ele ia dizendo coisas
de como nunca se lembrava dos nomes
e de como no fim
provavelmente
também não reconheceria os rostos de quem cruzara
tudo nele era uma preocupação com a memória
do que sobraria após tudo acontecer
que ecos
ou vestígios
e sobrando
quem os descodificaria
quem seriam as testemunhas do passado
ou pelo menos
quem perderia tempo em conhecer o passado
esta mania
fazia com que o presente se lhe escapasse
o agora era uma indefinição
e tinha dificuldade em manter o discurso
nós ouvíamos e tentávamos apaziguá-lo
mas a dúvida começava a alastrar-se a todos
um de nós teve a ideia de propor um diário
escrever no fim de cada dia o que acontecera
e outro sugeriu que leriam o relato no início do dia seguinte
assim começou essa tradição
de nos juntarmos de manhã e relermos a véspera
nessas leituras o tempo não passava
a cada dia as discussões voltavam a um ontem
e cada ontem acumulava outros mais
demos por nós presos num instante
ancorados num labirinto cuja saída nos trazia de volta ao início
ninguém envelhecia
ninguém mudava
e os meses e anos pareciam estagnar
havia um tédio imenso a crescer por entre os silêncios
quem via de fora achava-nos loucos
tentavam até resgatar-nos desse impasse
mas em vão
o nosso círculo fechara-se de tal forma que nada o conseguia alcançar
curiosamente
aquele que temia não lembrar
afundava-se ainda mais na amnésia
os relatos matinais pareciam perdê-lo num esquecimento absoluto
e era preciso ensinar-lhe até o próprio nome
eu
foi por milagre que escapei
tendo ficado de cama um dia
quando regressei na manhã seguinte
nenhum deles me reconheceu
e ao lerem a véspera recente não me encontraram a não ser em breves menções de outros dias passados
discutiram entre eles e decidiram expulsar-me
mas nessa altura já eu tinha virado costas
dei por mim a acordar de um longo hipnotismo
e hoje
quando passo no jardim e os vejo reunidos
já nem sei que cara têm nem que nome carregam
se calhar é melhor anotar estas coisas e dedicar-me à releitura do que passou
e recomeçar uma vez mais
e outra ainda
até que o tempo dê a volta a si mesmo
e no fim do que ditam os devaneios
tudo ficar absolutamente igual
esquecido

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