dia 5 - náufrago

ouvira falar de magos errantes
e recordava-os agora entre silêncios e solidões tímidas 

tinham-lhe dito que se juntavam nas clareiras possíveis dos sonhos
e que por ritmos invocados ao cair da noite
e velas a debaterem-se com os últimos soluços de pavios cansados
se agarravam às chamas no limiar da luz e das sombras

até que nos derradeiros instantes
antes de um manto de breu cobrir de vez essas noites de encantamento
e enquanto os outros tapavam os olhos entre os joelhos
um deles abria os braços ao céu anunciando a tempestade final

nestas alucinações e suores noturnos
a febre vinha de um lugar sem nome
ardia pelas planícies do corpo até que o incêndio do espírito
fundia céu chão e horizonte
cegando não só a vista mas também o própria alma

quando a manhã chegava
e a cama alagada escorria pelos lençóis até ao mar da rotina 
voltava a naufragar

e
à deriva mantinha-se
até um novo delírio o afogar uma vez mais



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