dia 289 - esquecer

por entre as sombras das árvores
ele ia dizendo coisas

de como nunca se lembrava dos nomes
e de como no fim
provavelmente
também não reconheceria os rostos de quem cruzara

tudo nele era uma preocupação com a memória
do que sobraria após tudo acontecer
que ecos
ou vestígios

e sobrando
quem os descodificaria

quem seriam as testemunhas do passado
ou pelo menos
quem perderia tempo em conhecer o passado

esta mania
fazia com que o presente se lhe escapasse
o agora era uma indefinição
e tinha dificuldade em manter o discurso

nós ouvíamos e tentávamos apaziguá-lo
mas a dúvida começava a alastrar-se a todos

um de nós teve a ideia de propor um diário
escrever no fim de cada dia o que acontecera
e outro sugeriu que leriam o relato no início do dia seguinte

assim começou essa tradição
de nos juntarmos de manhã e relermos a véspera

nessas leituras o tempo não passava
a cada dia as discussões voltavam a um ontem
e cada ontem acumulava outros mais

demos por nós presos num instante
ancorados num labirinto cuja saída nos trazia de volta ao início

ninguém envelhecia
ninguém mudava
e os meses e anos pareciam estagnar
havia um tédio imenso a crescer por entre os silêncios

quem via de fora achava-nos loucos
tentavam até resgatar-nos desse impasse
mas em vão
o nosso círculo fechara-se de tal forma que nada o conseguia alcançar

curiosamente
aquele que temia não lembrar
afundava-se ainda mais na amnésia
os relatos matinais pareciam perdê-lo num esquecimento absoluto
e era preciso ensinar-lhe até o próprio nome

eu
foi por milagre que escapei
tendo ficado de cama um dia
quando regressei na manhã seguinte
nenhum deles me reconheceu
e ao lerem a véspera recente não me encontraram a não ser em breves menções de outros dias passados

discutiram entre eles e decidiram expulsar-me
mas nessa altura já eu tinha virado costas

dei por mim a acordar de um longo hipnotismo
e hoje
quando passo no jardim e os vejo reunidos
já nem sei que cara têm nem que nome carregam

se calhar é melhor anotar estas coisas e dedicar-me à releitura do que passou
e recomeçar uma vez mais
e outra ainda
até que o tempo dê a volta a si mesmo
e no fim do que ditam os devaneios
tudo ficar absolutamente igual
esquecido


Cefalù, Sicília, julho de 2016

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