
desmoronando-se sobre o próprio regresso
como uma avalanche do espírito e as torrentes bíblicas do passado

o que eu fiz foi vir

e vir é brotar do nada
emergir como as aparições fantasmagóricas
figurar como aquelas coisas que são antes de alguma coisa ter sido
um nevoeiro que quase não chega a ser

vim e é só



jornada

passou os olhos por poemas que não eram dela
despenhou o olhar pelos versos
deixou-se cair
e nesse céu demasiado azul onde tudo é feito da mesma vertigem
abraçou o tombo até à mudez
até ao último soluço de eco que se evapora na escuridão

e nesse breu profundo
nesse labirinto derradeiro de sombras
adivinha a escarpa de onde se lançou
jazendo a seus pés no destino da queda

após recuperar o fôlego
desenha uma vénia de abandono
como aqueles gladiadores derrotados mas que ainda assim escaparam à morte por um capricho de imperador

em que o polegar na balança do fado
apontou ao firmamento e não às catacumbas da existência

recolhe-se lambendo a alma combalida
hiberna de si mesma
e mil noites depois
quando enfim a madrugada termina e o sol ameaça despontar
faz-se à escalada
trepando de novo numa leitura invertida
verso a verso e estrofe a estrofe
subindo devagar até ao cimo

lá no alto
a paisagem mudara
o mundo era outro
nada nem ninguém fica indiferente após um poema


o mar de pequenos nadas

foi dito
e é sabido
que existe no universo mais espaço vazio do que preenchido
entre os átomos e as moléculas
os elementos e em todo o infinitamente pequeno existe o limbo da matéria
o mar de pequenos nadas

explicam
aqueles que sabem
que nada verdadeiramente se toca
mas ainda assim
a nossa humanidade sabe bem que algumas coisas se tocam
têm forçosamente de se tocar

se não como se explicam os estremecimentos da alma
os assombros do espírito
as vertigens profundas dos seres

e não
o campo eletromagnético não explica tudo
tem de haver uma onda invisível e indizível que percorre o tecido do mundo e da existência
tem de haver poesia nos olhares que nos arrebatam e apenas as palavras certas a podem nomear
tem de viver algo nos gestos de carinho ou na promessa dos mesmos
até mesmo no adiamento do afago que quase desenhamos

a certeza inabalável de que nesse espaço vazio onde nada vagueia haverá um rumor feito de outra voz
um eco cuja vibração não se mede com nenhum aparelho que não seja a rendição do corpo perante a promessa da beleza momentânea de cedermos
de sermos mais que nós mesmos
ou talvez
de deixarmos de ser o que quer que sejamos para passarmos a ser uma outra coisa


por vezes

por vezes
a estrada estende-se para lá da própria solidão
como se o caminho sorvesse quietude até que sobre somente
um esquecimento do que foi um eco

lembro-me bem
de como muitos se lançaram na rota
uivando como lobos sob a maior das luas
para depois se esfumarem num nevoeiro sem memória
como se nunca tivessem existido
porque os que os viram partir se desviveram também eles
e porque a viagem os apagou a cada passo

os franceses têm uma palavra para estas coisas

néant
menos que nada
ou um nada tão nada
que de ter dado a volta a si mesmo
uma inânia se tornou

e a estrada
por vezes
assim espraiada até ao longe do longe
é um abismo
um afastamento ensimesmado
uma singularidade como lhe chamam os físicos

por vezes
quando escrevo e é noite
e ela dorme lá dentro
e a vida espera por mim amanhã
sonho em fazer-me a essa estrada
não para que me anule e silencie
mas precisamente o contrário
para que eu seja o primeiro a lá chegar
ao outro lado e poder fazer o que mais importa em qualquer viagem
regressar

o obituário adiado

ao passares junto ao portão de ferro do cemitério
espreitaste lá para dentro a medo
e viste nesse jardim de silêncio
campa sim campa não
as velas a luzir nos intervalos do negrume da madrugada
alumiando em soluços de brilho fosco
os epitáfios e os retratos sépia de quem por lá repousa

