não parecia o louco de outras noites
e parecia procurar com o que dizia
não apenas compreensão
mas também uma qualquer absolvição
como se cada um de nós que o ouvíamos fôssemos sacerdotes de um qualquer culto
(o que não anda longe de uma verdade)
eles levam-me de noite para caves de prédios devolutos
e obrigam-me a escrever
não sou o único nessa penitência que não sei de onde vem
outros há a meu lado que pela madrugada fora se debruçam sobre papel e silêncio
quando o sol ameaça nascer
roubam os rascunhos e despejam-nos para a manhã mais solitária de sempre
não tenho como provar o que afirmo
mas acreditem para que não morra sozinho este meu delírio
calou-se até lhe encherem o copo de novo
ninguém respondeu
mas trocámos olhares cúmplices entre os ouvintes
sabíamos que dele já não haveria mais palavras escritas para extorquir
logo à noite não valeria a pena entrar-lhe pelo quarto dentro e levá-lo
este estava vazio de esperança
sobrava-lhe um curioso sentimento de culpa
mas isso era para outro tipo de gente explorar
nós o que queremos são palavras cravadas e forjadas até darem a volta a si mesmas
ansiamos pela revelação de um absoluto
cremos no dia em que tudo acabe por ser dito e nada mais haja a dizer
almejamos por esse instante onde nem palavra nem silêncio reinam
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