dia 14 - do condenado

jejuou a própria noite
como se por milagre pudesse escapar à madrugada

talvez até o tenha conseguido
vivendo um embuste tão verdadeiro
que se desfez a diferença entre a irrealidade e a noite já velha de tanto ser

o dia quando chegasse que dissesse ao que vinha
por ele já não importava fazer-se perguntas nem esperar respostas
o tempo seria um silêncio e não mais uma conversa

tudo fora dito
ou pelo menos tudo tivera a oportunidade de ser dito
para ele chegava

agora
restava o inominável
e esse infinito teria de bastar

um condenado à morte
uma vez cumprida a sentença
não devia ser obrigado a morrer uma outra vez
mas ainda assim
é sabido
morre-se num dia e morre-se depois num outro mais à frente

pouco importa

ao criar o esquecimento
os deuses sucumbiram ao próprio feitiço
pois nada é novo de facto
somente olvido


ps - detalhe de uma pintura de Franz Sedlacek, "Aparição acima das árvores (segunda versão)"
foto em Viena Abril 2022

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