enquanto as mãos apertavam as grades frias e húmidas da entrada
e o teu olhar espiava essa pequena necrópole
uma voz rouca atravessou a noite

amigo
não se debruce tanto nem se apoie demasiado
olhe que cá entra antes do tempo
e eu só volto ao serviço amanhã de manhã

segui a montante o conselho proferido
e vi a um canto sentado numa cadeira
de cigarro na boca e um copo na mão
o velho coveiro da aldeia

acenei e segui caminho


o homem da paragem

já o tinha visto algumas vezes
mas hoje
pela primeira vez
decidiu falar sozinho enquanto o autocarro não chegava

à espera na paragem
estava ele
eu um pouco mais afastado
e uma senhora sentada

o homem vestia um fato preto com uma gravata desalinhada na camisa branca já gasta
tinha uma pasta na mão e uma gabardine sob um dos braços

luto sem outro corpo para destruir que não o meu
e na dor dessa violência enterro a dor verdadeira que nunca é minha por inteiro
diluo o amor pelas coisas simples que a vida me dá
bebo para entregar a alma
e órfão dela levanto num voo solene feito de sombra
deixo para trás a carcaça que eles já não podem explorar

enquanto falava abriu a mala e ia deitando no lixo da paragem
papéis rabiscados de uma letra ilegível

eles obrigam-me a escrever todas as noites
atiram-me para uma sala e forçam-me a versar até que a madrugada se esgote
e no fim quando já não me restam palavras
roubam as que eu despejei e atiram-me de volta para a manhã

sentou-se ao lado da senhora e continuou

mas hoje não
hoje um pouco antes do sol raiar
parei de escrever e saí da sala a correr
atirei-os ao chão e libertei-me
disparei pela rua e só há pouco me apercebi que tinha trazido a mala a gabardine e os versos desta noite

parecia enfim descansar
o autocarro espreitava já ao longe no fundo da estrada

partilha

curiosamente
enquanto a tarde se derramava lá fora
e os dois bebíamos há várias horas junto à janela
partilhaste um sonho que tinhas tido na noite anterior

disseste

eram cavalos em fogo correndo ao longe
um fogo de água que deixava um rastro de espuma sobre a areia

na verdade
contrapus

esse sonho foi meu
lembro-me dos equídeos e dessas chamas oceânicas
desse deserto arenoso junto ao mar

quando os copos se esvaziaram e nos despedimos
concluímos ambos que era melhor passar a noite em branco
partilhar uma insónia em vez de um sonho
dedilhar inquietações e evitar estas vulnerabilidades

já no passeio depois de nos encolhermos cada um para dentro de um cachecol
selamos a promessa
nenhum de nós revelaria mais os seus sonhos
e que se durante o sono por um acaso nos encontrássemos
representaríamos o papel de desconhecidos
seguindo cada um o seu caminho onírico



o ventríloquo

na ânsia de teres coisas para dizer
perdes o rumo
ou descobres
que afinal nunca o tiveste

que no fundo
o caminho já lá estava
que as rotas nascem muito antes de existirem origens ou destinos

o céu ou o mar
são a razão de uma janela existir
não o contrário

que as palavras vêm depois da própria poesia

na verdade
o que tens para dizer
não é o que dizes
mas antes o próprio sopro que o diz

sê o ventríloquo que te calhou ser



só e vazio

reencontrar a voz
ou pelo menos o rastro
os indícios que invariavelmente tudo acaba por deixar

nada existe sem semear um eco
uma ruína um testemunho

ou então
talvez
existam mesmo lugares desconhecidos
e silêncios que nem o chegaram a ser

mas desses não reza a poesia
serão sítios inomináveis
tão solitários que nem a quietude ousa revelar-se

não sei
vim aqui com uma réstia de esperança

daqui saio
tão só e vazio
como nas vésperas de nascer
ou nos amanhãs dos lutos