nada
estas duas imensidões
intermitentes em duelo
e eles
no meio
a ver de que é feito esse lugar sem nome
a tentar pegar-lhe com as mãos e levá-lo à boca para descobrir um sabor
e não há como fugirem à espera de que chegue um quando outro se vai
esse tudo e esse nada
entre eles
não existe propriamente o meio termo
o que há é inominável mas igualmente inevitável
tanto é
que ambos se olham até deixarem de ser ver
como quando o sol entra pela vista e a encandeia num repente
e tanto é
que enquanto esperam há um silêncio a uivar num sopro que não acaba nem de nascer nem de morrer
tudo
nada
e o resto
e o resto não é uma sobra
não é uma ruína nem vestígio
é um alento mais na textura das coisas
é tempo dentro do tempo
e espaço para lá do espaço
um exagero da existência a pulsar por entre os corações escondidos
já o disseram uma vez
ao lado de um assombro
caminha um prazo que se definha
há uma beleza particular naquilo que é efémero
como aquelas promessas que nunca se cumprem
que se acumulam nos arrependimentos até serem esquecidas à superfície e mais tarde declamadas nas catacumbas da alma
eles sabem
os dois
que o que vai e vem
entre tudo e nada
é um pêndulo feito guilhotina
a lâmina fende o horizonte destas coisas
aflorando resvés ou escapando ao largo
um dia
ou uma tarde
ou uma noite
o arco dessa elipse endoidecida
invariavelmente
decapita a poesia
mas nunca os versos
como as árvores
os poemas
morrem de pé

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