dia 2 - tanto é muito como nada

lá atrás escrevi um poema que nunca cheguei a ler
no entanto sei-o de cor

não os versos nem as palavras
mas o âmago o tom e o caminho

disse por lá coisas que me saíram da alma
disse-as da única forma possível na altura
com falta de ar e a voz tragada por um desalento que não ousei contemplar de novo
pelo menos de frente

ainda assim
agora
passados outros poemas esquecidos
o que sobra
tanto é muito como nada

não me lembro dos versos nem das palavras
mas recordo o desmoronamento da alma
os ventos de uma tristeza sem rumo
e o labirinto emaranhado dos sentimentos

esse poema jaz algures
não cheguei nunca a mostrá-lo
e quando o vou espreitar
olhando-o em rascunho silencioso
revela-se como bruma desfocada

e eu
desconhecido de mim mesmo
ou pelo menos esquecido de quem fui
questiono se o passado existiu mesmo
ou se tendo existido
será a razão única do assombro

isto
tanto é muito como nada
o que já é alguma coisa




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