dia 288 - escrevo

uma aldeia num vale
encafuada entre montanhas

o mar tão longe tão distante que nem existe
ou se existe
é num lugar remoto que se tornou um esquecimento desmesurado

ainda assim
nesse vale sem rio nem água
vejo sobre um dos telhados alguém a içar uma vela
e fazer da casa um barco pronto a singrar

ou talvez fosse uma bandeira
não importa
a ser bandeira
talvez fosse a de uma caveira branca sob um pano negro
um pirata pronto a rumar livre
e nas galés
mesmo se vazias
haveria o alento de remar para lá de um horizonte escondido pelas colinas

talvez os montes fossem ondas e haveria que galgá-las
fosse graças a um ímpeto tresloucado
fosse por um acaso de sorte milagrosa

e se não conseguisse
se se abatessem sobre as casas feitas embarcações essas vagas gigantes de granito e basalto
então que o naufrágio fosse total
que acabasse no fundo dos fundos
na mudez onde se repousa para sempre
junto das carcaças dos cachalotes e das grandes baleias azuis
junto das medusas e dos polvos cujos tentáculos se estendem entre os continentes

neste deserto
sob um marasmo intenso
havia que ser marinheiro
mesmo sem uma maré
mesmo sem um vento a soprar
havia que saciar essa sede de solidão

o que o silêncio dita
acaba sempre por arrebatar a alma
porque o segredo que nos assombra revela-se por inteiro
e face a nós mesmos
nesse encarar definitivo
o duelo é inevitável

não se escapa ao apelo dos céus e dos poços
a vertigem é uma queda da qual não se foge

quando dou por mim
estou em cima de um telhado a levar com a brisa quente vinda do vazio
com os olhos lançados ao largo
afinal sou eu que iço uma vela ou bandeira
e sem bússola nem compasso
sem conhecer as estrelas nem saber de rumos nem rotas
sem força que chegue nos braços para remar
ainda assim
recuso-me a ficar em terra

e então
escrevo


Parque Nacional de Timanfaya, Lanzarote, Canárias, julho de 2015

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